Em 19 de julho de 2025, o Premier Li Qiang inaugurou as obras do Projeto Motuo no Rio Yarlung Tsangpo, no Tibete — uma barragem China que custará US$ 167 bilhões e terá 70 GW de capacidade, três vezes mais que a Three Gorges, a maior usina do mundo atual. Operação prevista para a década de 2030.
A barragem China no Rio Yarlung Tsangpo é o maior projeto hidrelétrico já tentado. Segundo o Brazil Journal e a Exame, as obras começaram oficialmente em julho de 2025.
A barragem China no rio Yarlung Tsangpo vai produzir 300 bilhões de kWh por ano — o equivalente ao consumo total de eletricidade do Reino Unido em 2024.
Portanto, o projeto supera tudo que já foi construído. A Three Gorges, a atual maior usina do mundo, gera 22,5 GW e produz cerca de 100 bilhões de kWh por ano.
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O Projeto Motuo terá 70 GW e triplicará esse número.
Contudo, o tamanho colosssal traz riscos proporcionais. A região é altamente sísmica, localizada no Planalto Tibetano-Himalaia.
Além disso, o projeto aumenta tensões com Índia e Bangladesh, países que dependem do mesmo rio — o Brahmaputra — em seu trecho mais baixo.
Por que o Rio Yarlung Tsangpo é único no mundo para uma barragem China

O Yarlung Tsangpo é um rio de características únicas.
Com 2.900 km de extensão, ele nasce no Himalaia e cai 2.000 metros em apenas 50 km ao cruzar o Grande Cânion do Yarlung Tsangpo — o cânion terrestre mais profundo do mundo.
Essa queda vertiginosa representa um dos maiores potenciais hidráulicos do planeta. Conforme a Climainfo, nenhum outro trecho de rio no mundo combina esse desnível com esse volume de água.
Portanto, cinco usinas em cascata aproveitarão cada metro dessa descida. O conjunto formará o Complexo Motuo, supervisionado pela China Yajiang Group, uma empresa estatal criada exclusivamente para gerir o projeto.
Os números do Projeto Motuo: o que US$ 167 bilhões compram
O custo total do projeto é de US$ 167 bilhões — mais do que os Estados Unidos investiram para construir toda a Estação Espacial Internacional (US$ 150 bilhões).
Conforme o Brazil Journal, o financiamento virá de recursos estatais, com as receitas futuras de energia como garantia de retorno.
Além disso, a escala de geração é difícil de imaginar. Os 300 bilhões de kWh anuais que o Projeto Motuo vai produzir equivalem a:
- 3 vezes a produção anual da Three Gorges (100 bi kWh/ano)
- O consumo total de energia elétrica do Reino Unido em um ano
- Cerca de 70% da capacidade hidrelétrica total instalada no Brasil (~110 GW)
- Energia para alimentar centenas de milhões de residências por décadas
Da mesma forma, a capacidade de 70 GW supera em muito a de Itaipu — a maior do Brasil, com 14 GW. Portanto, o Projeto Motuo vai gerar energia equivalente a 5 Itaipus operando simultaneamente.
A Three Gorges JÁ desacelerou a Terra — o Motuo pode fazer o quê?

A NASA confirmou que a Three Gorges causou dois efeitos físicos mensuráveis no planeta. O primeiro: desacelerou a rotação da Terra em 0,06 microssegundos por dia.
O segundo: deslocou o eixo do planeta em 2 centímetros. Isso ocorreu porque 40 bilhões de toneladas de água foram redistribuídas na superfície terrestre.
Nesse sentido, o Projeto Motuo é uma incógnita. Com 3 vezes mais capacidade, o volume de água represada será proporcionalmente maior.
Contudo, pesquisadores ainda não publicaram modelos confirmados sobre o impacto geofísico específico do novo complexo.
Ainda assim, o precedente existe.
Em comparação, o Complexo Motuo operará em altitude ainda maior — o Tibete fica a cerca de 3.500 metros acima do nível do mar, o que amplifica os efeitos gravitacionais de redistribuição de massa.
As tensões com a Índia e os riscos ambientais
O Yarlung Tsangpo vira o Rio Brahmaputra ao entrar na Índia e em Bangladesh.
Conforme a Exame, o Ministério das Relações Exteriores da Índia declarou em janeiro de 2025 que o país “irá monitorar e tomar as medidas necessárias para proteger nossos interesses”.
Além disso, a região onde as obras acontecem é altamente sísmica. O Planalto Tibetano-Himalaia é uma das zonas de maior atividade tectônica do planeta.
Consequentemente, os túneis escavados por montanhas elevam o risco de acidentes em escala sem precedentes.
Da mesma forma, o projeto ameaça o ecossistema do Grande Cânion do Yarlung Tsangpo, que é a maior reserva natural da China. Ambientalistas alertam para “danos irreversíveis” ao desfiladeiro, segundo a Climainfo.
Por outro lado, a China afirma que “o projeto não terá nenhum impacto negativo rio abaixo” e promete comunicação constante com Índia e Bangladesh. A verificação independente dessas garantias ainda não foi possível.
O que o Projeto Motuo revela sobre a estratégia energética da China

O Projeto Motuo encaixa numa estratégia maior: a China comprometeu-se com neutralidade de carbono até 2060. Portanto, cada GW de hidrelétrica construída substitui combustíveis fósseis no gigantesco sistema elétrico chinês.
Conforme o Brazil Journal, o projeto foi incluído no 14º Plano Quinquenal (2021-2025) e aprovado definitivamente em 2024.
Assim, o “projeto do século” — como Li Qiang chamou — é parte de uma aposta estratégica de longo prazo em energia limpa.
Em comparação, outros megaprojetos hidrelétricos pelo mundo parecem modestos. Como demonstrou a Grande Barragem do Renascimento Etíope, com 5.150 MW e 14 anos de obras, a escala do Motuo é de outra ordem de grandeza.
E enquanto o Brasil debate sobre energia nuclear e renováveis — tema explorado no paradoxo do 8º maior produtor de energia do mundo — a China simplesmente começa a construir.
Afinal, como um país pode investir US$ 167 bilhões em energia limpa em plena zona sísmica, com riscos geopolíticos reais — e ainda assim seguir em frente?
A resposta revela tudo sobre a velocidade de decisão das duas economias. Veja também como o Brasil, 8º maior produtor de energia do mundo, ainda tem 35 milhões em pobreza energética.
Ainda assim, os riscos geopolíticos e ambientais são reais e não devem ser subestimados.
Nota: os dados sobre o Projeto Motuo são baseados em reportagens de julho a dezembro de 2025. As obras tiveram início em 19 de julho de 2025.
O projeto está em fase inicial de construção. A operação completa está prevista para a década de 2030, mas prazos podem ser revistos.
