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Árvores de Natal jogadas fora viram muralha natural na Inglaterra, onde voluntários enterram milhares de pinheiros nas praias de Lancashire para prender areia, reconstruir dunas e proteger casas depois que a costa perdeu 80% dessas barreiras desde o século XIX

Escrito por Ana Alice
Publicado em 23/05/2026 às 19:31
Atualizado em 23/05/2026 às 19:36
Árvores de Natal descartadas ajudam a reconstruir dunas em Lancashire, retendo areia e reforçando a proteção natural contra o avanço do mar. (Imagem: Ilustrativa)
Árvores de Natal descartadas ajudam a reconstruir dunas em Lancashire, retendo areia e reforçando a proteção natural contra o avanço do mar. (Imagem: Ilustrativa)
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Árvores de Natal descartadas nas praias de Lancashire ajudam a formar novas dunas que retêm areia e reforçam a proteção costeira em uma região marcada por erosão, urbanização e recuperação de habitats naturais.

Na costa de Lancashire, no noroeste da Inglaterra, árvores de Natal descartadas depois das festas são usadas para ajudar na reconstrução de dunas que funcionam como defesa natural contra o avanço do mar.

O trabalho ocorre em praias ao sul de Blackpool, especialmente na região de Lytham St Annes, onde voluntários enterram os pinheiros em valas rasas para que os galhos retenham areia levada pelo vento e favoreçam a formação de novas barreiras costeiras, segundo a Lancashire Wildlife Trust.

A iniciativa integra o Fylde Sand Dunes Project, parceria da Lancashire Wildlife Trust com os conselhos locais de Fylde e Blackpool, com financiamento da Environment Agency.

De acordo com o projeto, a região perdeu mais de 80% das dunas nos últimos 150 anos, principalmente em razão da expansão de cidades litorâneas sobre áreas que antes eram ocupadas por areia e vegetação costeira.

O que antes formava uma faixa extensa de dunas, avançando para o interior, foi reduzido a trechos mais estreitos entre o mar e áreas urbanizadas.

Para os responsáveis pelo projeto, essas formações têm papel direto na proteção da comunidade local, porque ajudam a reduzir a exposição de casas, ruas e habitats à erosão e a inundações costeiras.

Árvores de Natal viram barreiras de areia em Lancashire

Depois do Natal, moradores doam árvores naturais já sem enfeites, fitas ou festões.

Nas praias, equipes técnicas e voluntários posicionam os troncos e galhos diante das dunas existentes.

Com a ação do vento, a areia fica presa entre os ramos, acumula-se sobre as árvores e amplia gradualmente a faixa de dunas.

O método é usado como uma forma de armadilha de areia.

Em vez de uma estrutura rígida de concreto, o projeto utiliza um resíduo sazonal para estimular um processo natural de formação de dunas.

A velocidade do acúmulo varia conforme o vento, a maré, a posição das árvores e o volume de areia disponível na praia.

A Lancashire Wildlife Trust informa que o trabalho já contribuiu para ampliar em cerca de 90 metros a largura do sistema de dunas de Fylde.

Na campanha mais recente, a organização recebeu mais de 2 mil árvores para a ação de recuperação costeira.

Embora a presença de árvores de Natal enterradas na areia chame atenção de visitantes, a prática é realizada na região há mais de três décadas.

Nos últimos anos, a ação passou a ser apresentada pelos conservacionistas como parte das medidas locais de adaptação à elevação do nível do mar e à erosão costeira.

Dunas costeiras ajudam a proteger comunidades do avanço do mar

Dunas costeiras são formações móveis, moldadas pela combinação de vento, areia, vegetação e marés.

Quando preservadas, ajudam a dissipar parte da energia das ondas e oferecem uma camada de proteção antes que a água alcance áreas urbanizadas.

Além da função de defesa costeira, esses ambientes servem de habitat para plantas, insetos, aves e répteis adaptados a condições de sal, vento e solo arenoso.

A vegetação tem papel importante nesse processo, porque suas raízes ajudam a fixar a areia e a manter a estrutura das dunas.

No Reino Unido, a perda desse tipo de ambiente é registrada em diferentes regiões.

A Natural England estima que o país tenha perdido cerca de 30% das dunas de areia desde 1900.

Entre as pressões citadas pelo órgão estão desenvolvimento urbano, mudanças climáticas, alterações no uso do solo e modificações na dinâmica natural da areia.

Na costa de Fylde, a urbanização histórica limitou o espaço disponível para que as dunas se movimentem e se renovem naturalmente.

Amy Pennington, da Lancashire Wildlife Trust, disse ao Guardian que as dunas “se estendiam por milhas e milhas para o interior”, mas foram reduzidas à medida que as cidades ocuparam a paisagem costeira.

A mesma especialista afirmou que essas formações são importantes porque representam a principal defesa marítima disponível para a comunidade local.

Em áreas onde a faixa de areia é estreita, a perda de dunas pode aumentar a exposição de residências, vias e equipamentos públicos próximos à orla.

Elevação do nível do mar aumenta pressão sobre o litoral britânico

A elevação do nível do mar é um dos fatores que ampliam a pressão sobre áreas costeiras.

O National Oceanography Centre informou, em 2025, que registros de marégrafos indicam aceleração da alta do nível do mar no Reino Unido desde o início do século XX.

Segundo a instituição, cerca de dois terços da elevação observada ocorreram nas últimas pouco mais de três décadas, e o ritmo britânico aparece acima da média global.

Esse avanço altera o alcance das marés e pode aumentar o impacto de ressacas.

Quando tempestades coincidem com marés altas, a água chega a áreas mais elevadas da praia e remove parte da areia acumulada.

Em trechos onde as dunas já foram reduzidas, o desgaste tende a deixar a linha costeira mais exposta.

Pennington relatou que as ressacas vêm empurrando a maré para mais longe na praia, o que faz com que as dunas sejam lavadas com maior frequência.

Por esse motivo, os responsáveis pelo projeto avaliam adaptar a estratégia: além de expandir as dunas em direção ao mar, a equipe considera ampliar a altura dessas formações nos próximos anos.

Lagartos-da-areia retornam às dunas de Fylde

A reconstrução das dunas também integra uma ação de conservação da fauna.

Entre 2017 e 2021, o Fylde Sand Dunes Project participou de um programa para reintroduzir lagartos-da-areia na região.

A espécie é classificada por organizações de conservação como uma das mais raras entre os répteis do Reino Unido e depende de habitats como dunas e áreas secas de vegetação baixa.

De acordo com a Lancashire Wildlife Trust, 412 filhotes criados em cativeiro foram soltos nas dunas desde 2018.

O monitoramento identificou cascas de ovos, filhotes nascidos no próprio ambiente e indivíduos juvenis, sinais usados pelos conservacionistas para acompanhar a adaptação da espécie ao local.

O Conselho de Fylde informou que os lagartos foram levados às dunas como parte de um projeto de longo prazo para recuperar a distribuição histórica da espécie.

Em 2020, a prefeitura já destacava que mais de 300 indivíduos haviam sido liberados e que ovos encontrados no ano anterior indicavam condições adequadas para reprodução.

Para visitantes, avistar um desses animais é improvável, segundo os responsáveis pelo monitoramento.

Andy Singleton-Mills, gerente de conservação da área no Conselho de Fylde, afirmou ao Guardian que rastrear os lagartos pode ser como “procurar uma agulha em um palheiro”, porque eles evitam a presença humana.

Reaproveitamento de árvores reforça restauração ambiental

O uso de árvores de Natal descartadas não substitui políticas públicas de adaptação climática nem impede, isoladamente, a erosão costeira.

No projeto de Fylde, a técnica é apresentada como uma medida complementar, associada à restauração de habitat, ao reaproveitamento de resíduos e à proteção de comunidades costeiras.

Na prática, as árvores funcionam como uma estrutura temporária para reter areia.

Com o passar do tempo, o material orgânico fica coberto, enquanto a areia acumulada e a vegetação assumem a função de estabilizar a duna.

Gramíneas costeiras, como a marram grass, ajudam nesse processo por meio de raízes longas, que fixam o solo arenoso e reduzem a dispersão provocada pelo vento.

A artista Holly Moeller, que já pintou as dunas de Lytham em aquarela, disse ao Guardian que as pessoas correm o risco de considerar essas paisagens garantidas.

Segundo ela, as dunas podem parecer vazias à primeira vista, mas concentram formas de vida que nem sempre são percebidas por quem passa pela praia.

A experiência de Lancashire mostra como uma ação local, baseada em material descartado e trabalho voluntário, pode integrar estratégias de conservação ambiental e defesa costeira.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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