Arqueólogos identificaram mais de 170 gravuras monumentais em três pontos até então inexplorados da Arábia Saudita. As imagens, feitas entre 12.800 e 11.400 anos atrás, sugerem presença humana organizada, rotas de migração e marcas de território no deserto.
Uma descoberta arqueológica no norte da Arábia Saudita está mudando a leitura sobre quem viveu no deserto há mais de 12 mil anos. Pesquisadores documentaram 176 gravuras individuais em painéis de arte rupestre espalhados por três locais até então inexplorados da região, em imagens que chegam a medir até 3 metros de comprimento.
O material foi encontrado na borda sul do deserto de Nefud e foi datado entre 12.800 e 11.400 anos atrás, período em que lagos sazonais e rios temporários voltaram a aparecer depois de séculos de aridez extrema. Para os arqueólogos, não se trata apenas de arte: as figuras parecem ter servido como marca de presença, território e movimento em uma paisagem hostil.
A equipe internacional responsável pelo estudo afirma que os painéis ajudam a preencher uma lacuna importante da arqueologia da Arábia entre o Último Máximo Glacial e o início do Holoceno. E os detalhes impressionam: além da quantidade de figuras, algumas foram entalhadas em penhascos tão altos que exigiram trabalho em locais estreitos e perigosos.
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Gravuras gigantes apareceram em três pontos inéditos da região
As descobertas vieram de Jebel Arnaan, Jebel Mleiha e Jebel Misma, áreas que não haviam sido exploradas antes. No total, os arqueólogos registraram mais de 60 painéis de arte rupestre, com representações de camelos, íbex, equídeos, gazelas e auroques.
Entre as figuras, 130 são detalhadas e em tamanho real. Algumas foram talhadas em paredões de até 39 metros de altura, em locais que dominam a paisagem do deserto. Segundo os pesquisadores, isso mostra que o esforço para produzir as imagens era grande demais para ter sido casual.
As imagens podem ter marcado água, rotas e território

O estudo indica que as gravuras surgiram justamente quando a água voltou a circular de forma sazonal no deserto. A análise dos sedimentos confirmou a existência de antigos lagos e cursos d’água, recursos decisivos para grupos humanos que avançavam para o interior da região.
Para a arqueóloga Maria Guagnin, do Instituto Max Planck de Geoantropologia, essas gravuras “não são apenas arte rupestre”. Elas teriam funcionado como declarações de presença, acesso e identidade cultural.
Já o coautor Ceri Shipton, da University College London, afirma que os painéis podem ter sinalizado direitos territoriais e também memória entre gerações, apontando para uma organização social mais complexa do que se imaginava para grupos que viveram naquele ambiente árido.
Objetos encontrados perto das gravuras ampliam o mistério
Além das imagens, a equipe localizou artefatos que indicam conexões distantes. Entre eles estavam pontas de pedra no estilo levantino El Khiam e Helwan, pigmento verde e contas de dentalium. O conjunto sugere ligação com populações neolíticas do Levante, no Oriente Próximo.
Mesmo assim, os pesquisadores destacam que a escala, o conteúdo e a posição das gravuras da Arábia são diferentes de tudo o que já foi encontrado na área. Segundo Faisal Al-Jibreen, da Comissão do Patrimônio do Ministério da Cultura da Arábia Saudita, a forma simbólica registrada nos painéis reflete uma identidade cultural própria, adaptada a um ambiente seco e difícil.
Estudo reforça a presença humana no deserto em um período decisivo
A pesquisa foi publicada na revista Nature Communications com o título “Monumental rock art illustrates that humans thrived in the Arabian Desert during the Pleistocene-Holocene transition”. Para os autores, os dados mostram que comunidades humanas não apenas passaram pela região: elas se adaptaram, circularam e deixaram marcas duradouras no território.
Michael Petraglia, líder do Green Arabia Project, diz que a abordagem interdisciplinar do estudo começa a preencher uma lacuna crítica no registro arqueológico do norte da Arábia. No fim das contas, os painéis encontrados no deserto ajudam a contar uma história maior sobre sobrevivência, mobilidade e identidade em um dos ambientes mais duros do planeta.
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