Relatório Ten New Insights in Climate Science 2025/2026 mostra como calor extremo, aquíferos, dengue, biodiversidade e economia formam uma crise climática sistêmica.
Segundo a Global Sustainability, o relatório Ten New Insights in Climate Science 2025/2026, publicado em fevereiro de 2026 pela Cambridge University Press, é a edição mais abrangente da síntese anual que, desde 2019, identifica os avanços científicos mais relevantes para políticas climáticas. O documento foi produzido por 70 pesquisadores, com contribuições de mais de 150 especialistas de instituições de todos os continentes, e cobre pesquisas publicadas entre janeiro de 2024 e junho de 2025.
O que distingue a edição de 2025/2026 não é apenas a severidade dos diagnósticos individuais, mas a convergência de múltiplos sistemas em deterioração simultânea. Os dez insights documentam problemas que poderiam parecer independentes em uma leitura superficial: temperatura oceânica, aquíferos subterrâneos, dengue, produtividade econômica, biodiversidade, sumidouros de carbono e políticas de remoção de CO₂.
O relatório mostra, com precisão crescente, que esses problemas não são independentes. Eles são manifestações conectadas da mesma crise sistêmica, vistas por ângulos diferentes. E as políticas climáticas desenhadas para resolver cada uma separadamente estão, de forma recorrente, deixando escapar a interação entre os sistemas.
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Calor recorde em 2023 e 2024 deixou uma herança climática que vai além da temperatura média global
O primeiro insight do relatório estabelece o contexto para todos os outros: 2023 e 2024 foram os dois anos mais quentes já registrados na história instrumental, quebrando recordes com margens que surpreenderam até modelos climáticos considerados pessimistas. Mas o ponto central identificado pelos pesquisadores vai além do número da temperatura média global.
O desequilíbrio energético da Terra, diferença entre a energia solar que entra e a energia infravermelha que sai, está em patamar elevado e crescente. Isso significa que o planeta está acumulando calor em uma velocidade que a temperatura de superfície sozinha não consegue mostrar.
Grande parte desse calor excedente vai para os oceanos, que absorveram mais de 90% do aquecimento global adicional das últimas décadas. O restante contribui para derreter gelo, aquecer a atmosfera e elevar a temperatura dos continentes.
A implicação desse desequilíbrio energético elevado é direta: mesmo que as emissões de gases de efeito estufa fossem zeradas imediatamente, o planeta continuaria aquecendo por décadas devido à inércia do calor já acumulado nos oceanos. O sistema climático tem um atraso de resposta, e 2023 e 2024 indicaram que esse atraso está encurtando, com o calor acumulado aparecendo na superfície em velocidade maior do que parte dos modelos projetava.
Sumidouros terrestres de carbono mostram sinais de estresse e colocam em xeque metas climáticas baseadas na absorção natural de CO₂
O terceiro insight documenta um processo que ameaça uma das suposições centrais dos acordos climáticos internacionais: os sumidouros terrestres de carbono, como florestas, solos e vegetação continental, estão mostrando sinais de estresse crescente. Esses sistemas absorvem CO₂ da atmosfera e funcionam como parte essencial do equilíbrio climático global.
Dados de satélite da ESA que rastreiam o armazenamento de carbono em ecossistemas do hemisfério norte mostram queda na biomassa a partir de 2016, o que pode sinalizar maior liberação de carbono da vegetação para a atmosfera.
A floresta amazônica se tornou emissora líquida de carbono
A floresta amazônica se tornou emissora líquida de carbono em 2023 por estresse hídrico e térmico, sem aumento dos incêndios além da média histórica. Florestas boreais na Sibéria e no Canadá, que haviam sido sumidouros consistentes por décadas, estão sendo revertidas por incêndios de maior intensidade associados ao aquecimento.
O problema sistêmico é que os compromissos climáticos nacionais, as NDCs submetidas pelos países ao Acordo de Paris, são calculados com base em estimativas de absorção por sumidouros naturais que podem estar se tornando menos confiáveis.
Se os sumidouros absorvem menos do que os modelos assumem, as metas de emissões precisam ser mais ambiciosas para atingir o mesmo resultado climático. É como um fundo de poupança que passa a render menos do que o esperado: o depósito é o mesmo, mas o retorno climático diminui.
Clima e biodiversidade formam um ciclo de retroalimentação que torna ineficaz tratar as duas crises como problemas separados
O quarto insight é um dos mais importantes do relatório e também um dos mais subestimados no debate público: clima e biodiversidade não são duas crises paralelas.
São duas faces do mesmo sistema de retroalimentação. O aquecimento climático altera distribuição de espécies, sincronias fenológicas e regimes de distúrbio, reduzindo a biodiversidade. A perda de biodiversidade, por sua vez, enfraquece ecossistemas que regulam o clima.
Esse mecanismo é cada vez mais documentado. Ecossistemas degradados reduzem sua capacidade de atuar como sumidouros de carbono, alteram o ciclo hídrico e tornam-se mais vulneráveis a incêndios.

Ambientes mais vulneráveis a incêndios liberam mais carbono. Mais carbono aquece mais o planeta. Mais aquecimento reduz mais biodiversidade. O ciclo se fecha, e cada volta da retroalimentação aumenta a dificuldade de estabilização.
A implicação política é direta. As três Convenções do Rio, sobre Mudança Climática, Biodiversidade e Desertificação, foram negociadas separadamente, têm secretariados separados, financiamentos separados e ciclos de revisão separados.
Os países submetem NDCs climáticas e NBSAPs de biodiversidade como documentos distintos, geralmente desenvolvidos por ministérios diferentes e com pouca coordenação.
O relatório identifica essa fragmentação como obstáculo central: é impossível interromper a retroalimentação entre clima e biodiversidade com políticas que tratam os dois como problemas independentes.
Aquíferos subterrâneos estão caindo mais rápido em um mundo com chuvas intensas, seca prolongada e bombeamento crescente
O quinto insight coloca em destaque um problema que muitas análises climáticas ainda tratam como secundário: a depleção de aquíferos subterrâneos está acelerando globalmente, e o clima é um dos principais motores desse processo.
Aquíferos fornecem aproximadamente 50% de toda a água doméstica do mundo e mais de 40% da água de irrigação global, o que os torna uma infraestrutura natural invisível para cidades, agricultura e segurança alimentar.
A recarga desses aquíferos depende da infiltração da precipitação pelo solo, processo que pode levar meses ou anos entre a chuva que cai e a água que chega ao lençol freático. Quando o regime de chuvas muda, com menos eventos suaves e mais chuvas intensas e breves, a taxa de infiltração cai mesmo que o volume total de precipitação se mantenha.
Chuvas intensas escoam antes de infiltrar. Chuvas suaves infiltram progressivamente. O aquecimento também eleva a evapotranspiração, reduzindo ainda mais a quantidade de água que chega aos aquíferos.
O relatório documenta consequências em cadeia: poços secando, rios perdendo fluxo de base quando aquíferos rebaixados deixam de alimentá-los, subsidência de solo em cidades onde o bombeamento compacta sedimentos e intrusão de água salgada em aquíferos costeiros quando o rebaixamento do lençol permite o avanço do mar.
A depleção de aquíferos ameaça diretamente a segurança alimentar, porque compromete a irrigação que sustenta parte relevante da produção agrícola tropical e subtropical, justamente nas regiões mais expostas ao estresse climático.
Dengue se tornou um termômetro do aquecimento global e mostra como o clima já redesenha a saúde pública
O sexto insight usa a dengue como um dos indicadores mais concretos e perceptíveis de como o aquecimento climático já está alterando a saúde pública global.
Em 2024, a Organização Mundial da Saúde reportou 14,2 milhões de casos de dengue, o maior surto global já registrado na série histórica. O número real provavelmente é maior, já que a própria OMS reconhece que os casos reportados representam subestimativa significativa em razão das limitações de diagnóstico e notificação em muitos países.
Em 2025, a expansão geográfica da dengue para latitudes que antes não registravam transmissão local confirmou a mudança em curso.
Regiões da Europa mediterrânea, do sul dos Estados Unidos e áreas de altitude elevada na América Latina passaram a ficar mais expostas ao vetor. O Aedes aegypti está colonizando novos territórios porque o aquecimento tornou esses ambientes mais habitáveis durante mais meses do ano.
O mecanismo é preciso. O Aedes aegypti tem uma janela de temperatura ideal para sobrevivência, reprodução e transmissão viral. Temperaturas abaixo de 16°C ou acima de 35°C limitam sua atividade. O aquecimento desloca essa janela para altitudes maiores e para latitudes mais próximas dos polos.
Ao mesmo tempo, encurta o período de incubação extrínseca do vírus dentro do mosquito, fazendo com que mosquitos infectados se tornem transmissores mais rapidamente. O Brasil, que já concentra grande parte dos casos globais de dengue, aparece como estudo de caso detalhado no relatório.
Estresse térmico reduz produtividade do trabalho e atinge com mais força países tropicais que menos contribuíram para o aquecimento
O sétimo insight conecta o diagnóstico ambiental à economia global de forma direta. O estresse térmico causado pelo aquecimento climático está reduzindo produtividade laboral e rendimentos em escala mensurável. Essa perda econômica é maior justamente nos países que menos contribuíram para o problema e que mais precisam de recursos para se adaptar a ele.
O mecanismo fisiológico é bem estabelecido. Quando a temperatura do ar combinada à umidade ultrapassa os limites que o corpo humano consegue compensar pela transpiração, a capacidade cognitiva e física diminui, o risco de doenças relacionadas ao calor aumenta e as horas de trabalho ao ar livre ou em ambientes não climatizados precisam ser reduzidas por segurança. Trabalhadores agrícolas, da construção civil, da pesca artesanal e de serviços externos, bases importantes das economias tropicais, estão entre os mais expostos.
O relatório quantifica perdas significativas de horas de trabalho e produção econômica em países tropicais e subtropicais ao longo do século, com impactos diretos sobre trabalhadores expostos e efeitos indiretos sobre cadeias de suprimento e comércio internacional.
A ironia documentada pelos autores é estrutural: os países mais afetados pela perda de produtividade causada pelo aquecimento são, em geral, os que têm menor capacidade fiscal para investir em adaptação, como ar-condicionado industrial, sistemas de alerta precoce e infraestrutura de saúde.
Remoção de CO₂, créditos de carbono e políticas climáticas isoladas não resolvem uma crise que funciona como sistema integrado
O relatório fecha com insights sobre soluções, incluindo remoção de CO₂ da atmosfera e combinações efetivas de políticas de mitigação. O ponto comum é direto: nenhuma tecnologia ou política funciona isoladamente para reverter o conjunto de problemas documentados pelos outros insights. A remoção de dióxido de carbono por captura direta, florestamento ou alteração de rochas tem potencial real, mas enfrenta desafios de escala, custo e verificação.
Os mercados de crédito de carbono, mecanismo de financiamento central para muitas estratégias de remoção, enfrentam desafios sistêmicos de integridade.
Estudos publicados em 2024 e 2025 identificaram que uma fração significativa dos créditos emitidos não representa remoção real de CO₂, seja porque projetos florestais não atingiram as projeções, seja porque contabilizaram reduções de desmatamento em comparação com cenários hipotéticos que nunca se concretizariam independentemente do crédito.
O insight sobre combinações de políticas efetivas é talvez o mais pragmático. A pesquisa acumulada sobre redução de emissões mostra que não existe medida única suficiente.
Precificação de carbono, regulações de eficiência, subsídios para tecnologias limpas e padrões de informação interagem de formas que podem se reforçar ou se contradizer, dependendo do contexto institucional e econômico em que são aplicados. A conclusão é que políticas fragmentadas não conseguem responder a uma crise sistêmica.
O que os dez insights climáticos mostram sobre a falha de tratar clima, água, saúde, biodiversidade e economia como problemas separados
O que unifica os dez insights é a mesma conclusão que aparece em relatórios como o Planetary Health Check 2025 e o State of the Climate Report: os sistemas em deterioração, clima, biodiversidade, aquíferos, saúde pública e produtividade econômica, estão interconectados de formas que as políticas atuais ainda não capturam adequadamente. A crise não se organiza por ministérios, setores ou planilhas separadas.
Tratar cada um desses temas de forma isolada pode parecer administrativamente mais simples, mas é insuficiente diante da natureza do problema.
O aquecimento afeta a dengue, a dengue pressiona sistemas de saúde, o calor reduz produtividade, a perda de produtividade diminui capacidade de adaptação, aquíferos em queda comprometem irrigação, e ecossistemas degradados reduzem a capacidade de absorção de carbono.
O relatório não propõe uma solução única. Ele propõe uma condição anterior a qualquer solução: reconhecer que o problema é sistêmico. Respostas fragmentadas a um problema sistêmico são, matematicamente, insuficientes. A pergunta que fica é se os governos ainda vão tratar clima, água, biodiversidade, saúde e economia como crises separadas ou como partes de um mesmo sistema em deterioração acelerada.


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