Em duas décadas, o aposentado Hélio da Silva transformou as margens degradadas do Córrego Tiquatira, na Zona Leste de São Paulo, ao plantar mais de 42 mil árvores, criando uma floresta urbana que alterou a paisagem, o clima local e a relação da comunidade com o espaço público
O contraste é visível até do alto. Onde antes predominava uma faixa cinza no bairro da Penha, hoje se estende uma floresta com verde contínuo.
Ao longo de duas décadas, o cenário do Córrego Tiquatira mudou radicalmente, passando do mato ralo e do lixo acumulado para uma floresta urbana consolidada.
O atual Parque Linear Tiquatira possui mais de três quilômetros de extensão e figura entre as maiores áreas verdes contínuas em meio ao concreto paulistano.
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Uma transformação fora do poder público
A mudança não nasceu de políticas governamentais nem de projetos ambientais estruturados, mas da decisão individual de um morador da região.
Hélio da Silva, hoje com 74 anos, vive no entorno há mais de seis décadas e acompanhou de perto o avanço da degradação.
Em novembro de 2003, ele anunciou à família que mudaria aquele cenário em dez anos, mesmo diante do espanto e da preocupação.
Segundo ele, a área era perigosa, marcada por assaltos e abandono, o que levou familiares a tentarem desestimulá-lo.
A reação contrária funcionou como impulso. Quando todos duvidaram, Hélio decidiu seguir em frente com ainda mais determinação.
Rotina silenciosa de plantio de árvores
Nos fins de semana, ele saía com mudas, adubo e enxada, plantando poucas ou dezenas de árvores por vez.
Dias depois, retornava para regar, acompanhar o crescimento e registrar cada ação em um fichário detalhado.
Até hoje, mantém anotações com local, data e espécie de cada uma das mais de 42 mil árvores plantadas.
Antes da urbanização, o Tiquatira era um curso d’água sinuoso, relativamente limpo, mas com pouca arborização em suas margens.
Com a canalização, o leito natural deu lugar ao concreto poluído, e na década de 80 o entorno virou avenida.
Devolver o verde à cidade
Em 2003, Hélio iniciou o processo de devolver às margens parte do que a urbanização havia retirado do espaço.
Com o tempo, as árvores cresceram, a sombra retornou e espécies animais voltaram a ocupar a área.
Hoje, as copas se encontram sobre o córrego, criando um ambiente que ele descreve como refúgio e lugar de paz.
Nos primeiros anos, a persistência foi testada. As 200 primeiras mudas foram destruídas, seguidas por outras 400.
Diante disso, ele decidiu plantar cinco mil, mantendo a rotina até que a floresta se consolidasse.
Biodiversidade e conforto térmico com a floresta criada
Atualmente, as margens do Tiquatira abrigam 164 espécies da Mata Atlântica, incluindo ipê, jatobá, pau-brasil e araucária.
Cerca de 3 mil árvores são frutíferas, como jabuticaba, goiaba, cereja-do-rio-grande e bacupari, atraindo fauna diversa.
Grupos de observação de aves já registraram 69 espécies no local, entre tucanos, pica-paus, sabiás e bem-te-vis.
Segundo Hélio, a diferença de temperatura entre o parque e ruas próximas chega a cerca de cinco graus.
Em dias de calor intenso, o contraste é perceptível ao sair do asfalto da Avenida Governador Carvalho Pinto e entrar na floresta.
Ele afirma ainda que as árvores ajudam a conter alagamentos, retendo parte da água das enxurradas durante chuvas fortes.
Impacto social e inspiração coletiva
Com o tempo, a antiga área ociosa e insegura virou ponto de encontro para famílias, escolas e moradores da região.
Na Penha, o trabalho solitário se transformou em referência e convite à participação coletiva no cuidado ambiental.
Moradores relatam que o espaço passou a integrar a rotina, com caminhadas diárias e atividades educativas frequentes.
Em 2023, a Fundação SOS Mata Atlântica informou que a iniciativa inspirou cerca de 300 grupos de plantadores no Brasil.
A informação da Fundação SOS Mata Atlântica destaca a expansão do exemplo, do Norte ao Sul do país.
Continuidade e legado
Além de seguir plantando, Hélio participa de palestras em escolas e eventos sobre preservação e educação ambiental.
Mesmo aos 74 anos, mantém ritmo intenso. Em períodos chuvosos, chega a plantar até 60 mudas por dia.
A maioria das árvores é adquirida com recursos próprios em viveiros do interior paulista, onde os custos são menores.
Mais do que um hábito, o plantio virou parte de sua vida cotidiana e de sua relação com o bairro.
A meta permanece clara: alcançar 50 mil árvores no Tiquatira e seguir acompanhando cada uma delas crescer.
Como antecedente, a Lei Municipal nº 17.794-2022 permite plantio em áreas públicas sem autorização prévia, exigindo comunicação à prefeitura e respeito ao Plano Municipal de Arborização Urbana.
Com informações de G1.


A reportagem deveria ter fotos…
“Todos gostam de sombra, mas poucos plantas árvores.”
Belíssima iniciativa!
Parabéns precisamos mais pessoas assim com esse amor pelo meio ambiente. Que esse senhor viva muito anos de vida