A estátua desaparecida, uma estátua de Hermes que saiu do centro de Vitória e foi achada em Vila Velha, deve voltar sem restauração completa.
A estátua desaparecida de Hermes voltou ao centro da discussão sobre patrimônio histórico no Espírito Santo depois de passar décadas fora do olhar público. A peça, que integrava um conjunto de esculturas em mármore de Carrara ligado à história do centro de Vitória, reapareceu após anos de buscas conduzidas por um historiador que tentou reconstruir um rastro quase apagado.
Mais do que o reencontro com uma obra antiga, o caso revela como a memória de uma cidade pode se perder silenciosamente. Sem registro consolidado na bibliografia, sem imagens facilmente acessíveis e longe da praça onde ficou exposta, a escultura virou um mistério até ser localizada em Vila Velha, com sinais visíveis de desgaste e de uma longa ausência.
O sumiço que virou mistério no centro de Vitória

A história da estátua desaparecida começou a ganhar forma a partir da inquietação de um professor de história apaixonado pelo centro da capital capixaba.
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A peça ficava na Praça Cecília Monteiro, ao lado do Palácio Anchieta, mas desapareceu por décadas sem explicação clara para boa parte da população.
O caso chamou atenção porque a obra integrava um conjunto importante de esculturas em mármore de Carrara encomendadas em 1912 pelo então governador Jerônimo Monteiro. Essas peças vieram da Itália e foram instaladas em uma área simbólica da cidade.
O mais impressionante é que a existência da escultura de Hermes nem sequer aparecia de forma consolidada em parte da bibliografia sobre os monumentos capixabas.
Foi só em 2018, a partir da memória de Raimundo Gentiliza, que surgiu uma pista concreta sobre a presença de um monumento de Hermes na região e sobre seu desaparecimento.
Anos de busca e quase nenhuma informação
A procura pela estátua desaparecida foi longa e marcada por lacunas. O historiador recorreu a arquivos públicos, conversou com outros pesquisadores e tentou montar a trajetória da peça com base em fragmentos de informação.
Durante muito tempo, a escultura parecia ter sumido sem deixar vestígios. Nem mesmo uma imagem da obra na praça estava facilmente disponível, o que reforçava o caráter quase fantasmagórico do desaparecimento.
A única fotografia da estátua em seu local original apareceu apenas depois, quando a investigação já estava em curso.
Esse cenário mostra o tamanho do apagamento em torno da peça. Não se tratava apenas de uma obra fora do lugar, mas de um monumento que havia saído da paisagem urbana e também da memória documentada da cidade.
A pista decisiva que levou ao ateliê em Vila Velha
A descoberta da estátua desaparecida só avançou de fato quando uma informação encontrada no arquivo público apontou que a obra teria passado por um processo de restauração nos anos 1980. A partir dessa pista, foi possível chegar ao artista ligado à história da escultura.
Segundo o relato obtido pelo pesquisador, em 1979 um galho de flamboyant caiu durante uma tempestade, derrubou a peça e causou danos à escultura. Depois disso, a então Secretaria de Cultura levou a obra para o ateliê do artista, em Vila Velha.
O problema é que a restauração não aconteceu. O profissional não tinha condições de executar o trabalho e passou a solicitar que o poder público retirasse a estátua do local. Esse recolhimento, porém, nunca ocorreu, e a peça permaneceu esquecida por décadas no ateliê.
O retorno da peça não encerra o problema
Agora, com a estátua desaparecida localizada, a expectativa é de que ela volte à praça de origem nos próximos dias. Mas a solução está longe de ser simples.
O retorno da obra, da forma como foi encontrada, deixa evidente que o maior desafio não é apenas recolocar o monumento em seu lugar.
O ponto central é impedir que histórias como essa se repitam. Quando uma peça histórica desaparece da paisagem urbana por tanto tempo, a cidade perde parte da própria narrativa.
A situação também expõe a fragilidade da preservação patrimonial. Não basta reencontrar a escultura. É necessário garantir acompanhamento técnico, registro histórico e políticas públicas capazes de proteger obras que ajudam a contar a trajetória de Vitória.
Restauração exige técnica, tempo e dinheiro
A recuperação da estátua desaparecida não deve ocorrer agora justamente por causa da complexidade do processo.
De acordo com o escultor Nilson Camisão, que já participou da restauração de vários monumentos pelo estado, esse tipo de trabalho é lento e envolve muitas etapas.
Primeiro, é preciso estudar os elementos que estão faltando na obra. Depois, o processo passa por modelagem em barro, transferência para cera, cópia em gesso e, só então, elaboração do projeto para o entalhe no mármore.
No caso da peça de Hermes, o material é o mármore de Carrara, que precisa ser importado e tem custo elevado.
Além disso, existe a parte burocrática. Por se tratar de patrimônio histórico, a restauração depende de avaliação técnica, processo formal e seleção de profissionais capacitados, o que naturalmente amplia o prazo.
Uma volta marcada pelo tempo
Por enquanto, a estátua desaparecida deve retornar ao espaço público sem restauração completa, mantendo as marcas do tempo, do acidente e da longa trajetória fora da praça.
A peça, com 114 anos, volta não apenas como monumento, mas como símbolo de uma memória que quase se perdeu.
O reencontro com Hermes chama atenção para algo maior do que a própria escultura. Cada monumento esquecido revela também um pedaço da história urbana que deixou de ser visto, lembrado e valorizado.
No caso de Vitória, a reaparição dessa obra antiga recoloca em pauta a importância de cuidar daquilo que ajuda a explicar a identidade da cidade.
Você acha que monumentos históricos como essa peça de Hermes deveriam receber acompanhamento permanente para evitar novos desaparecimentos?


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