No sudeste da Europa, o projeto Pelican Way of LIFE, com apoio da Comissão Europeia, reforçou colônias de pelicano-dálmata entre Mediterrâneo e Mar Negro, reduziu mortes em linhas de energia, instalou plataformas, ampliou patrulhas e monitoramento, e abriu caminho para novas áreas de reprodução com resultados nos Bálcãs desde 2024.
O pelicano-dálmata, uma das aves reprodutoras mais impressionantes da Europa, está retomando espaço no sudeste europeu após quase desaparecer de partes do continente. A recuperação ocorre em zonas úmidas da Romênia, Bulgária, Grécia e Ucrânia, com ações concentradas na rota migratória entre o Mediterrâneo e o Mar Negro, onde hoje vivem cerca de 8.000 casais reprodutores.
Essa virada ganhou tração ao longo de seis anos de trabalho conjunto com restauração de habitat, redução de ameaças e mobilização comunitária. O esforço, conhecido como Pelican Way of LIFE, reforçou colônias, criou condições para novas áreas de reprodução e reposicionou o pelicano-dálmata como símbolo prático de como zonas úmidas vivas sustentam biodiversidade e pessoas.
Por que o pelicano-dálmata é uma espécie indicadora das zonas úmidas

O pelicano-dálmata funciona como um termômetro ambiental porque depende de condições muito específicas.
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Para se reproduzir e descansar, precisa de águas calmas, com populações abundantes de peixes e áreas extensas, rasas e alagadas, típicas de zonas úmidas bem conectadas.
Quando essas áreas são drenadas, fragmentadas ou degradadas, a espécie perde locais de nidificação, rotas seguras de voo e pontos de alimentação.
Proteger o pelicano-dálmata significa, na prática, proteger o conjunto do ecossistema, do fluxo de água às cadeias alimentares que sustentam inúmeras outras espécies.
O que colocou o pelicano-dálmata em risco no sudeste da Europa

Apesar do status icônico, o pelicano-dálmata é descrito como “Quase Ameaçado” na Lista Vermelha da IUCN e enfrenta vulnerabilidades recorrentes em toda a sua distribuição.
Entre os fatores de declínio, se destacam zonas úmidas drenadas e fragmentadas, a destruição de colônias de reprodução, a caça ilegal e colisões fatais com linhas de energia.
No sudeste da Europa, onde a população ligada à rota Mediterrâneo e Mar Negro se concentra, essas pressões se somam a perturbações humanas em áreas sensíveis.
O resultado costuma ser silencioso, mas cumulativo, com menos sucesso reprodutivo, mais mortalidade e colônias que deixam de se manter no longo prazo.
Seis anos de ações em campo para reabrir caminho ao pelicano-dálmata
O Pelican Way of LIFE atuou em 27 sítios Natura 2000 na Romênia, Bulgária, Grécia e Ucrânia, incluindo a paisagem de renaturalização do Delta do Danúbio.
Além disso, o desenvolvimento de capacidades e pesquisa também recebeu apoio na Turquia, Albânia, Montenegro e Macedônia do Norte, ampliando a articulação regional.
As medidas combinadas seguiram um princípio central: proteger a reprodução, reduzir mortalidade evitável e recuperar a funcionalidade das zonas úmidas.
Isso incluiu melhorias de habitat, ações de mitigação em infraestrutura e presença constante em campo para reduzir perturbações e atividades ilegais.
Linhas de energia, patrulhas e plataformas: onde a sobrevivência muda na prática
Uma das frentes mais diretas foi reduzir mortes do pelicano-dálmata por colisões com linhas de energia.
A iniciativa instalou milhares de dispositivos de desvio de aves, aumentando a visibilidade de mais de 10 km de cabos elétricos em rotas de voo críticas.
Para aves com pouca capacidade de manobra, esse tipo de adaptação muda o risco de vida diariamente, especialmente em deslocamentos entre áreas alagadas.
Em paralelo, foram implementados sete programas de patrulhamento para monitorar colônias e prevenir perturbações durante a época reprodutiva, além de coibir caça ilegal.
Outra medida concreta foi a instalação de 12 plataformas de reprodução, incluindo estruturas construídas na parte ucraniana do Delta do Danúbio, na ilha de Ermakiv, como solução de nidificação temporária enquanto a restauração de áreas úmidas avança.
Números que mostram a virada nos Bálcãs desde 2024
Os resultados começaram a aparecer com mais clareza nos levantamentos recentes.
Em 2024, o sétimo censo internacional registrou aumento populacional de 10% em relação ao ano anterior nos Bálcãs, sinalizando um movimento consistente de recuperação.
Além disso, duas novas colônias de reprodução foram estabelecidas na Bulgária e, em 2025, essas colônias já abrigaram mais de 100 ninhos.
A criação de novas colônias é um marco estratégico, porque indica expansão da área reprodutiva e redução da dependência de poucos núcleos tradicionais, aumentando a resiliência populacional.
Ciência aplicada ao pelicano-dálmata: anilhamento, GPS e rotas migratórias
A iniciativa também reforçou o conhecimento sobre o comportamento do pelicano-dálmata, conectando ciência e decisões práticas de conservação.
Equipes na Grécia, Bulgária e Romênia anilharam 300 aves e instalaram 24 transmissores GPS, gerando dados sobre rotas migratórias, áreas de alimentação e padrões reprodutivos.
Entender onde o pelicano-dálmata voa, pousa e se alimenta define onde proteger primeiro, onde reduzir risco em infraestrutura e quais zonas úmidas precisam de conectividade hídrica para funcionar como corredores ecológicos.
Esse monitoramento ajuda a orientar decisões futuras e sustenta uma abordagem unificada entre países que compartilham a mesma população migratória.
Comunidades no centro: educação, festivais e turismo de natureza
A recuperação do pelicano-dálmata foi tratada também como um pacto social com quem vive nas paisagens de zonas úmidas.
Reuniões regulares com grupos locais ajudaram a reduzir atividades ilegais e a identificar abordagens mais eficazes para salvaguardar as colônias.
Oficinas interativas, programas educacionais, festivais, acampamentos liderados por voluntários e exposições ampliaram o engajamento.
Um exemplo é o acampamento educativo no Delta do Danúbio que reuniu mais de 50 alunos.
Com apoio local, a parceria também promoveu turismo de natureza, criando benefícios socioeconômicos e reforçando práticas sustentáveis em torno dos habitats restaurados.
Uma base para o futuro das zonas úmidas e do pelicano-dálmata
Os parceiros envolvidos indicam continuidade em três eixos: engajamento, melhores práticas de proteção e restauração de habitats essenciais, com foco em conectividade para apoiar populações fragmentadas.
A lógica é ampla: restaurar zonas úmidas beneficia o pelicano-dálmata, mas também sustenta inúmeras outras espécies e entrega ganhos para pessoas, como melhora da qualidade da água e reforço de populações de peixes.
Esse esforço se torna ainda mais urgente porque cerca de 80% das zonas úmidas europeias desapareceram no último século, e as remanescentes continuam sob forte pressão humana e vulnerabilidade climática.
Quando o pelicano-dálmata volta, ele sinaliza que o habitat está voltando junto, e que a cooperação internacional pode transformar áreas críticas em redes funcionais outra vez.
A iniciativa Pelican Way of LIFE foi coordenada pela Rewilding Europe e financiada pelo
Programa LIFE da União Europeia e pela Arcadia , o fundo de caridade de Lisbet Rausing e Peter Baldwin, com a assistência do Whitley Fund for Nature na Bulgária e do Green Fund na Grécia.
O que você acha que mais fez diferença para o pelicano-dálmata voltar a ganhar espaço, a restauração de zonas úmidas ou a redução de risco em linhas de energia e patrulhas?

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