Ruínas no sul do Iraque reacendem debates antigos sobre cidades helenísticas, comércio fluvial e mudanças ambientais que moldaram portos estratégicos da Antiguidade, após décadas fora do alcance de escavações sistemáticas e de conflitos que interromperam pesquisas arqueológicas.
Arqueólogos identificaram no sul do Iraque as ruínas de uma antiga cidade portuária fundada no fim do século 4 a.C., durante as campanhas de Alexandre, o Grande. O local é associado em fontes históricas ao nome Alexandria do Tigre (ou Alexandria no Tigre) e permaneceu por séculos fora do foco das pesquisas arqueológicas sistemáticas.
Com a retomada dos estudos, o sítio voltou ao centro do debate acadêmico por seu papel nas redes de circulação de mercadorias que conectavam rios da Mesopotâmia às rotas marítimas do Golfo Pérsico. A análise das estruturas sugere uma ocupação planejada e integrada a fluxos comerciais de longa distância.
As ruínas foram localizadas em Jebel Khayyaber, no extremo sul do Iraque, próximo à fronteira com o Irã. A região reúne características naturais e históricas que, ao longo do século 20, dificultaram a realização de escavações contínuas e sistemáticas.
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Pesquisas recentes indicam a existência de um centro urbano planejado, com sistemas defensivos bem definidos e vestígios de infraestrutura associados a atividades portuárias e de transporte. Esses elementos reforçam a interpretação de que o local teve função estratégica na Antiguidade.
Ruínas arqueológicas em Jebel Khayyaber
Atualmente, Jebel Khayyaber se apresenta como uma elevação discreta em meio à planície. No entanto, levantamentos arqueológicos mostram que o relevo encobre estruturas construídas de grande escala, incompatíveis com formações naturais.

Trabalhos retomados a partir de 2014 identificaram que parte dessa elevação corresponde a uma muralha com mais de um quilômetro de extensão, preservada em alguns trechos a vários metros de altura. A dimensão do sistema defensivo aponta para um assentamento urbano de porte considerável.
Segundo os pesquisadores envolvidos, a combinação entre muralhas extensas e organização interna do espaço indica planejamento prévio, característica recorrente em cidades fundadas ou reorganizadas durante o período helenístico.
Cidade portuária e rotas comerciais antigas
A localização atribuída à Alexandria do Tigre ajuda a explicar sua importância estratégica na Antiguidade, de acordo com análises arqueológicas e históricas. O sítio estaria posicionado em uma área que permitia a integração entre rotas fluviais do interior mesopotâmico e trajetos que levavam ao Golfo Pérsico.
Esse posicionamento teria facilitado o escoamento de produtos e a circulação de pessoas, elemento central para cidades com vocação portuária. Especialistas destacam que esse tipo de articulação era fundamental para o funcionamento das redes comerciais do período.
Essas redes dependiam de pontos intermediários capazes de concentrar, redistribuir e encaminhar mercadorias. Nesse contexto, a cidade teria operado como um entreposto regional, conectando áreas da Ásia Central e do subcontinente indiano, conforme indicam estudos comparativos sobre o comércio helenístico.
Charax Spasinou e o debate histórico
A identificação das ruínas em Jebel Khayyaber também se relaciona a um debate antigo sobre a localização de Charax Spasinou, cidade mencionada por autores clássicos. Parte da bibliografia associa Charax a um grande centro portuário no sul do Iraque, enquanto outros estudos indicam diferentes locais ao longo dos cursos fluviais da região.

Pesquisadores observam que a diversidade de nomes atribuídos ao assentamento ao longo do tempo contribuiu para a dificuldade de identificação precisa. Cidades fundadas no período helenístico passaram por sucessivas reconstruções e renomeações, nem sempre registradas de forma detalhada nas fontes antigas.
Ainda assim, as evidências materiais encontradas em Jebel Khayyaber são consideradas compatíveis com descrições históricas de um centro urbano fortificado de grande porte. O debate acadêmico, no entanto, permanece aberto.
Conflitos e a interrupção das pesquisas arqueológicas
Indícios da existência de estruturas antigas na área já haviam sido registrados em levantamentos realizados a partir da década de 1960. No entanto, conflitos armados e instabilidade política interromperam as pesquisas antes que escavações sistemáticas pudessem avançar.
A retomada só foi possível a partir de 2014, quando equipes internacionais conseguiram voltar ao sítio em cooperação com autoridades locais. Mesmo assim, os pesquisadores relatam que as atividades seguem condicionadas a questões de segurança e logística.
Essas limitações afetam a extensão das áreas investigadas diretamente. Por essa razão, métodos de prospecção e mapeamento têm sido priorizados em relação a escavações extensivas.
Mudanças ambientais e o abandono da cidade
Estudos arqueológicos associam o declínio da cidade a mudanças ambientais ocorridas entre os séculos 3 e 4 d.C. Segundo essa interpretação, alterações no curso dos rios teriam afastado o porto das principais rotas navegáveis.
Em regiões deltaicas do sul do Iraque, variações no traçado dos canais são fenômenos documentados e podem ter impacto direto sobre cidades dependentes da navegação. Com a perda de acesso adequado às rotas fluviais, a atividade portuária teria perdido relevância.
Esse enfraquecimento econômico teria levado ao abandono gradual da ocupação urbana, encerrando um ciclo de importância regional construído ao longo de séculos.
O que os estudos ainda buscam esclarecer
As pesquisas em andamento têm como objetivo mapear com maior precisão a extensão da cidade e identificar diferentes áreas de uso, como setores residenciais, espaços produtivos e zonas associadas ao porto. Para isso, os arqueólogos utilizam registros sistemáticos de materiais de superfície, imagens aéreas e análises do relevo.
Outro foco é distinguir as fases de ocupação do sítio. Os pesquisadores buscam separar o que pode ser atribuído à fundação do período de Alexandre do que corresponde a reocupações posteriores, comuns em assentamentos que atravessaram diferentes contextos políticos e econômicos.


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