Um taipeiro de 65 anos está fechando um condomínio perto da barragem em Passo Fundo com 2.000 m² de muro de pedra feito peça por peça. A técnica conhecida no Sul como taipa dispensa argamassa e exige encaixes precisos para ganhar estabilidade e durabilidade.
Em uma área de barragem na região de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, um muro de pedra feito como antigamente voltou a chamar atenção ao cercar um condomínio inteiro com a técnica da taipa. O serviço é conduzido por seu Giovane, de 65 anos, que trabalha com o método há décadas e aparece em um vídeo do canal JJ88 mostrando o passo a passo da construção.
Segundo o relato no vídeo, a obra somou cerca de 2.000 m² de taipa, com trechos de aproximadamente 1,70 m de altura e pontos ainda mais altos na entrada do condomínio. O taipeiro explica que levou seis meses de trabalho efetivo, mas ficou quase um ano no local por causa do clima chuvoso, comum na região.
No Sul do Brasil, o termo “taipa” pode ter um significado diferente do que muita gente imagina. Pesquisas sobre a paisagem cultural dos Campos de Cima da Serra registram que as taipas são muros feitos com pedras sem uso de outro material de ligação, muito presentes entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
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A cena de um profissional encaixando pedra por pedra, com linha, prumo e muita prática, ajuda a entender por que esse tipo de construção segue relevante. Em outras partes do mundo, a arte de construir com pedra sem ligantes é tratada como conhecimento tradicional que depende de domínio de geometria e física aplicado ao terreno.
Um taipeiro de 65 anos que transforma pedra em parede; veja o vídeo
Seu Giovane conta que faz taipa há cerca de 35 anos e que aprendeu o ofício em família, repassando a técnica também para gente mais nova que trabalha com ele. No vídeo, ele comenta que nem todos querem aprender, porque é um serviço pesado e repetitivo.
A rotina começa cedo, com entrada por volta das 6 horas no verão e mais tarde no inverno, aproveitando o dia mais longo para render no fim da tarde. Ele descreve um café reforçado e uma jornada que pode ir até o começo da noite, sobretudo quando a obra fica longe de casa.
O ponto central, porém, é a resistência física e a técnica adquirida com o tempo. O taipeiro afirma que continua ativo, sem dores fortes na coluna, e atribui isso à prática e ao jeito certo de levantar e encaixar as pedras, reduzindo esforço desnecessário.
Como nasce um muro de pedra taipa na prática
A base do muro é onde tudo começa, e ela precisa ser mais larga para dar estabilidade. Estudos sobre taipas de pedra descrevem o formato com base larga e topo menor, um desenho pensado para sustentar o peso e travar o conjunto com segurança.

Na obra de Passo Fundo, seu Giovane detalha medidas semelhantes, com largura maior embaixo e fechamento em cima, além de um processo que lembra um quebra cabeças. Ele explica que algumas pedras não “obedecem” ao corte e podem quebrar de forma irregular, o que muda o encaixe e exige adaptação constante.
A lógica de montagem é simples de entender e difícil de executar bem. O muro se forma com duas faces de pedras selecionadas e travadas, enquanto o miolo recebe pedras menores de enchimento para eliminar vazios e aumentar o travamento, prática descrita em registros de campo sobre muros de pedra seca.
Outro detalhe do vídeo é a escolha do material conforme a região. Ele comenta que cada lugar entrega um tipo de pedra, e que nem sempre dá para fazer um muro “reto” e mais fino, porque o resultado depende do formato, da dureza e de como a pedra se comporta ao ser quebrada e assentada.
Em trechos mais altos, o método ganha reforço. No condomínio, ele menciona um miolo concretado em parte da altura e uma tampa superior para proteger o topo, buscando garantir durabilidade e reduzir deslocamentos ao longo dos anos.
Por que muro de pedra a seco ainda faz sentido
Além da estética rústica, o muro de pedra a seco tem um comportamento que interessa em áreas úmidas e de variação de solo. Textos técnicos descrevem que a estabilidade vem do peso e do atrito entre as pedras, e que a permeabilidade do conjunto favorece a drenagem natural e reduz pressão de água atrás da estrutura.
No caso do condomínio, a obra ocorre perto de barragem e beira de água, o que aumenta a preocupação com chuva, lama e acesso de máquinas. O próprio taipeiro relata que o tempo “não ajuda” e que a chuva define o ritmo da entrega, reforçando a ideia de que terreno e clima mandam na obra.
Patrimônio rural do Sul e o risco de virar raridade
Muros conhecidos como taipa também aparecem como marca cultural das serras do Sul. Registros apontam que são estruturas comuns nas serras catarinense e gaúcha, usadas para dividir propriedades e conter gado, associadas a processos históricos e ao modo de vida da região.
Pesquisas acadêmicas sobre taipas de pedra no Rio Grande do Sul descrevem usos como cercamento, divisa e proteção, e lembram que muitas foram construídas com rocha disponível no próprio campo. Também alertam que mudanças no uso da terra e falta de manutenção podem levar à deterioração e perda dessas estruturas.
Esse cenário ajuda a explicar por que a fala de seu Giovane chama atenção quando ele diz que há poucos taipeiros e que está ensinando os mais novos. O trabalho é manual, repetitivo e exige paciência, e isso tende a afastar quem busca ocupações mais leves ou rápidas.
Fora do Brasil, a construção em pedra seca é tratada como prática social e de transmissão de conhecimento entre gerações, justamente porque depende de comunidade, aprendizado e continuidade. Quando o ofício enfraquece, o que se perde não é só um muro, mas um jeito de construir e de ler o território.
Quanto custa e o que pesa no preço segundo quem faz
No vídeo, seu Giovane afirma que está fazendo o serviço por R$ 600 por metro quadrado, mantendo um valor antigo por se tratar de um contrato grande. Ele também cita um preço diferente para reforma de taipa antiga, calculada de outra forma, e comenta que pretende reajustar no futuro.
Na prática, o custo não é apenas pedra e cimento. Ele menciona deslocamento, tempo perdido por chuva, dependência de máquina do cliente para colocar pedra no lugar e o trabalho de seleção e encaixe que não dá para acelerar sem perder qualidade.
Há ainda um fator de confusão que aparece em conversas sobre o tema. Em muitas regiões do Brasil, “taipa” é usada para técnicas com terra, como taipa de pilão, que são paredes compactadas em moldes, o que é diferente da taipa de pedra mostrada no Sul.
Você acha que muro de pedra feito à mão ainda compensa no Brasil de hoje, ou virou luxo de condomínio. Você confiaria mais em concreto e bloco mesmo sabendo que a taipa pode durar décadas quando bem feita. Deixe seu comentário.


No interior de Garibaldi e toda serra gaúcha muitos muros seculares de taipa resistem ao tempo. Ainda há algumas casas de pedras
Parabens,,fora,de,,serieu
Parabéns, bom e bonito.