O Palhaço Bolinha acordou às quatro e meia da manhã em Água Quente, atravessou os quarenta e cinco quilômetros que separam a região administrativa do centro de Brasília e passou o feriado da Independência equilibrando cerca de trinta quilos de balões sobre o ombro esquerdo.
O nome civil é Renato Siqueira. Ele tem 53 anos, é autônomo e trabalhou às margens da área do desfile de 7 de Setembro deste ano, na Esplanada dos Ministérios.
A cena está numa reportagem de campo da Agência Brasil, assinada por Luiz Cláudio Ferreira, com fotos de Lula Marques. Enquanto a tropa desfilava na pista, ele desfilava do lado de fora, com o estoque nas costas.
A maquiagem escorre com o suor, e ele segue fazendo graça
A caminhada é apressada. O peso fica sobre um ombro só, e o rosto pintado não resiste ao calor de Brasília em setembro.
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“A gente não pode parar. Mas vai fazendo graça”, disse ele à reportagem.
É a frase que resume o expediente. A brincadeira faz parte do produto, portanto ela não pode cair junto com a maquiagem.
Quem vende para criança sabe disso. O balão chama pela cor, contudo quem fecha a venda é o adulto que está do lado, e o adulto compra de quem está sorrindo.
Por isso o traje azul e o boné laranja não são detalhe. São parte da vitrine ambulante que ele carrega no ombro esquerdo o dia inteiro.
Algodão-doce a R$ 10, balão a R$ 20, e um problema de logística
Os preços são simples. O algodão-doce sai por R$ 10 e o balão metalizado por R$ 20, conforme a Agência Brasil.
O detalhe operacional é que os dois produtos não viajam do mesmo jeito. Ele consegue carregar os algodões-doces por mais de uma hora dentro do ônibus, porém os balões, não.
Por isso o fabricante entrega o lote de balões quando ele já está na rua. Sem essa combinação, o negócio simplesmente não fecha.
Repare no encaixe. O produto mais caro é o que não cabe no ônibus, ou seja, o mais rentável depende de uma entrega marcada com hora e ponto certos na cidade.

Quarenta e cinco quilômetros de casa até o ponto de venda
Renato mora em Água Quente, região administrativa periférica a 45 quilômetros de Brasília. Nasceu em Anápolis, em Goiás, e mudou-se para a capital há vinte anos para trabalhar.
Estudou até o oitavo ano.
Água Quente fica no extremo da malha do Distrito Federal. Quem sai de lá de madrugada rumo à Esplanada encara baldeação, tempo de espera e um trajeto que consome boa parte da manhã.
Há oito meses ele monta ponto em frente a escolas, que é a clientela natural de quem vende balão e algodão-doce. Datas como o desfile da Independência, o Dia das Crianças e o Ano-Novo entram no calendário como reforço de renda.
Ele trocou um salário mínimo por isso, e prefere assim
No emprego anterior, ele ganhava um salário mínimo vendendo plano funerário. Resolveu então viver fazendo graça, mesmo com o peso nas costas e a maquiagem escorrendo.
Dá pra entender a troca. Um trabalho paga menos e cansa mais, contudo devolve alguma autonomia sobre o próprio dia.
Além disso, a renda do ambulante acompanha o calendário. Enquanto o salário fixo é o mesmo em fevereiro e em dezembro, a banca de balão dobra de tamanho quando a cidade se aglomera na rua.
Ele não era o único ambulante trabalhando no feriado
A reportagem encontrou outros três. Todos com a mesma aritmética: um emprego formal durante a semana e a venda informal encaixada no feriado.
Gustavo Ferreira, de 30 anos, equilibrava bandejas de churros de doce de leite e chocolate, vendidos a R$ 10, tomando cuidado para o recheio não escorrer. No dia a dia, ele trabalha como cobrador de ônibus.
“Acordei às 4h e a gente está na luta”, contou.

O porteiro que estreou vendendo água de coco na Esplanada
Samuel Santos vive em Planaltina, a cerca de quarenta quilômetros de distância, e trabalha em escala como porteiro de um prédio. Madrugar, portanto, não era novidade para ele.
“Estou experimentando essas vendas de água de coco aqui na Esplanada dos Ministérios. Estou estreando, na verdade. Se der certo, eu vou continuar”, disse à Agência Brasil.
Ele saiu direto do turno na portaria para o comércio informal, sem intervalo entre uma coisa e outra. A prioridade, segundo o relato, é o sustento dos dois filhos em casa.
Não sobra tempo para assistir ao desfile que atraiu todo mundo até ali.
O vendedor de bonés que só estudou até a terceira série
Sob o sol da Esplanada, o paraibano Reinivaldo Garcia, de 54 anos, natural de Brejo da Cruz, vendia bonés e chapéus ao público a R$ 20 cada.
A fala dele fecha o retrato melhor do que qualquer estatística.
“Só pude estudar até a 3ª série do primário. Não consegui estudar mais porque precisava trabalhar. Eu digo aos meus dois filhos que eles precisam estudar sempre para não ficar nesse sol como eu. Tem que ser independente, né?”

O que a reportagem não mediu
Nenhuma das fontes informa quanto cada um faturou no dia. Não há número de vendas, de receita nem de margem, e por isso qualquer estimativa aqui seria invenção.
O que dá para medir é o custo de entrada: acordar às 4h30, atravessar 45 quilômetros de transporte público e carregar 30 quilos numa caminhada apressada, tudo isso antes de vender a primeira unidade do dia.
Os quatro relatos coincidem nesse ponto. Nenhum deles vive apenas da venda de rua, e nenhum deles considerou o feriado um dia de folga.
Durante a manhã, enquanto a Esplanada enchia, esse comércio funcionava em paralelo ao evento oficial, sem palanque, sem credencial e sem cobertura, a poucos metros da pista onde tudo acontecia.
Fico imaginando quantos dos milhares de pessoas que assistiram ao desfile repararam nisso.
A cobertura completa, com as fotos de Lula Marques e os quatro relatos na íntegra, está na reportagem da Agência Brasil.
E você, acredita que dá pra viver de venda informal em feriado sem um segundo emprego por trás?
