Os agricultores e pescadores atingidos pelo rompimento da barragem em Mariana já receberam um bilhão e meio de reais só em transferência de renda, dentro dos três bilhões e trezentos e cinquenta milhões que o fundo de reparação repassou desde o desastre de dois mil e quinze.
A marca foi divulgada pelo BNDES em 5 de setembro, depois que as liberações do Fundo Rio Doce ultrapassaram os R$ 3 bilhões no último mês.
O total acumulado chegou a cerca de R$ 3,35 bilhões destinados a iniciativas de reparação dos danos decorrentes do rompimento da barragem de Fundão.
A barragem integrava o complexo da mineradora Samarco, em Mariana, em Minas Gerais.
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R$ 1,52 bilhão foi direto para a mão de quem vive do rio
Dentro do total, o Programa de Transferência de Renda já soma R$ 1,52 bilhão.
Esse programa atende especificamente agricultores e pescadores, que são as duas categorias cuja renda depende diretamente da água e do solo atingidos pela lama.
Ou seja, quase metade de tudo o que o fundo liberou foi para reposição de renda de quem perdeu a atividade, e não para obra.
A escolha faz sentido quando se olha o tipo de dano. Pescador sem rio limpo e agricultor sem várzea utilizável não voltam a produzir porque uma ponte foi refeita; eles precisam de renda enquanto a atividade não se recompõe.

A nova liberação de R$ 263 milhões fecha uma conta específica
O repasse mais recente foi de R$ 263 milhões.
Conforme o BNDES, esse valor representa a segunda e última parcela destinada ao custeio dos planos municipais de ação em saúde, ou seja, é o encerramento de uma linha, e não uma parcela intermediária.
Municípios da bacia usam esses recursos para estruturar atendimento em cidades que passaram a lidar com demandas de saúde novas depois do rompimento.
São cidades pequenas, com rede de saúde dimensionada para outra realidade, que de repente passaram a atender demanda ambiental, psicológica e crônica ao mesmo tempo.
Assessoria técnica independente também entrou na conta
Uma terceira frente aparece na lista dos últimos repasses e costuma ser pouco comentada.
Parte do dinheiro vai para a contratação de assessorias técnicas independentes que prestam suporte às comunidades atingidas.
O papel dessas equipes é técnico: elas colocam engenheiro, advogado e agrônomo do lado de quem, sozinho, negociaria com uma mineradora e com um banco de desenvolvimento.
Sem esse apoio, a assimetria é grande demais. De um lado, departamento jurídico e consultoria contratada; do outro, um pescador tentando provar quanto pescava antes da lama chegar.
Onze anos entre o rompimento e este balanço
A conta do tempo é a parte incômoda da notícia.
O rompimento aconteceu em 2015. O fundo chega agora à marca de R$ 3 bilhões repassados, o que dá a dimensão de quanto uma reparação desse porte se arrasta.
Quem já acompanhou processo de reparação ambiental sabe que o dinheiro não anda no ritmo do dano.
Ele anda no ritmo do acordo, da perícia e da fila de habilitação, e cada uma dessas etapas tem prazo próprio, recurso próprio e possibilidade própria de contestação judicial.
O BNDES virou o operador do dinheiro
O banco não é o pagador original. Ele opera o fundo, o que significa analisar, liberar e prestar contas dos recursos destinados à reparação.
Esse arranjo foi desenhado para dar rastreabilidade ao dinheiro, com liberação vinculada a projeto aprovado, em vez de repasse direto e sem contrapartida.
O efeito colateral, porém, é conhecido: mais controle significa mais etapa, e mais etapa significa mais tempo até o recurso chegar na ponta.
O que o balanço não diz
A divulgação traz os valores, mas não informa quantas famílias foram atendidas pelo Programa de Transferência de Renda, nem quantos municípios receberam a parcela de saúde.
Também não há, no material, o total ainda pendente de repasse nem o prazo para concluir as demais frentes de reparação.
Todos os números desta matéria vêm de uma única fonte, o próprio BNDES, e por isso são apresentados como informação do banco.
A bacia continua no centro das contas públicas
O Rio Doce nasce em Minas Gerais e desagua no Espírito Santo, cortando dezenas de municípios que dependem dele para abastecimento, pesca e irrigação.
Cada nova liberação recoloca a mesma pergunta: quanto do estrago já foi reparado e quanto virou apenas linha de orçamento.
A resposta não está no valor repassado, e sim no que voltou a funcionar. Água tratada, pesca liberada, solo produtivo e escola climatizada são as métricas que interessam a quem mora lá.
Outras frentes do acordo seguem correndo em paralelo, como o repasse de mais de R$ 100 milhões para climatizar escolas na região.
Convém guardar a distinção entre o fundo e o acordo maior de repactuação, que envolve dezenas de bilhões e corre em outra instância, com prazos e obrigações próprios.
Os R$ 3,35 bilhões noticiados aqui são o que passou por este fundo específico, operado pelo banco. Confundir os dois números é o erro mais comum na cobertura do caso, e ele infla a percepção do que já chegou na ponta.
O balanço completo, com a abertura por programa, está no comunicado da Agência BNDES de Notícias.
O que você acha: onze anos e R$ 3,35 bilhões depois, a reparação do Rio Doce está andando ou empacada?
