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Agricultores e pescadores atingidos pelo rompimento em Mariana já receberam R$ 1,52 bilhão só em transferência de renda, dentro dos R$ 3,35 bilhões que o fundo de reparação repassou desde o desastre de 2015

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 08/09/2026 às 02:34 Atualizado em 08/09/2026 às 03:10
Vista aérea do Rio Doce, bacia atingida pelo rompimento da barragem de Fundão, em foto do comitê de bacia divulgada pelo BNDES
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Os agricultores e pescadores atingidos pelo rompimento da barragem em Mariana já receberam um bilhão e meio de reais só em transferência de renda, dentro dos três bilhões e trezentos e cinquenta milhões que o fundo de reparação repassou desde o desastre de dois mil e quinze.

A marca foi divulgada pelo BNDES em 5 de setembro, depois que as liberações do Fundo Rio Doce ultrapassaram os R$ 3 bilhões no último mês.

O total acumulado chegou a cerca de R$ 3,35 bilhões destinados a iniciativas de reparação dos danos decorrentes do rompimento da barragem de Fundão.

A barragem integrava o complexo da mineradora Samarco, em Mariana, em Minas Gerais.

R$ 1,52 bilhão foi direto para a mão de quem vive do rio

Dentro do total, o Programa de Transferência de Renda já soma R$ 1,52 bilhão.

Esse programa atende especificamente agricultores e pescadores, que são as duas categorias cuja renda depende diretamente da água e do solo atingidos pela lama.

Ou seja, quase metade de tudo o que o fundo liberou foi para reposição de renda de quem perdeu a atividade, e não para obra.

A escolha faz sentido quando se olha o tipo de dano. Pescador sem rio limpo e agricultor sem várzea utilizável não voltam a produzir porque uma ponte foi refeita; eles precisam de renda enquanto a atividade não se recompõe.

Comunidade rural em Minas Gerais atingida pela atividade mineradora; imagem ilustrativa

A nova liberação de R$ 263 milhões fecha uma conta específica

O repasse mais recente foi de R$ 263 milhões.

Conforme o BNDES, esse valor representa a segunda e última parcela destinada ao custeio dos planos municipais de ação em saúde, ou seja, é o encerramento de uma linha, e não uma parcela intermediária.

Municípios da bacia usam esses recursos para estruturar atendimento em cidades que passaram a lidar com demandas de saúde novas depois do rompimento.

São cidades pequenas, com rede de saúde dimensionada para outra realidade, que de repente passaram a atender demanda ambiental, psicológica e crônica ao mesmo tempo.

Assessoria técnica independente também entrou na conta

Uma terceira frente aparece na lista dos últimos repasses e costuma ser pouco comentada.

Parte do dinheiro vai para a contratação de assessorias técnicas independentes que prestam suporte às comunidades atingidas.

O papel dessas equipes é técnico: elas colocam engenheiro, advogado e agrônomo do lado de quem, sozinho, negociaria com uma mineradora e com um banco de desenvolvimento.

Sem esse apoio, a assimetria é grande demais. De um lado, departamento jurídico e consultoria contratada; do outro, um pescador tentando provar quanto pescava antes da lama chegar.

Onze anos entre o rompimento e este balanço

A conta do tempo é a parte incômoda da notícia.

O rompimento aconteceu em 2015. O fundo chega agora à marca de R$ 3 bilhões repassados, o que dá a dimensão de quanto uma reparação desse porte se arrasta.

Quem já acompanhou processo de reparação ambiental sabe que o dinheiro não anda no ritmo do dano.

Ele anda no ritmo do acordo, da perícia e da fila de habilitação, e cada uma dessas etapas tem prazo próprio, recurso próprio e possibilidade própria de contestação judicial.

O BNDES virou o operador do dinheiro

O banco não é o pagador original. Ele opera o fundo, o que significa analisar, liberar e prestar contas dos recursos destinados à reparação.

Esse arranjo foi desenhado para dar rastreabilidade ao dinheiro, com liberação vinculada a projeto aprovado, em vez de repasse direto e sem contrapartida.

O efeito colateral, porém, é conhecido: mais controle significa mais etapa, e mais etapa significa mais tempo até o recurso chegar na ponta.

O que o balanço não diz

A divulgação traz os valores, mas não informa quantas famílias foram atendidas pelo Programa de Transferência de Renda, nem quantos municípios receberam a parcela de saúde.

Também não há, no material, o total ainda pendente de repasse nem o prazo para concluir as demais frentes de reparação.

Todos os números desta matéria vêm de uma única fonte, o próprio BNDES, e por isso são apresentados como informação do banco.

A bacia continua no centro das contas públicas

O Rio Doce nasce em Minas Gerais e desagua no Espírito Santo, cortando dezenas de municípios que dependem dele para abastecimento, pesca e irrigação.

Cada nova liberação recoloca a mesma pergunta: quanto do estrago já foi reparado e quanto virou apenas linha de orçamento.

A resposta não está no valor repassado, e sim no que voltou a funcionar. Água tratada, pesca liberada, solo produtivo e escola climatizada são as métricas que interessam a quem mora lá.

Outras frentes do acordo seguem correndo em paralelo, como o repasse de mais de R$ 100 milhões para climatizar escolas na região.

Convém guardar a distinção entre o fundo e o acordo maior de repactuação, que envolve dezenas de bilhões e corre em outra instância, com prazos e obrigações próprios.

Os R$ 3,35 bilhões noticiados aqui são o que passou por este fundo específico, operado pelo banco. Confundir os dois números é o erro mais comum na cobertura do caso, e ele infla a percepção do que já chegou na ponta.

O balanço completo, com a abertura por programa, está no comunicado da Agência BNDES de Notícias.

O que você acha: onze anos e R$ 3,35 bilhões depois, a reparação do Rio Doce está andando ou empacada?

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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