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Novas regras mudam o transporte de animais no Brasil e impõem exigências inéditas aos produtores

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Escrito por Ruth Rodrigues Publicado em 15/12/2025 às 19:08
Novas regras para o transporte de animais no Brasil elevam exigências de bem-estar e preocupam pecuaristas com custos, adaptação dos caminhões e impacto no frete.
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Novas regras para o transporte de animais no Brasil elevam exigências de bem-estar e preocupam pecuaristas com custos, adaptação dos caminhões e impacto no frete.

O transporte de animais no Brasil está prestes a passar por uma das maiores mudanças regulatórias dos últimos anos. Com a publicação da Portaria SDA nº 1.295/2025, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) redefiniu critérios técnicos e operacionais que impactam diretamente pecuaristas, transportadores e frigoríficos em todo o país.

As novas exigências, que começam a ser implementadas de forma gradual, têm como objetivo elevar os padrões de bem-estar animal, mas também levantam preocupações sobre custos e viabilidade no dia a dia do setor.

A norma estabelece regras mais detalhadas para o transporte rodoviário, ferroviário, fluvial, marítimo e aéreo de animais de produção.

Entre os pontos centrais estão limites mais rigorosos de lotação, pausas obrigatórias em viagens longas, fornecimento de água e alimento e parâmetros específicos de ventilação e conforto térmico nos veículos.

O governo afirma que as medidas aproximam o Brasil de padrões internacionais, enquanto produtores alertam para impactos diretos no bolso.

O que muda na prática para quem transporta animais?

A nova regulamentação redefine a forma como os animais devem ser acomodados durante o transporte.

Agora, cada espécie precisa obedecer a cálculos específicos de espaço mínimo, levando em conta peso, altura e comportamento. Isso significa que caminhões que antes transportavam mais animais poderão circular com cargas menores.

No caso da altura mínima dos compartimentos, as regras variam conforme a espécie. Para bovinos e bezerros, o espaço livre acima da cernelha deve ser calculado pela fórmula A = C × 1,17 + 20, considerando sempre o animal mais alto do lote.

Já os ovinos precisam de pelo menos 15 centímetros de folga em veículos com ventilação mecânica e 30 centímetros quando a ventilação é natural.

Para equídeos, a exigência é ainda maior: no mínimo 75 centímetros de altura livre acima da cernelha. Aves e coelhos, por sua vez, devem ser acomodados de forma que consigam se movimentar sem que cabeça, crista ou orelhas encostem no teto dos contentores.

Outro ponto central das regras trata da densidade de animais por espécie e peso, com a definição de uma área mínima individual.

A portaria adota a fórmula S = kP^(2/3) para determinar esse espaço, levando em conta o peso vivo.

Na prática, isso significa que bovinos com cerca de 300 quilos precisam de, no mínimo, 1,52 metro quadrado por animal, enquanto suínos de 100 quilos devem contar com 0,58 metro quadrado cada.

No transporte de aves com aproximadamente 2 quilos, a área mínima estipulada é de 460 centímetros quadrados por unidade.

Já os equinos devem ser transportados em baias individuais, sempre com largura e comprimento superiores às próprias dimensões do animal.

As normas também reforçam cuidados com alimentação e fornecimento de água, especialmente em viagens de longa duração, mais comuns nos modais ferroviário, fluvial e marítimo.

Para bovinos e equinos, a exigência diária mínima é de 2% do peso vivo em forragem, 1,6% em ração e 10% em água. Ovinos e caprinos devem receber 2% do peso vivo em forragem e 1,8% em ração. No caso dos suínos, a regra prevê exclusivamente ração concentrada, equivalente a 3% do peso vivo por dia.

Por fim, a qualidade da água passou a ter parâmetros claros. A água doce fornecida aos animais precisa apresentar níveis de oxigênio entre 5 e 15 ppm, pH variando de 6,5 a 9,5 e ausência total de amônia, garantindo que a hidratação não represente riscos à saúde durante o transporte.

Além disso, viagens longas passam a exigir paradas programadas, com acesso a água e alimentação, o que altera completamente o planejamento logístico.

Em determinadas situações, também será obrigatória a presença de um Assistente de Bem-Estar Animal, profissional habilitado para acompanhar e orientar o manejo durante o transporte.

Ventilação, conforto térmico e dúvidas sobre custos

Um dos pontos que mais gerou debate no setor diz respeito às exigências relacionadas à ventilação e à qualidade do ar nos compartimentos de carga.

Embora o texto final não imponha a obrigatoriedade de ar-condicionado nos caminhões, ele determina padrões mais elevados de circulação de ar e controle de temperatura, o que pode exigir adaptações estruturais nos veículos.

Na prática, isso pode significar a instalação de novos sistemas de ventilação, reservatórios de água e ajustes internos para atender às normas.

Para muitos produtores, especialmente os de menor porte, essas mudanças representam investimentos elevados em um curto espaço de tempo.

Menos animais por viagem, mais despesas no frete

Com a redução da densidade de lotação e a ampliação do espaço individual por animal, o número de cabeças transportadas por viagem tende a cair.

Como consequência, será necessário aumentar a quantidade de deslocamentos para escoar a produção, o que impacta diretamente o custo do frete.

Produtores alertam que essa equação pode pressionar as margens, sobretudo em regiões afastadas dos grandes centros e com longas distâncias até frigoríficos ou portos.

O temor é que o custo adicional acabe sendo repassado ao longo da cadeia produtiva.

Implementação será gradual, mas fiscalização preocupa

Apesar do impacto, as mudanças não entram em vigor de forma imediata. A regulamentação prevê prazos escalonados, que variam de seis meses a até 24 meses, dependendo da exigência.

Medidas mais complexas, como planos de autocontrole e regras para viagens longas, terão um período maior de adaptação.

Ainda assim, o texto deixa claro que o descumprimento das normas poderá resultar em multas, advertências e até interdição de cargas ou veículos, o que aumenta a apreensão entre produtores e transportadores.

Debate entre bem-estar animal e realidade do campo

O governo defende que as novas regras fortalecem a imagem do Brasil como fornecedor responsável de proteína animal no mercado internacional.

Já representantes do agronegócio argumentam que muitas exigências foram pensadas sem considerar as condições reais de infraestrutura, clima e extensão territorial do país.

Diante disso, o MAPA abriu espaço para contribuições por meio de consulta pública, permitindo que o setor produtivo envie sugestões e críticas antes da consolidação definitiva das normas.

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Ruth Rodrigues

Formada em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), atua como redatora e divulgadora científica.

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