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Rússia pede a palavra no BRICS e surpreende com proposta ousada para mudar a transição energética após cálculo revelar custo de até US$ 8 trilhões por ano para meta global de 2050

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Escrito por Alisson Ficher Publicado em 06/07/2026 às 23:25 Atualizado em 06/07/2026 às 23:30
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Debate no BRICS expõe a estratégia russa para redefinir a transição energética global, com foco em custos, tecnologia, segurança de abastecimento e liberdade para cada país escolher fontes renováveis, gás, biocombustíveis e outras soluções de baixa emissão.

A Rússia defendeu, no debate energético do BRICS, uma transição climática baseada na chamada “escolha tecnológica racional”, modelo que mantém os hidrocarbonetos como fonte relevante de energia enquanto amplia renováveis, biocombustíveis e tecnologias de baixa emissão.

Apresentada por Aleksei Kulapin, diretor-geral da Agência de Energia da Rússia, ligada ao Ministério da Energia do país, a posição foi detalhada em entrevista ao programa “BRICSdiálogo”, da TV BRICS, em conteúdo publicado em 02 de julho de 2026.

O argumento central do especialista combina custo, tecnologia e segurança energética, já que a meta de neutralidade total de carbono no mundo até 2050 exigiria, segundo ele, investimentos anuais estimados entre US$ 7 trilhões e US$ 8 trilhões.

Além do volume financeiro, Kulapin afirmou que o cenário de “zero líquido” dependeria de soluções que ainda não estão disponíveis em escala comercial, o que reforça a defesa russa por uma transição gradual, apoiada em diferentes fontes e caminhos nacionais.

Cenários de energia global discutidos no BRICS

Em 2024, a Agência de Energia da Rússia apresentou três cenários para o setor energético mundial, batizados de “tudo como antes”, “escolha tecnológica racional” e “zero líquido”, cada um com implicações diferentes para investimentos e matriz energética.

Na avaliação de Kulapin, o segundo caminho seria o mais viável porque combina segurança de abastecimento, expansão de fontes renováveis e manutenção de combustíveis ainda centrais para países produtores, consumidores e economias em desenvolvimento.

“O mais sensato é o cenário com o nome bastante sugestivo de ‘escolha tecnológica racional’, no qual os hidrocarbonetos permanecem como fonte-chave de energia”, afirmou Kulapin.

Na mesma análise, o diretor-geral da agência russa disse que a participação das renováveis tende a crescer de forma lógica e natural, sem exigir a eliminação imediata de fontes que ainda sustentam grande parte da economia global.

Esse posicionamento se insere em uma disputa mais ampla da agenda climática internacional, marcada pela pressão por cortes acelerados de emissões e, ao mesmo tempo, pela preocupação de economias emergentes com custo, acesso à energia e segurança de abastecimento.

Metas climáticas avançam em prazos diferentes

Entre os países do BRICS, os compromissos de neutralidade climática seguem calendários distintos, o que fortalece a tese russa de que a transição energética não deve obedecer a um único modelo imposto a realidades econômicas diferentes.

Brasil e África do Sul trabalham com a meta de 2050, enquanto Rússia e China miram 2060; Irã e Egito, segundo Kulapin, orientam suas políticas para um horizonte mais longo, até 2100, após adesão ao Acordo de Paris.

A diferença entre esses prazos ajuda a explicar a defesa de uma transição com neutralidade tecnológica, na qual cada país escolhe as soluções mais adequadas à sua matriz, às reservas naturais, ao nível de industrialização e à capacidade de investimento disponível.

Também pesa nesse debate o comunicado da 10ª Reunião de Ministros de Energia do BRICS, realizada sob presidência do Brasil em 19 de maio de 2025, que reconheceu o papel dos combustíveis fósseis na matriz mundial.

No mesmo documento, os países defenderam responsabilidades comuns porém diferenciadas, respeito às circunstâncias nacionais e liberdade tecnológica, princípios que sustentam a convivência entre renováveis, bioenergia, energia nuclear, hidrogênio de baixa emissão e remoção de carbono.

Gás natural e biocombustíveis ganham espaço no debate

Ao tratar dos caminhos possíveis para a transição, Kulapin citou combustíveis de transição como gás natural e biocombustíveis, além de outras rotas de baixa emissão ou neutras em carbono que podem atender diferentes necessidades nacionais.

Para o diretor-geral da Agência de Energia da Rússia, a prioridade deve ser garantir “acesso igualitário a todos os tipos de tecnologia”, sem obrigar os integrantes do BRICS a adotarem uma solução única para alcançar metas climáticas.

Essa leitura encontra respaldo no comunicado ministerial de 2025, que defende o direito dos Estados de definir ritmo, combinação de fontes e instrumentos de suas transições energéticas, conforme disponibilidade tecnológica e condições econômicas internas.

No campo prático, Kulapin afirmou que projetos conjuntos de investimento estão em andamento no diálogo energético do BRICS, com cooperação ativa da Rússia com Índia e China em infraestrutura, especialmente no transporte de recursos energéticos.

Além dessa frente, ele mencionou iniciativas ligadas à construção de usinas nucleares e ao aproveitamento de outras fontes consideradas limpas, dentro de uma agenda que busca conciliar expansão energética, segurança de abastecimento e redução de emissões.

Padrões comuns e cooperação energética no bloco

Outro ponto defendido por Moscou é a aproximação regulatória por meio de padrões voluntários em extração, refino e petroquímica, já aplicados por empresas russas e apresentados como referência para possíveis projetos conjuntos no BRICS.

Segundo Kulapin, a adoção desses padrões por parceiros do bloco poderia facilitar a replicação de iniciativas bem-sucedidas em diferentes contextos, criando princípios comuns sem eliminar as particularidades técnicas e regulatórias de cada país.

Criada em 2019 por iniciativa russa, a Plataforma de Pesquisas Energéticas do BRICS mantém seu secretariado na Agência de Energia da Rússia e reúne especialistas de universidades, empresas do setor e instituições acadêmicas.

Somente no lado russo, segundo Kulapin, a iniciativa envolve mais de 100 profissionais, responsáveis por panoramas energéticos dos países-membros, estudos temáticos e frentes ligadas à cooperação tecnológica e ao desenvolvimento de capital humano.

O comunicado ministerial de 2025 também reconheceu o papel da plataforma, ao prever a ampliação de pesquisas, mecanismos de cooperação prática e iniciativas capazes de aproximar políticas energéticas entre os integrantes do grupo.

Juventude e liderança feminina no setor energético

Vinculada a essa agenda, a Agência Internacional de Energia Jovem do BRICS reúne especialistas em início de carreira para elaborar projeções anuais sobre o desenvolvimento da energia mundial, dentro de uma estratégia de formação técnica voltada ao bloco.

O grupo também mantém um campeonato de engenharia para jovens, no qual participantes dos países-membros apresentam projetos, trocam experiências e discutem soluções aplicáveis a diferentes segmentos da cadeia energética.

Em outra frente, há iniciativas voltadas ao desenvolvimento da liderança feminina no setor energético dos países do BRICS, tema proposto pela África do Sul e apoiado pela Rússia no âmbito da cooperação entre os membros.

Com essa agenda, Moscou tenta transformar divergências sobre custos, prazos e tecnologias em uma pauta comum dentro do BRICS, aproximando segurança energética, metas climáticas e interesses nacionais em uma mesma discussão.

Até que ponto o bloco conseguirá conciliar transição energética, desenvolvimento econômico e redução global de emissões sem impor aos países emergentes um custo considerado inviável?

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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