Travessia internacional construída para desafogar a fronteira segue com uso limitado, enquanto comerciantes, transportadores e autoridades discutem a liberação gradual do tráfego entre Foz do Iguaçu e Presidente Franco, em meio a filas, atrasos logísticos e cobrança por conclusão dos acessos paraguaios.
Comerciantes, transportadores e entidades empresariais dos dois lados da fronteira cobram a ampliação do uso da Ponte da Integração Jaime Lerner, ligação entre Foz do Iguaçu, no Paraná, e Presidente Franco, no Paraguai, inaugurada em dezembro de 2025.
Financiada pelo Brasil por meio da Itaipu Binacional, a estrutura faz parte de um pacote de R$ 712 milhões, valor que também inclui a Perimetral Leste, com 15 quilômetros, e duas novas alfândegas em Foz do Iguaçu.
Atualmente, a travessia recebe apenas caminhões vazios, chamados de veículos em lastre, entre 22h e 5h, além de ônibus de turismo entre 19h e 7h, sem atender plenamente carros de passeio, transporte turístico urbano e cargas regulares.
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Enquanto a nova ponte permanece subutilizada, a maior parte do fluxo entre Brasil e Paraguai continua concentrada na Ponte da Amizade, entre Foz do Iguaçu e Ciudad del Este, onde passam cerca de 43 mil veículos e 93 mil pessoas por dia, segundo a Receita Federal.
Ponte da Integração segue com tráfego restrito
Concebida como alternativa logística para a Tríplice Fronteira, a Ponte da Integração deveria deslocar parte do transporte pesado que hoje divide espaço com carros, ônibus, vans e pedestres na travessia mais antiga entre Foz do Iguaçu e Ciudad del Este.
Apesar da estrutura pronta, o Itamaraty afirma que a nova ligação opera em “regime provisório”, porque o funcionamento pleno depende da conclusão dos acessos no lado paraguaio, condição apontada como essencial para ampliar a circulação na região.
Na avaliação do governo brasileiro, a Ponte da Integração deve atender prioritariamente veículos de carga e funcionar de maneira complementar à Ponte da Amizade, com melhora esperada nos fluxos de tráfego e nos controles migratórios e aduaneiros.
Do lado paraguaio, o governo informou que existe um cronograma previsto para agosto, com implantação gradual do transporte de pequenas cargas e, em etapa posterior, do transporte de passageiros, enquanto obras de acesso seguem pendentes.
Em Presidente Franco, a prefeitura resiste à passagem de veículos carregados pela área urbana, sob o argumento de que esse fluxo danifica o asfalto local e provoca transtornos aos moradores do município paraguaio.
Fila na Ponte da Amizade pressiona comércio e turismo
Mesmo antes da conclusão total dos acessos no Paraguai, representantes de associações comerciais e entidades de classe defendem que a ponte já poderia receber veículos leves e parte das operações de pequeno porte, reduzindo a pressão sobre a travessia tradicional.
Para Roni Temp, presidente do Codetri, o Conselho de Desenvolvimento da Região Trinacional do Iguassu, a abertura por 24 horas para caminhões sem carga e carros pequenos seria viável e impediria que uma obra concluída seguisse com uso restrito.
Segundo Temp, a limitação prejudica os dois lados da fronteira, pois paraguaios deixam de consumir serviços no Brasil, como compras e clínicas, enquanto brasileiros evitam ir ao Paraguai para não enfrentar filas que chegam a cerca de duas horas.
A entidade encaminhou documento aos governos brasileiro e paraguaio classificando a restrição atual como obstáculo ao desenvolvimento regional, especialmente em uma área marcada por comércio, turismo, transporte internacional e circulação diária de trabalhadores.
Também entrou na pauta a cobrança por avanço da ponte sobre o rio Monday, apontada como principal gargalo para completar o acesso paraguaio, com execução em cerca de 40% e previsão de entrega somente para 2027.
Caminhoneiros relatam espera na fronteira Brasil-Paraguai
No transporte rodoviário, a demora para cruzar a fronteira afeta diretamente empresas e motoristas, já que caminhões podem levar de dois a três dias para passar pela Ponte da Amizade em períodos de movimento mais intenso.
Rodrigo Souza, presidente do Sintrofi, sindicato dos trabalhadores de transporte rodoviário de Foz do Iguaçu e região Oeste, relata que motoristas com caminhões vazios também ficam parados por horas aguardando o horário autorizado na Ponte da Integração.
“É ruim para as empresas e os trabalhadores”, disse Souza, ao resumir o impacto operacional de uma travessia criada justamente para aliviar o corredor mais movimentado entre Brasil e Paraguai.
Na conta de Celso Gallegario, presidente do Sindicato dos Transportadores Rodoviários de Foz do Iguaçu e Região, a demora na abertura plena da ponte provoca prejuízo anual estimado entre R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões ao comércio bilateral.
Em 16 de dezembro de 2025, a Agência Nacional de Transportes Terrestres habilitou o ponto de fronteira da Ponte da Integração para o tráfego rodoviário internacional de cargas e passageiros, condicionado aos requisitos legais e institucionais.
Com estrutura estaiada, a ponte tem 760 metros de extensão e 470 metros de vão livre, descrito pela ANTT como o maior da América Latina, além de conexão brasileira pela Perimetral Leste de Foz do Iguaçu.
Concluída em 2023, a travessia só avançou operacionalmente após a entrega de obras brasileiras, como aduanas e a Perimetral Leste, mas continua limitada enquanto o lado paraguaio não finaliza seus acessos.
Entre uma ponte pronta e outra sobrecarregada, quanto tempo Brasil e Paraguai ainda podem esperar para transformar a nova travessia em solução real para a fronteira?
