1. Início
  2. / Economia
  3. / Alemanha, Japão, Portugal e outros países enfrentam escassez de mão de obra e criam vistos para atrair estrangeiros, mas exigências chegam a três anos de salário mínimo brasileiro
Tempo de leitura 6 min de leitura Comentários 0 comentários

Alemanha, Japão, Portugal e outros países enfrentam escassez de mão de obra e criam vistos para atrair estrangeiros, mas exigências chegam a três anos de salário mínimo brasileiro

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 10/06/2026 às 16:58
Atualizado em 10/06/2026 às 17:02
Alemanha, Japão e Portugal criam vistos para estrangeiros, mas exigem renda alta e comprovação financeira para atrair mão de obra.
Alemanha, Japão e Portugal criam vistos para estrangeiros, mas exigem renda alta e comprovação financeira para atrair mão de obra.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo

Países com envelhecimento populacional ampliam vistos para estrangeiros após a pandemia, enquanto exigências de renda, formação e comprovação financeira mostram como a disputa por mão de obra qualificada ainda depende de critérios restritivos para candidatos de economias com salários mais baixos.

Alemanha, Japão e Portugal ampliaram programas de visto para atrair estrangeiros após a pandemia, em meio à queda da população economicamente ativa e ao envelhecimento demográfico registrado nesses países.

Segundo reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, em alguns casos, a comprovação financeira exigida equivale a mais de três anos de salário mínimo brasileiro, o que limita o alcance dos programas para parte dos candidatos.

Na Alemanha, a autorização conhecida como Chancenkarte, ou “cartão de oportunidades”, foi lançada em junho de 2024 para permitir a entrada de estrangeiros por até um ano.

Com esse visto, o candidato pode procurar emprego no país mesmo sem contrato prévio com uma empresa alemã, desde que cumpra requisitos de formação, pontuação e manutenção financeira.

Para se candidatar, o estrangeiro precisa comprovar formação técnica ou superior e atingir pontuação mínima em critérios como qualificação, experiência profissional, idade e domínio do idioma.

Além disso, as regras exigem recursos suficientes para permanência no país, em valor próximo de € 12 mil, cerca de R$ 69 mil, conforme informado na reportagem.

Durante o período de busca por emprego, o titular da Chancenkarte pode trabalhar até 20 horas por semana em qualquer área, de acordo com as regras do programa.

Se conseguir uma vaga compatível com os critérios migratórios, o estrangeiro pode regularizar a permanência na Alemanha sem precisar retornar ao país de origem.

Alemanha amplia visto em meio à falta de trabalhadores

A criação da Chancenkarte ocorreu em um contexto de redução da força de trabalho alemã, associada ao envelhecimento da população e à queda no número de pessoas em idade produtiva.

Dados do Destatis, o instituto federal de estatísticas da Alemanha, apontam que a parcela da população com 67 anos ou mais era de cerca de 20% em 2024.

As projeções do órgão indicam que essa faixa etária pode chegar a algo entre 25% e 27% em 2038, dependendo do cenário demográfico considerado.

Mesmo com a demanda por trabalhadores, a emissão do visto ficou abaixo da meta prevista pelo governo alemão no primeiro ano de funcionamento do programa.

De acordo com apuração do jornal Folha de S. Paulo, o Ministério do Interior da Alemanha informou que pouco mais de 11 mil vistos haviam sido emitidos até junho de 2025 desde o lançamento.

A previsão inicial do governo era chegar a 30 mil autorizações por ano, segundo os dados citados pela reportagem.

A consultora de imigração brasileira Luana Medeiros, 36, que vive na Alemanha há seis anos, atribui a dificuldade de acesso ao valor exigido para comprovação financeira.

“Não é qualquer um que tem esse valor no Brasil”, disse.

“A Chancenkarte é para pessoas qualificadas. Esse é o X da questão.”

Natural de Itajubá (MG), a médica Chan Lym, 39, chegou ao país com o visto e passou a trabalhar como cuidadora de idosos enquanto aguardava a validação do diploma.

Quando pediu a renovação, recebeu um documento provisório que, segundo ela, não autoriza trabalho durante o período de análise.

“Sou de uma profissão que tem alta demanda aqui. Já estava trabalhando, pagando impostos, tudo dentro da lei, mas ao solicitar a prorrogação, não me permitem trabalhar”, afirmou Chan.

Japão adota visto curto para trabalhador remoto

No Japão, o envelhecimento populacional também aparece entre os fatores que pressionam o mercado de trabalho, embora o visto criado em 2024 tenha foco específico em trabalhadores remotos.

O programa japonês foi lançado em março de 2024 e permite estadia máxima de seis meses para estrangeiros que atendam aos critérios definidos pelo governo.

Pelas regras do Ministério das Relações Exteriores japonês, o candidato deve ser cidadão de país ou região com isenção de visto e acordo tributário com o Japão.

O interessado também precisa comprovar renda anual individual de pelo menos 10 milhões de ienes, cerca de R$ 323 mil, além de seguro médico válido.

Por causa da exigência de renda, o programa passou a ser chamado de “visto para nômades ricos”, denominação usada em debates sobre os critérios de acesso.

O jornal Folha de S. Paulo também apontou que apenas 137 estrangeiros viviam no Japão com essa autorização em junho de 2025, segundo dados do Serviço de Imigração Japonês.

Entre os titulares do visto registrados naquele mês, nenhum era brasileiro, de acordo com as informações oficiais citadas pela reportagem.

Até o fim de 2024, 196 pessoas haviam entrado no Japão pelo programa desde o lançamento, número considerado reduzido diante da dimensão do mercado japonês.

O governo japonês informou que a exigência financeira foi definida para garantir uma base econômica estável durante a permanência dos estrangeiros no país.

Portugal registra alta na procura de brasileiros

Portugal adotou em 2022 o visto D8 para trabalhadores remotos, voltado a estrangeiros que têm renda proveniente de empresas ou clientes fora do território português.

Para solicitar a autorização, o candidato precisa comprovar renda mensal mínima de € 3.680, além de vínculo com empresa estrangeira ou atuação como freelancer para clientes fora de Portugal.

Entre brasileiros, a procura pelo visto cresceu nos últimos anos, segundo dados do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal citados na reportagem.

Nos dois primeiros anos do programa, Portugal emitiu 552 vistos D8 para cidadãos do Brasil.

Em 2025, esse total subiu para 2.697, quase cinco vezes mais que o volume registrado no período inicial.

Até maio de 2026, o governo português contabilizava 1.232 novos pedidos, de acordo com as informações atribuídas ao Ministério dos Negócios Estrangeiros.

O aumento ocorreu em um país que também enfrenta mudança demográfica relevante, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística português.

Em 2024, 24,3% da população tinha 65 anos ou mais, proporção superior à registrada em décadas anteriores.

Projeções do próprio instituto indicam que, sem imigração, Portugal poderia encolher de 10,7 milhões para cerca de 6 milhões de habitantes até 2100.

A chegada de estrangeiros com renda externa também passou a integrar o debate público sobre moradia, especialmente em cidades com maior pressão turística e imobiliária.

No quarto trimestre de 2025, Portugal registrou alta anual de 18,9% nos preços dos imóveis, uma das maiores da União Europeia, segundo dados do Eurostat divulgados em abril de 2026.

Em Lisboa, bairros residenciais passaram a conviver com maior presença de turismo, aluguéis temporários e compra de imóveis por estrangeiros.

Uma delegação do Parlamento Europeu que visitou a capital portuguesa em março de 2026 classificou a situação habitacional do país como uma crise severa.

No campo migratório, o governo português cancelou em 2024 benefícios fiscais voltados a estrangeiros e reformulou o processamento de pedidos de visto.

Em abril de 2026, as solicitações passaram a ser centralizadas na embaixada em Brasília, com novos centros de atendimento em Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza, Recife e Belém.

Países disputam profissionais com renda e qualificação

A disputa por trabalhadores estrangeiros não se limita a Alemanha, Japão e Portugal, já que outros países também criaram autorizações voltadas a profissionais qualificados ou trabalhadores remotos.

A Estônia lançou em 2020 um visto específico para nômades digitais, voltado a pessoas que trabalham remotamente para empresas ou clientes fora do país.

Conforme a Folha de S. Paulo, o Reino Unido criou em 2022 o High Potential Individual, direcionado a pessoas formadas nos cinco anos anteriores em universidades listadas pelo governo britânico.

Esse programa permite atrair profissionais com qualificação acadêmica elevada, ainda que sem oferta prévia de emprego em território britânico.

As iniciativas indicam que parte dos países com população envelhecida passou a combinar abertura migratória com filtros de renda, escolaridade e experiência profissional.

Na prática, os programas ampliam rotas legais de entrada para estrangeiros, mas mantêm exigências que restringem o acesso de candidatos de países com salários mais baixos.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

Compartilhar em aplicativos
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x