A descoberta da exendina-4 na saliva do monstro-de-gila inspirou a primeira geração de medicamentos da classe do GLP-1. Os remédios atuais, porém, são produzidos em laboratório e não contêm veneno nem saliva do animal, ao contrário do que circula nas redes sociais.
Um lagarto do deserto americano está mesmo na origem dessa história, mas não da forma que os vídeos da internet contam. A molécula que inspirou as canetas emagrecedoras foi encontrada na saliva do monstro-de-gila, e é justamente essa informação que vem sendo distorcida, segundo o ND Mais.
A confusão mistura um fato científico verdadeiro com uma conclusão errada. A descoberta da exendina-4, presente na saliva do animal, realmente inspirou o desenvolvimento da primeira geração dessa classe de medicamentos, mas as canetas usadas hoje são produzidas em laboratório e não contêm veneno nem saliva de lagarto. A distinção entre inspirar e conter é o centro de toda a polêmica.
O hormônio que o intestino produz sozinho

A história começa dentro do corpo humano, e não no deserto. Na década de 1980, o endocrinologista canadense Daniel Drucker identificou um hormônio produzido naturalmente pelo intestino após as refeições, o GLP-1, sigla para peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1.
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As funções desse hormônio explicam por que ele virou alvo de pesquisa. O GLP-1 ajuda o corpo a liberar insulina quando o açúcar no sangue está alto e aumenta a sensação de saciedade, combinação que interessava diretamente ao tratamento do diabetes tipo 2.
A ideia inicial era simples de enunciar e difícil de executar. Os pesquisadores queriam transformar esse hormônio natural em medicamento, aproveitando efeitos que o próprio organismo já produzia.
O problema que travou tudo: dois minutos

O obstáculo apareceu logo nos primeiros testes. As versões do hormônio produzidas em laboratório se dissolviam rapidamente e perdiam o efeito em poucos minutos.
A causa está em uma enzima do próprio corpo. O GLP-1 é degradado principalmente pela enzima DPP-4, e sua ação dura cerca de um a dois minutos na corrente sanguínea.
Esse tempo inviabiliza qualquer uso prático. Um remédio que perde efeito em dois minutos não serve para tratamento contínuo, e foi esse impasse que empurrou a pesquisa para outros caminhos.
O lagarto que resolveu o impasse
A solução veio de um animal que vive longe de qualquer laboratório. O monstro-de-gila é um lagarto venenoso encontrado no sul dos Estados Unidos, conhecido pela mordida lenta e pela peçonha.
Na saliva dele havia uma molécula com semelhança estrutural relevante. A exendina-4 é um peptídeo parecido com o GLP-1 humano, mas com ação muito mais duradoura no organismo, justamente o que faltava.
A diferença está na resistência à degradação. Enquanto o hormônio humano é quebrado em minutos pelas enzimas do corpo, a molécula do lagarto resiste por muito mais tempo, o que a tornou modelo para o desenvolvimento de medicamentos.
O lagarto que atravessou o país de avião
Para estudar a molécula, era preciso ter o animal por perto. O Royal Ontario Museum encarregou o professor Bob Murphy, do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade de Toronto, de conseguir um exemplar.
O transporte foi feito da forma mais direta possível. Murphy adquiriu o lagarto, que seguiu de carga aérea até Toronto, onde as pesquisas puderam avançar.
O contexto tecnológico da época explica a dificuldade. “Na década de 1990, não existiam bancos de genes; você não podia pesquisar informações online, você realmente tinha que clonar”, afirmou Drucker.
Da saliva ao primeiro remédio
O caminho entre a descoberta e a farmácia levou mais de uma década. A exendina-4 deu origem à exenatida, primeiro medicamento dessa classe a ser aprovado, comercializado sob o nome Byetta.
A aprovação regulatória marcou o início da categoria. O remédio foi liberado pela agência sanitária americana em 2005, cerca de treze anos depois de a molécula ser isolada.
Mesmo essa primeira geração já não continha veneno. A exenatida é uma versão sintética da molécula, produzida em laboratório, e não um extrato retirado do animal.
A parte que quase ninguém explica
Aqui está o ponto que desmonta boa parte da confusão nas redes. Os medicamentos mais conhecidos hoje não descendem diretamente da molécula do lagarto.
A origem estrutural deles é outra. A semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Wegovy, é baseada no GLP-1 humano modificado, e não na exendina-4 encontrada na saliva do animal.
O mesmo vale para outro nome muito citado. A tirzepatida, do Mounjaro, também não deriva do peptídeo do lagarto, seguindo uma linha de desenvolvimento diferente.
O que o lagarto realmente entregou
Se os remédios atuais não vêm dele, cabe entender qual foi a contribuição. O animal forneceu a prova de que era possível existir uma molécula parecida com o GLP-1 capaz de durar muito mais tempo no corpo.
Essa demonstração mudou o rumo da pesquisa. Saber que o obstáculo dos dois minutos podia ser vencido abriu caminho para que cientistas buscassem modificar o próprio hormônio humano, em vez de desistir da ideia.
É por isso que a palavra correta é inspiração. O monstro-de-gila mostrou que o caminho existia, e não forneceu a matéria-prima dos remédios de hoje.
De dois minutos para cerca de uma semana
A evolução dessa classe de medicamentos pode ser medida em tempo de permanência no corpo. O GLP-1 natural dura de um a dois minutos na corrente sanguínea.
A primeira geração já representou um salto enorme. A exenatida tem meia-vida de aproximadamente 2,4 horas, o que permitiu transformar o conceito em tratamento viável.
As versões seguintes ampliaram muito essa janela. A liraglutida tem meia-vida em torno de 13 horas e a semaglutida, cerca de 165 horas, o que equivale a aproximadamente uma semana e explica a aplicação semanal.
Por que a fake news pegou
A desinformação encontrou terreno fértil por um motivo específico. A parte falsa da história se apoia em um fato verdadeiro, o que a torna mais difícil de desmentir do que uma invenção completa.
A palavra veneno faz o resto do trabalho. Associar um medicamento de uso amplo à peçonha de um animal desperta reação imediata, principalmente entre quem já tem receio de tratamentos novos.
O efeito prático é o que preocupa. Vídeos com essa afirmação levantam dúvidas em pacientes que usam os medicamentos sob prescrição, o que pode interferir na adesão ao tratamento.
O prêmio que reconheceu a descoberta

As pesquisas por trás dessa classe de remédios receberam reconhecimento internacional. Em 2024, cinco cientistas foram agraciados com o Prêmio Princesa das Astúrias de Pesquisa Científica e Técnica, um dos mais relevantes do mundo ibero-americano.
A lista reúne nomes de diferentes instituições. Foram premiados Daniel Drucker, Jens Juul Holst, Joel Habener, Svetlana Mojsov e Jeffrey Friedman.
A justificativa da premiação aponta o alcance do trabalho. Segundo a fundação responsável, os cientistas estabeleceram as bases para tratamentos inovadores contra diabetes tipo 2 e obesidade, beneficiando milhões de pessoas.
O que os cientistas estudam agora
A pesquisa sobre o GLP-1 não parou no emagrecimento. Cientistas investigam o uso do hormônio em tratamentos para Alzheimer, problemas cardiovasculares e dependência química.
O avanço é descrito como resultado coletivo, e não de um único laboratório. “A realidade é que se trata de uma rede muito forte de cientistas se comunicando e trabalhando juntos”, afirmou Ehud Ur, da Universidade da Colúmbia Britânica.
Ele destaca que a origem geográfica importa menos do que se imagina. O pesquisador aponta que avanços podem acontecer praticamente em qualquer lugar, desde que exista troca entre grupos.
O que fica claro sobre os medicamentos
Alguns pontos podem ser afirmados com segurança a partir do que a ciência registra. Nenhuma das canetas em uso contém veneno ou saliva de lagarto, e todas são fabricadas em laboratório.
Também é fato que a molécula do animal foi decisiva no começo dessa história. A exendina-4 inspirou a primeira geração e provou que o conceito funcionava, mesmo não estando nos remédios atuais.
E há uma ressalva que vale para qualquer medicamento dessa classe. São remédios de prescrição médica, indicados para condições específicas e com efeitos que variam de pessoa para pessoa, o que torna o acompanhamento profissional indispensável.
E você, já tinha ouvido essa história do lagarto?
Um hormônio que durava dois minutos, um lagarto venenoso do deserto americano e quatro décadas de pesquisa separam a descoberta original das canetas emagrecedoras que hoje estão em milhões de receitas. O animal apontou o caminho, mas nenhum remédio atual carrega veneno dele.
E você, já tinha visto esses vídeos dizendo que o remédio é feito de veneno de lagarto? Acha que falta informação de qualidade sobre esses medicamentos, ou o problema é o excesso de opinião na internet? Conte nos comentários a sua opinião e marque aquela pessoa que compartilhou essa história achando que era verdade.

