Sequenciamento genômico sem PCR expôs décadas de contaminação acumulada no linho e reforçou uma limitação decisiva, o estudo não identifica DNA de Jesus nem resolve a idade ou a autenticidade da relíquia
Uma nova análise genética do Sudário de Turim encontrou vestígios de seres humanos, bactérias, fungos, plantas cultivadas, animais domésticos e até coral vermelho do Mediterrâneo. O material foi recuperado de amostras retiradas do tecido em 1978 e preservadas por quase cinco décadas.
O trabalho foi publicado em 9 de julho de 2026 na revista científica Scientific Reports. Os pesquisadores examinaram fios de linho, poeira coletada por aspiração e um pequeno fragmento de tecido, usando sequenciamento genômico de nova geração para reconstruir as assinaturas biológicas acumuladas no objeto.
O resultado mais esclarecedor, porém, não aponta para Jesus de Nazaré. A principal linhagem de DNA humano encontrada coincide com o perfil genético de Pierluigi Baima Bollone, médico e professor italiano responsável pela coleta das amostras em 1978.
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Também apareceram linhagens mitocondriais presentes na Europa Ocidental e no Oriente Médio. A mistura, somada aos sinais de contaminação moderna, impede que os cientistas determinem quando cada pessoa tocou no tecido ou relacionem qualquer fragmento genético ao homem representado na imagem.
O DNA humano mais abundante levou os cientistas de volta a 1978
A equipe internacional analisou 12 amostras associadas ao Sudário, mas conseguiu produzir dados genômicos aproveitáveis de sete delas. O material havia sido retirado de áreas correspondentes ao rosto, mãos, pés e região posterior da imagem, além das bordas do pano e do interior do relicário.
Entre as linhagens mitocondriais identificadas estavam K1a1b1a, H2a2, H1b e H33. A primeira apareceu com maior força e foi comparada ao genoma de Baima Bollone, já falecido. Testes de parentesco indicaram compatibilidade com o próprio coletor ou com um parente de primeiro grau.
A descoberta muda a leitura mais imediata dos resultados. Embora parte do DNA apresente fragmentação compatível com material degradado, mais de 98% das sequências avaliadas não exibiram os padrões mínimos de dano normalmente usados para reconhecer DNA antigo confiável. O estudo concluiu que grande parte do material humano é moderna e foi deixada durante manuseios, coletas e exposições.
Uma técnica mais rigorosa encontrou o que métodos anteriores não conseguiam separar
Segundo informações divulgadas pela Universidade de Lancashire, o grupo aplicou pela primeira vez às amostras oficiais de 1978 um sequenciamento metagenômico de nova geração sem amplificação por PCR. O procedimento reduz distorções provocadas pela reprodução seletiva de pequenos fragmentos e permite procurar simultaneamente DNA humano, animal, vegetal e microbiano.
Isso não significa que o material tenha permanecido intacto desde a fabricação do pano. O Sudário passou por incêndios, reparos, mudanças de cidade, cerimônias religiosas, exposições públicas e intervenções científicas. Cada contato pode ter depositado células da pele, pelos, partículas de alimentos, pólen, fibras e micro-organismos.
O microbioma reconstruído inclui bactérias normalmente presentes na pele humana, como Cutibacterium acnes e Staphylococcus epidermidis. Também foram encontradas arqueias adaptadas a ambientes com alta concentração de sal, leveduras resistentes à secura, fungos do gênero Aspergillus e espécies associadas ao couro cabeludo.
Essas assinaturas ajudam a investigar como o tecido foi tocado, armazenado e exposto ao ambiente, mas não formam uma linha do tempo precisa. Um microrganismo detectado agora pode ter chegado durante uma cerimônia antiga, uma restauração ou a própria retirada das amostras em 1978.
Coral, cenoura, banana e animais revelam uma mistura de épocas
Entre os vestígios mais curiosos está o DNA do coral vermelho Corallium rubrum, espécie encontrada no Mediterrâneo e historicamente utilizada na produção de joias, amuletos e objetos decorativos. A análise também apontou gatos, cães, galinhas, bovinos, porcos, cavalos, coelhos, peixes, insetos, ácaros e pequenos crustáceos.
No grupo das plantas surgiram trigo, cenoura, milho, banana, amendoim, uva, pepino, chicória, nogueira e espécies de pinheiro. Vários desses produtos só se tornaram comuns na Europa muitos séculos depois do período de Jesus, o que confirma que o pano recebeu material biológico em épocas recentes.
A cenoura foi a cultura vegetal mais representada nas sequências classificadas. Os fragmentos apresentaram maior semelhança com variedades melhoradas e cultivares relacionadas às cenouras alaranjadas desenvolvidas na Europa Ocidental entre os séculos XV e XVI. Isso sugere contaminação posterior ao fim da Idade Média, e não uma ligação direta com a fabricação do tecido.
Os próprios autores consideram a possibilidade de contaminação secundária. Uma pessoa poderia tocar em animais, alimentos ou objetos e depois transferir pequenas quantidades desse DNA ao Sudário. Assim, encontrar vestígios de gato ou banana não comprova que o pano tenha sido guardado diretamente ao lado desses elementos.
Uma pesquisa anterior, publicada em 2015 também na Scientific Reports, já havia recuperado DNA de diferentes plantas e de vários indivíduos em poeira aspirada do tecido. Na época, os cientistas advertiram que a diversidade era compatível tanto com séculos de peregrinações e manuseio na Europa quanto com possíveis deslocamentos por outras regiões, sem permitir a reconstrução segura do trajeto do objeto.
O novo estudo não derruba a datação medieval feita com carbono 14
O teste mais conhecido sobre a idade do Sudário foi realizado em 1988 por laboratórios da Universidade do Arizona, da Universidade de Oxford e do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique. A análise por carbono 14 situou a produção do linho entre 1260 e 1390, com 95% de confiança, resultado publicado na revista Nature em fevereiro de 1989.
Essa datação continua contestada por pesquisadores e grupos religiosos, principalmente sob a alegação de que a amostra poderia ter vindo de uma área restaurada. O novo estudo genético não repetiu o teste no corpo principal do tecido e, portanto, não oferece uma nova idade para o Sudário.
Os cientistas dataram somente dois fios encontrados no relicário. Um deles foi situado entre 1451 e 1622, período que inclui o reparo realizado em 1534 após um incêndio em Chambéry. O segundo ficou entre 1642 e 1800, intervalo compatível com trabalhos de conservação registrados em 1694.
Esses fios confirmam que materiais de diferentes épocas permaneceram junto ao pano, mas não substituem a datação feita em 1988. Eles provavelmente pertenciam a remendos ou estruturas de proteção usadas ao longo dos séculos.
Em abril de 2026, outra análise examinou dois fragmentos arquivados pela Universidade do Arizona desde o teste de carbono 14. Os autores concluíram que as fibras apresentavam a mesma estrutura do corpo principal do Sudário e não mostravam sinais de remendo ou contaminação suficiente para alterar a datação medieval, embora reconhecessem que as peças representam uma parte pequena do tecido.
A ciência encontrou um arquivo biológico, mas não o DNA do homem da imagem
O principal avanço da pesquisa está na capacidade de extrair informações de amostras guardadas desde 1978. O conjunto funciona como um arquivo de contatos humanos, ambientes, alimentos, animais e intervenções de conservação acumulados durante séculos.
A mesma riqueza de vestígios que torna o objeto interessante também impede uma conclusão sobre sua autenticidade. Não existe uma amostra genética de referência de Jesus, e os cientistas não conseguiram separar um suposto DNA original das sequências deixadas posteriormente por coletores, religiosos, restauradores, fiéis e pesquisadores.
Para você, a presença de tantos vestígios torna o Sudário de Turim mais interessante ou aumenta as dúvidas sobre sua origem? Deixe sua opinião nos comentários e diga qual teste científico ainda deveria ser realizado no tecido.

