A mineira Sofia Santos de Oliveira foi aprovada em março de 2022, aos 18 anos, nas três universidades americanas ao mesmo tempo. Escolheu Harvard, onde a bolsa integral cobre mensalidade e custo de vida por quatro anos, pacote estimado em cerca de R$ 2 milhões.
Aprender inglês sem professor, sem curso e sem intercâmbio já seria história suficiente. Mas a estudante de Belo Horizonte Sofia Santos de Oliveira usou esse inglês autodidata para conquistar bolsa integral em Harvard, Yale e Stanford ao mesmo tempo, segundo a CNN Brasil. A aprovação saiu em março de 2022, quando ela tinha 18 anos.
A escolha final ficou com a universidade mais antiga dos Estados Unidos. Sofia optou por Harvard, onde a bolsa cobre mensalidade e despesas de moradia e alimentação ao longo de quatro anos, em um pacote estimado em cerca de R$ 2 milhões custeado pela própria instituição. Ela entrou em uma turma que conclui a graduação justamente em 2026.
A demissão que tirou a bolsa dela
A trajetória escolar está longe de ser linear. Ainda no 5º ano do ensino fundamental, o pai foi demitido da indústria siderúrgica onde trabalhava e ela perdeu a bolsa de estudos que tinha no Sesi.
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A consequência imediata foi voltar para trás. Ela retornou à escola pública municipal, em um momento em que a família lidava com a perda de renda.
A reação dela foi não aceitar aquele ponto como destino. “Como sempre gostei de estudar, não quis me conformar com a situação e continuei buscando por oportunidades de ir para uma escola melhor”, contou.
O inglês aprendido sem professor

O idioma é a barreira que costuma eliminar candidatos brasileiros antes mesmo da prova. Sofia aprendeu inglês por conta própria porque os pais não tinham condições de pagar um curso.
Isso a coloca fora do perfil típico desse tipo de aprovação. Ela não faz parte do grupo de alunos treinados desde cedo em colégios bilíngues para disputar vaga nas universidades mais concorridas do mundo.
Mesmo assim, o objetivo já existia na infância. “Desde o ensino fundamental, eu já cogitava a ideia de ir estudar no exterior, mas era quase uma utopia. Eu não sabia exatamente como iria conseguir chegar lá”, afirmou.
As olimpíadas que mantiveram a porta aberta
Durante os anos na escola pública, ela buscou o que estava ao alcance. Participou de olimpíadas de matemática e se engajou em assembleias escolares, atividades gratuitas que mantêm o aluno em movimento.
Esse tipo de participação costuma pesar depois. Olimpíadas científicas funcionam como porta de entrada para bolsas e programas de identificação de talentos, especialmente para estudantes sem recursos.
Foi essa insistência que produziu a virada seguinte. No 9º ano, ela conseguiu uma bolsa integral em um curso preparatório para vestibulares, enquanto se organizava para tentar escolas federais.
O encontro que mudou o alvo
Foi nesse período que ela conheceu a organização que redirecionou seus planos. Durante a preparação para a seleção de escolas federais, Sofia conheceu o Ismart, o Instituto Social para Motivar, Apoiar e Reconhecer Talentos.
A entidade trabalha com um recorte específico de estudantes. O instituto identifica jovens talentos de baixa renda e concede bolsas em escolas particulares de excelência, cobrindo mensalidade, alimentação e transporte.
O efeito imediato não foi material, e sim de horizonte. “Depois de entrar no Ismart, conheci histórias de outros jovens de origens humildes como a minha e que tinham conseguido a sonhada aprovação em universidades americanas com bolsa, e percebi que aquele sonho poderia, sim, se tornar realidade”, disse.
Quinze horas fora de casa, todo dia

A bolsa do instituto a levou para um colégio particular em 2019. Ela passou a estudar no Colégio Santo Antônio durante o ensino médio.
O preço foi pago em tempo de deslocamento. A rotina consistia em acordar às 5h e pegar dois ônibus para chegar ao colégio, voltando para casa às 20h cerca de quinze horas fora de casa por dia.
É um detalhe que costuma passar batido nesse tipo de história. A distância entre a periferia e a escola de elite não é só simbólica, é quilometragem diária, e ela atravessou a cidade por três anos.
Tudo o que ela fez além de estudar
A lista de atividades paralelas explica boa parte da aprovação. Sofia criou um projeto social para apoiar estudantes de baixo poder aquisitivo e passou a dar aulas de inglês gratuitas para jovens de baixa renda ensinando justamente o idioma que aprendeu sozinha.
Houve também produção científica própria. Ela entrou para a Academia de Ciências de Nova York e iniciou uma pesquisa científica autônoma, que recebeu cerca de dez reconhecimentos em feiras nacionais e internacionais.
E ainda sobrou espaço para atuação institucional. Participou do Parlamento Jovem Brasileiro e de um programa da Câmara dos Deputados, sem abandonar a rotina de estudos.
O método por trás da agenda
Ela atribui o resultado à organização, e não a talento espontâneo. “Aprendi a otimizar meu tempo. Então, sempre busquei usar cada segundo do dia de forma produtiva”, afirmou.
O sistema que descreve é simples e repetível. “Sempre fui uma pessoa muito organizada e metódica: planejava meus dias na noite anterior e estabelecia prioridades do que deveria ser feito primeiro”, contou.
As atividades extras, ressalta, não eram distração. Ela afirma que projetos pessoais e extracurriculares são importantes para os processos seletivos das faculdades americanas, que avaliam o candidato além da nota.
O ciclo mais concorrido da história de Harvard

O ano em que ela passou não foi um ano qualquer. Harvard recebeu 61.220 candidaturas e aprovou 1.954 estudantes, taxa de 3,19%, o índice mais baixo já registrado pela instituição até então.
A conta ajuda a dimensionar a disputa. Aproximadamente 31 candidatos concorreram para cada vaga aberta, e mais de 59 mil pessoas ficaram de fora.
A reação dela mistura sentimentos opostos. Sofia relata surpresa e incredulidade por ter sido aprovada nesse ciclo, junto com a felicidade de ver anos de esforço concretizados e a aflição de precisar escolher entre as três universidades.

Por que ela mirou os Estados Unidos
A escolha pelo exterior tem razões que ela lista de forma objetiva. Segundo Sofia, o diferencial dessas universidades está na maior flexibilidade acadêmica e na valorização da pesquisa.
Há também o fator de circulação internacional. Ela cita as oportunidades internacionais de estudo e um corpo estudantil culturalmente diverso como pontos decisivos.
A flexibilidade tem efeito prático na decisão de carreira. No modelo americano, o estudante tem até o fim do segundo ano para oficializar a área escolhida, o que permite experimentar antes de decidir.
O curso escolhido e o motivo
A área que ela mirou combina duas frentes pouco óbvias juntas. Sofia planejava cursar Química e Ciências Sociais, com foco em Educação e Saúde Pública.
A justificativa vai além do interesse pessoal. “Além de despertar minha curiosidade intelectual, a química pode ser utilizada para ajudar no avanço da humanidade em muitas áreas, principalmente na área ambiental e da saúde humana”, explicou.
Ela mantinha a decisão em aberto. A intenção era explorar outras áreas antes de oficializar a escolha, aproveitando a estrutura do curso.
O pai que voltou a estudar por causa dela
O desdobramento mais inesperado da história aconteceu dentro de casa. O pai de Sofia não conseguiu terminar o ensino médio na época em que estudava porque precisava trabalhar para ajudar a família.
Quase três décadas depois, ele mudou de ideia observando a filha. “Vendo o impacto positivo da educação na minha vida, ele se inspirou a finalizar seus estudos por meio do EJA e fazer um curso técnico”, contou ela.
É o argumento que ela usa para defender o próprio ponto de vista. “A educação de qualidade não mudou apenas a minha vida, como também a vida de muitas pessoas ao meu redor”, afirmou.
O recado que ela deixou
O objetivo declarado para o futuro não é individual. Ela afirmou querer entender como mudar sistemas educacionais e políticos para ampliar esse tipo de oportunidade para outros jovens.
A meta que descreve envolve desigualdade. Sofia fala em ajudar jovens a furar a bolha da desigualdade social brasileira, usando a própria experiência como referência.
A frase com que encerrou o relato virou a síntese do caso. “Nenhum sonho é tão grande que seja inalcançável e, se não foi conquistado ainda por alguém da sua comunidade, você pode tentar ser o primeiro a realizá-lo”, disse, acrescentando que a coragem de tentar já transforma alguém em inspiração. Programas de acesso ao ensino superior no país são acompanhados pelo Ministério da Educação.
Uma bolsa integral estimada em R$ 2 milhões, três das universidades mais concorridas do mundo aprovando a mesma estudante e um inglês aprendido sem professor porque não havia dinheiro para curso. No meio disso, uma menina que perdia bolsa quando o pai perdia emprego, acordava às 5h e pegava dois ônibus e acabou fazendo o próprio pai voltar para a escola.
E você, acha que esforço individual como o dela é regra ou exceção no Brasil? O que precisaria mudar para que histórias assim deixassem de ser notícia e virassem rotina? Conte nos comentários a sua opinião e marque aquela pessoa que está estudando e precisa ler isso hoje.
