O gel que armazena eletricidade foi desenvolvido na Universidade Northwestern a partir de moléculas que se reorganizam após receber luz, eletricidade, raios X ou combustível, formando uma rede condutora capaz de conservar elétrons por meses, liberar energia sob demanda e retornar ao líquido amarelo quando exposta ao oxigênio no ar.
Cientistas da Universidade Northwestern desenvolveram um gel que armazena eletricidade por meses depois de surgir a partir de um líquido amarelo exposto a diferentes fontes de energia. Quando carregado, o material se reorganiza molecularmente, escurece e forma uma rede capaz de manter elétrons armazenados até que sejam utilizados em reações químicas.
As informações foram divulgadas pela Universidade Northwestern em comunicado publicado no EurekAlert! em 11 de junho de 2026. O estudo revisado por pares havia sido publicado em 27 de maio de 2026 na revista científica Chem, com apoio do Departamento de Energia dos Estados Unidos.
Material reúne três funções em um único sistema
Tradicionalmente, captar, armazenar e utilizar energia exige materiais ou dispositivos diferentes. Uma estrutura pode absorver luz, enquanto uma bateria separada guarda a eletricidade para uso posterior.
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O novo material procura reunir essas três etapas. Ele recebe energia, reorganiza sua estrutura física, conserva elétrons e depois os disponibiliza para alimentar reações químicas, sem depender de um dispositivo de armazenamento separado durante os experimentos.
Líquido amarelo se transforma em gel preto
Antes de receber energia, o material aparece como um líquido amarelo formado por pequenos agrupamentos moleculares suspensos em água. A exposição a luz, eletricidade, raios X ou combustível químico modifica a organização dessas moléculas.
À medida que recebe elétrons, o líquido se torna um gel preto, condutor e rico em energia. O gel que armazena eletricidade mantém essa configuração durante meses, segundo os testes descritos pelos pesquisadores.
Inspiração veio do interior das células
A equipe se inspirou no citoesqueleto, estrutura dinâmica que ajuda células vivas a manter sua forma, movimentar-se e se dividir. Diferentemente de um esqueleto rígido, o citoesqueleto pode ser construído, desmontado e reorganizado continuamente.
Os pesquisadores buscaram reproduzir esse comportamento em um sistema sintético. O material não permanece preso a uma única forma, mas alterna entre líquido e gel conforme recebe, armazena ou libera energia.
Molécula combina captação e armazenamento
O sistema foi criado a partir de uma molécula denominada ANI-MV. Ela reúne uma unidade aromática de aminonaftaleno, chamada ANI, e uma porção de metilviologênio, identificada pela sigla MV.
A parte ANI responde à energia recebida e transfere elétrons para a porção MV. Essa combinação permite que a mesma molécula participe tanto da captação quanto do armazenamento da carga elétrica.
Elétrons mudam a organização molecular
Quando a parte MV recebe elétrons, moléculas próximas passam a se atrair com maior intensidade. Elas formam pares conhecidos como pímeros, que depois se organizam em estruturas maiores.
Esses conjuntos originam fitas semicondutoras em escala nanométrica. Os elétrons ficam deslocalizados ao longo das fitas, podendo se movimentar pela estrutura em vez de permanecerem presos a uma única molécula.
Fitas se entrelaçam para formar a rede
As fitas supramoleculares começam a se cruzar e a formar uma rede tridimensional. Esse processo modifica a consistência do material e transforma o líquido inicial no gel preto observado pelos pesquisadores.
A rede espalha os elétrons por toda a estrutura. De acordo com a universidade, as fitas representam o primeiro exemplo de um pímero polimérico supramolecular formado por pares moleculares capazes de armazenar elétrons.
Energia permaneceu guardada durante meses
Nos experimentos, o gel que armazena eletricidade conservou a carga por meses sem retornar imediatamente ao estado inicial. Isso diferencia o material de sistemas fotossensíveis que perdem sua função assim que a iluminação desaparece.
O estudo não informa, no comunicado, a eficiência energética completa, a quantidade de ciclos testados ou a perda de carga ao longo do tempo. Por isso, o material ainda não pode ser comparado diretamente com baterias comerciais.
Gel pode alimentar reações no escuro
A equipe demonstrou que os elétrons armazenados poderiam ser transferidos para moléculas de oxigênio. A interação produziu espécies altamente reativas capazes de impulsionar outras reações químicas.
Esse funcionamento foi chamado por Samuel I. Stupp, autor sênior do estudo, de “fotocatálise no escuro”. A expressão descreve a capacidade de aproveitar posteriormente uma energia originalmente capturada da luz, mesmo quando a iluminação já não está presente.
Contato com o ar reinicia o processo
Quando o gel é exposto ao oxigênio do ar, os elétrons armazenados são consumidos e a rede molecular começa a se desfazer. O material preto volta, então, a formar pequenos agrupamentos não condutores no líquido amarelo.
Depois dessa reversão, o sistema pode receber energia novamente. O ciclo de montagem e desmontagem permite que o material seja recarregado e reutilizado, conforme os resultados experimentais divulgados.
Luz pode desenhar caminhos condutores
Como a luz pode ativar seletivamente partes do líquido, os pesquisadores conseguiram criar padrões microscópicos condutores. Apenas as regiões iluminadas mudaram de estrutura e passaram a formar o gel.
Esses padrões não precisam permanecer de forma definitiva. Ao entrar em contato com o ar e perder os elétrons armazenados, o material retorna ao estado original e o desenho condutor desaparece.
Plataforma funciona inteiramente em água
O material foi desenvolvido para operar em ambiente aquoso. Segundo a Universidade Northwestern, o sistema experimental não exige metais nem plásticos para cumprir as funções de captação, armazenamento e liberação de energia.
Essa característica desperta interesse por alternativas mais flexíveis aos dispositivos tradicionais. No entanto, a ausência de metais e plásticos no material estudado não significa que um futuro produto completo dispensaria automaticamente todos esses componentes.
Um grama poderia alimentar dispositivo vestível
Stupp estima que um grama do material poderia armazenar energia suficiente para carregar um relógio inteligente ou outro dispositivo vestível. A estimativa indica a densidade energética potencial vislumbrada pela equipe.
O comunicado não apresenta um protótipo de smartwatch carregado pelo gel nem informa tempo de carregamento, tensão ou potência fornecida. O dado deve, portanto, ser entendido como projeção dos pesquisadores, não como produto já demonstrado ao consumidor.
Aplicações incluem eletrônicos flexíveis
A capacidade de mudar de forma, armazenar elétrons e produzir regiões condutoras pode ser útil em eletrônicos flexíveis e materiais programáveis. Esses sistemas precisam acompanhar deformações sem perder completamente sua função.
O gel que armazena eletricidade também poderia integrar superfícies recarregáveis ou circuitos temporários. Essas aplicações permanecem em fase de pesquisa e dependerão de novos testes de estabilidade, fabricação e desempenho.
Material também pode atuar em remediação ambiental
Os pesquisadores mencionam a remediação ambiental entre as possíveis utilizações. Como o gel pode liberar energia para gerar moléculas reativas, ele poderia auxiliar reações destinadas a transformar determinados compostos químicos.
A fonte não informa contaminantes específicos, testes em ambientes reais ou sistemas prontos para tratamento de água e solo. Essa possibilidade representa uma linha futura de investigação, e não uma tecnologia disponível para uso imediato.
Pesquisa ainda precisa avançar antes de virar bateria
O estudo apresenta um novo mecanismo de armazenamento baseado na reconstrução física do próprio material. Isso representa uma abordagem diferente das baterias convencionais, que dependem de eletrodos, eletrólitos e reações eletroquímicas organizadas em células.
Ainda será necessário avaliar durabilidade, segurança, escala de produção, estabilidade e eficiência. O material desempenhou função semelhante à de uma bateria em laboratório, mas ainda não constitui uma bateria comercial completa.
Descoberta abre debate sobre novos materiais energéticos
A pesquisa mostra que moléculas auto-organizáveis podem combinar captação, armazenamento e utilização de energia em uma única plataforma. O resultado aproxima conceitos inspirados em células vivas de aplicações em química, eletrônica e energia renovável.
Na sua opinião, materiais líquidos e recarregáveis podem substituir parte das baterias tradicionais no futuro? Compartilhe nos comentários se a possibilidade de armazenar energia sem metais ou plásticos parece mais promissora para eletrônicos flexíveis, dispositivos vestíveis ou sistemas ambientais.

