A mina Platreef, no norte da África do Sul, está virando a maior operação de metais preciosos em construção no planeta por causa de uma anomalia geológica rara: a camada de minério ali tem 26 metros de espessura, cerca de 25 vezes mais grossa que as minas de platina comuns do país, e isso muda tudo na forma de arrancar o metal do chão.
O marco que destravou a coisa foi a entrada do terceiro poço. Com o Shaft 3 pronto para içar, anunciado no fim de março, a capacidade de subir minério à superfície salta de 0,8 milhão para cerca de 5 milhões de toneladas por ano, um aumento de cinco vezes. A dona do projeto é a Ivanhoe Mines, do veterano Robert Friedland, que define o depósito como uma maravilha geológica, nas palavras dele, vinte e cinco vezes mais espesso que o dos concorrentes tradicionais.
Uma camada 25 vezes mais grossa que o normal
Para entender por que isso empolga tanta gente, vale lembrar como é a platina sul-africana de sempre. As minas clássicas do país perseguem veios estreitos, às vezes com menos de um metro de altura, o que obriga mineiros a trabalhar deitados em galerias apertadas. O corpo de minério da Platreef, batizado de Flatreef, é o oposto: uma laje plana e espessa que permite usar máquinas grandes, esteiras e equipamentos mecanizados, como se fosse uma mineração de porão em vez de um labirinto.
O lugar não poderia ser outro. O Complexo Bushveld, onde a Platreef se encaixa, é a maior reserva de metais do grupo da platina do mundo. É uma estrutura de rocha formada há cerca de dois bilhões de anos, quando magma despejado das profundezas se resfriou em camadas empilhadas. Dali sai a maior parte da platina e do paládio do planeta. A Platreef apenas teve a sorte de pegar uma das fatias mais grossas dessa formação, e isso transforma um privilégio geológico em vantagem industrial.
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O contrário das minas-labirinto da África do Sul
Essa diferença não é detalhe. As minas profundas sul-africanas são algumas das mais extremas e perigosas do planeta. A gente já contou aqui o caso da Mponeng, a mina mais funda da Terra, que desce mais de 4 mil metros e enfrenta calor de 60 graus. A Platreef opera a profundidades bem menores, nos níveis de 750 e 850 metros, e como o minério é grosso e mecanizável, a conta fecha de um jeito que mina estreita nenhuma consegue.

Platina barata num mundo que corre atrás dela
É no custo que a história fica interessante para o resto do mundo. A Platreef projeta tirar o conjunto de platina, paládio, ródio e ouro por volta de 511 dólares a onça nas fases mais maduras, enquanto a cesta desses metais é negociada perto de 2.500 dólares. Com 93 milhões de onças de platina equivalente já indicadas no subsolo, a mina mira o posto de produtora primária de menor custo do planeta.
Isso pesa porque esses metais não são luxo, são engrenagem. Platina e paládio limpam o escapamento dos carros, entram em eletrônicos e são apostas centrais para as células de hidrogênio que muita gente vê como combustível do futuro. Hoje a oferta se concentra em poucas mãos, sobretudo África do Sul e Rússia, e qualquer mina nova de grande porte mexe no tabuleiro, do mesmo jeito que países brigam por depósitos de minerais críticos para escapar do domínio chinês.
Confesso que o que me fisga aqui não é o brilho do metal, é a geologia. Fico imaginando o acaso de dois bilhões de anos atrás que empilhou uma camada tão grossa de riqueza num único lugar, e como uma fatia de rocha mais gorda que o normal pode redesenhar quem manda no mercado de um metal que o mundo inteiro disputa.
Faz sentido o planeta inteiro depender de um punhado de minas para um metal tão decisivo quanto a platina?

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