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Operários abriam uma obra perto do Vaticano quando um simples cano de chumbo enterrado revelou o nome do imperador mais temido de Roma e, debaixo dos seus pés, o jardim luxuoso onde Calígula recebia embaixadas há quase dois mil anos

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 07/07/2026 às 08:33
Assista o vídeoObras do Jubileu em Roma revelaram um jardim monumental ligado a Calígula na Piazza Pia, perto do Vaticano, identificado por um cano de chumbo.
Crédito: Divulgação/Ministério da Cultura italiano
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Obras do Jubileu em Roma revelaram um jardim monumental ligado a Calígula na Piazza Pia, perto do Vaticano, identificado por um cano de chumbo.

As obras de reurbanização da Piazza Pia, em Roma, preparadas para o Jubileu de 2025, trouxeram à luz os restos de um jardim monumental da era júlio-claudiana na margem direita do rio Tibre, numa área próxima ao Vaticano. No local, arqueólogos identificaram um muro de travertino, as fundações de um pórtico colunado e uma ampla área aberta organizada como jardim.

A descoberta ganhou peso histórico por causa de um achado bem menos imponente do que o conjunto arquitetônico: um cano de chumbo com a inscrição “C(ai) Cæsaris Aug(usti) Germanici”, nome oficial de Calígula, imperador romano que governou entre 37 e 41 d.C.. A inscrição permitiu ligar o espaço ao círculo imperial e reforçou a identificação da área como parte dos Horti de Agrippina.

Jardim monumental descoberto na Piazza Pia recoloca Calígula no centro da arqueologia de Roma

O Ministério da Cultura da Itália informou que o achado apareceu durante os trabalhos de escavação estratigráfica e de delocalização de uma fullonica, uma antiga instalação romana ligada ao tratamento de tecidos, no canteiro do novo subterrâneo da Piazza Pia. Foi nesse processo que surgiram os vestígios do jardim voltado diretamente para a margem do Tibre.

Obras do Jubileu em Roma revelaram um jardim monumental ligado a Calígula na Piazza Pia, perto do Vaticano, identificado por um cano de chumbo.
Crédito: Divulgação/Ministério da Cultura italiano

A descrição oficial aponta que a estrutura era composta por um muro de travertino que funcionava como contenção da margem do rio, seguido por um pórtico colunado hoje preservado apenas nas fundações, além de uma grande superfície aberta organizada como área ajardinada. O conjunto foi datado em fases que vão da época de Augusto à de Nero.

O contexto da obra também ajuda a dimensionar a descoberta. A Piazza Pia integra um grande projeto de pedonalização e reorganização viária ligado ao Jubileu, criado para conectar melhor a área do Castel Sant’Angelo, a Via della Conciliazione e a região de São Pedro.

Cano de chumbo com o nome de Gaius Caesar Augustus Germanicus foi a peça decisiva da identificação

O elemento que permitiu associar o jardim a Calígula foi uma fistula plumbea, o tubo hidráulico de chumbo usado no abastecimento de água na Roma antiga. Segundo o ministério italiano, esses canos podiam trazer o nome do titular do fornecimento de água, o que os transforma em evidência direta de posse ou uso da propriedade.

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A inscrição encontrada na Piazza Pia trazia a forma abreviada de Gaius Caesar Augustus Germanicus, identificada oficialmente como referência a Calígula, filho de Germânico e Agripina Maior. Esse detalhe fez o achado sair do campo da hipótese genérica e entrar no terreno da atribuição histórica concreta.

A relevância do objeto está justamente no contraste entre aparência e valor histórico. Não foi uma estátua monumental nem uma inscrição de fachada que revelou o dono do espaço, mas um componente técnico da infraestrutura hidráulica, preservado no subsolo e capaz de ligar diretamente a área escavada ao imperador.

Horti de Agrippina e a sucessão imperial ajudam a explicar como o jardim chegou a Calígula

O ministério também destacou que escavações antigas feitas na mesma área, no começo do século XX, já haviam encontrado outros tubos de chumbo com o nome de Iulia Augusta, geralmente associada a Lívia Drusila, esposa de Augusto e avó de Germânico. Esse conjunto de evidências ajudou a reconstruir a possível linha de transmissão da propriedade dentro da família imperial.

Obras do Jubileu em Roma revelaram um jardim monumental ligado a Calígula na Piazza Pia, perto do Vaticano, identificado por um cano de chumbo.
Crédito: Divulgação/Ministério da Cultura italiano

A hipótese apresentada pelos arqueólogos é que a residência tenha passado primeiro para Germânico, depois para Agripina Maior e, por fim, para o filho do casal, Calígula. Isso reforça a leitura de que a área da Piazza Pia fazia parte dos chamados Horti de Agrippina, uma zona nobre da margem do Tibre ligada à dinastia júlio-claudiana.

Além da estrutura do jardim e da tubulação inscrita, a escavação também recuperou Lastre Campana, terracotas figuradas usadas em coberturas, com cenas mitológicas incomuns. Segundo o ministério, essas peças podem ter pertencido originalmente a alguma estrutura do próprio jardim, possivelmente ao pórtico.

Relato de Filon de Alexandria reforça a ligação entre o jardim do Tibre e uma cena histórica do século I

A identificação arqueológica ganhou ainda mais força por dialogar com uma fonte literária da Antiguidade. O Ministério da Cultura da Itália afirmou que a descoberta encontra paralelo em um trecho da Legatio ad Gaium, de Filon de Alexandria, que descreve Calígula recebendo uma delegação de judeus alexandrinos nos Horti de Agrippina, em um vasto jardim voltado para o Tibre e separado do rio por um porticado monumental.

A semelhança entre o texto antigo e os vestígios encontrados na Piazza Pia foi apontada como um dos principais argumentos para associar o local à cena descrita por Filon. O encontro entre relato literário e evidência material fortalece o valor da descoberta porque aproxima a arqueologia de um episódio histórico datável do século I d.C..

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Isso transforma o achado em algo maior do que um simples jardim escavado. A área passa a ser lida como um espaço de representação política e circulação de poder, ligado à presença de um imperador e a uma audiência diplomática registrada por uma testemunha da época.

Obras do Jubileu de 2025 mostram como Roma segue revelando camadas inéditas da cidade antiga

A descoberta ocorreu em um ponto especialmente sensível da capital italiana, onde grandes intervenções urbanas precisam conviver com um subsolo carregado de estruturas antigas.

A própria fullonica encontrada antes do jardim já havia demonstrado o potencial arqueológico do canteiro, e os restos dessa instalação devem ser preservados e exibidos na área próxima ao Castel Sant’Angelo.

Segundo o Wanted in Rome, a prefeitura de Roma sustentou à época que as descobertas não comprometeriam o cronograma da obra, prevista para ser concluída até dezembro de 2024 antes da abertura do Jubileu. O caso virou mais um exemplo de como projetos de infraestrutura em Roma frequentemente acabam se transformando também em frentes de pesquisa arqueológica.

No fim, o achado da Piazza Pia reforça uma característica central de Roma: o passado continua embutido na malha urbana e reaparece sempre que a cidade moderna avança alguns metros no subsolo. Desta vez, o que emergiu não foi apenas uma estrutura antiga, mas um pedaço concreto do ambiente imperial ligado a Calígula, ao Tibre e à topografia política da capital do império.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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