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A China acumulou até 1,4 bilhão de barris de petróleo em reservas estratégicas, investiu 25 anos em energia renovável e comprou 80% do petróleo iraniano barato: como Pequim se preparou durante décadas para a crise que agora sacode o mundo

Publicado em 29/03/2026 às 14:00
Atualizado em 29/03/2026 às 14:03
A China acumulou reservas estratégicas de petróleo e investiu em energia renovável por 25 anos. Com o Estreito de Ormuz fechado, Pequim resiste à crise.
A China acumulou reservas estratégicas de petróleo e investiu em energia renovável por 25 anos. Com o Estreito de Ormuz fechado, Pequim resiste à crise.
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A China se preparou durante décadas para o cenário que agora paralisa economias: acumulou reservas estratégicas de até 1,4 bilhão de barris de petróleo, investiu 25 anos em energia renovável, comprou mais de 80% das exportações iranianas a preço de desconto e reduziu a dependência do Estreito de Ormuz, enquanto países vizinhos já racionam combustível.

Enquanto Filipinas impõem semanas de trabalho de quatro dias para economizar combustível e a Indonésia tenta evitar o esgotamento de reservas que duram poucas semanas, a China enfrenta a mesma crise global de petróleo a partir de uma posição que nenhum outro grande importador conseguiu construir. O fechamento efetivo do Estreito de Ormuz por onde passam cerca de 20% do petróleo mundial, ou 20 milhões de barris por dia atingiu em cheio os países asiáticos que dependem das rotas do Golfo Pérsico. Mas Pequim parte de uma base que levou décadas para ser montada: reservas estratégicas colossais, energia renovável em expansão acelerada e fornecedores alternativos já garantidos.

A crise começou quando os Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã no final de fevereiro, e Teerã respondeu ameaçando atacar navios que cruzassem o estreito. Os preços do petróleo dispararam para perto de US$ 120 por barril. A China, como maior importador de petróleo do mundo, sente a pressão mas a diferença entre Pequim e seus vizinhos é que os chineses vinham se preparando para exatamente esse tipo de ruptura há pelo menos 25 anos. O que era planejamento estratégico agora virou vantagem concreta.

O que o fechamento do Estreito de Ormuz significa para o mundo

O Estreito de Ormuz é a rota marítima mais trafegada do planeta para transporte de petróleo. Segundo a Administração de Informações de Energia dos Estados Unidos (EIA), aproximadamente 20 milhões de barris passam por ali diariamente. Quando o Irã ameaçou responder aos ataques americanos e israelenses bloqueando essa passagem, o efeito foi imediato: as exportações de petróleo e gás do Oriente Médio foram interrompidas.

A escassez obrigou países de toda a Ásia a procurar fornecedores alternativos fora do Golfo Pérsico. Alguns começaram a recorrer às próprias reservas estratégicas. As Filipinas reduziram a semana de trabalho para quatro dias. A Indonésia busca formas desesperadas de esticar estoques que cobrem apenas algumas semanas. O Estreito de Ormuz sempre foi o ponto mais vulnerável da cadeia global de energia e agora essa vulnerabilidade se materializou.

Para a China, o impacto é real, mas não catastrófico. O país consome entre 15 e 16 milhões de barris por dia, segundo analistas de mercado consultados pela BBC. A Arábia Saudita e o Irã representam, cada um, mais de 10% das importações chinesas, e a maior parte desse petróleo chega pelo mar do Sul da China, atravessando exatamente as rotas que agora estão comprometidas.

As reservas estratégicas de petróleo que a China acumulou por décadas

A preparação mais visível da China para uma crise desse tipo são suas reservas estratégicas de petróleo. Pequim aproveitou anos de preços baixos e abundância de oferta para estocar volumes que impressionam. Segundo Ole Hansen, chefe de estratégias de matérias-primas do Saxo Bank, estimativas indicam que a China acumulou reservas de cerca de 900 milhões de barris — o equivalente a quase três meses de importação.

Números da Universidade Columbia, citados pela imprensa estatal chinesa, elevam esse total para até 1,4 bilhão de barris. Não se sabe ao certo o volume exato porque Pequim trata suas reservas estratégicas como informação sensível, mas o consenso entre analistas é de que o país construiu um “colchão substancial” para momentos de interrupção no fornecimento.

A estratégia de acumulação se intensificou nos últimos meses. Somente entre janeiro e fevereiro deste ano, a China comprou 16% mais petróleo do que no mesmo período do ano anterior, segundo a administração de alfândegas do país. Parte significativa dessas compras veio do Irã: diversos relatórios indicam que Pequim absorve mais de 80% das exportações iranianas de petróleo, aproveitando os descontos provocados pelas sanções americanas sobre Teerã.

Dados de rastreamento de navios coletados desde o início da guerra indicam que parte desse petróleo iraniano continua chegando à China. Segundo o grupo de análises comerciais Kpler, mais de 46 milhões de barris de petróleo iraniano estão armazenados em petroleiros ao longo do mar do Sul da China volume suficiente para cobrir o consumo de vários dias.

Por que a Rússia se tornou peça-chave na segurança energética da China

Enquanto o Estreito de Ormuz está bloqueado e as rotas do Golfo Pérsico comprometidas, a China conta com um fornecedor que não depende de nenhuma dessas passagens: a Rússia.

O petróleo russo representa cerca de 20% das importações chinesas e chega por oleodutos terrestres que atravessam a fronteira entre os dois países completamente imunes ao conflito no Oriente Médio.

Moscou se tornou o maior fornecedor individual de petróleo de Pequim, mesmo sob sanções impostas pelos Estados Unidos e pela Europa.

A relação é mutuamente conveniente: a Rússia precisa de compradores que ignorem as sanções ocidentais, e a China precisa de fontes de energia que não passem pelo Estreito de Ormuz. O resultado é uma parceria que se fortalece exatamente nos momentos de crise global.

O norte da China depende principalmente do petróleo extraído de campos domésticos e das importações russas por oleoduto. Já o sul do país, onde estão concentradas as grandes fábricas e os centros de transporte, depende mais do petróleo que chega por via marítima e é essa metade que sente o impacto direto do bloqueio no Golfo. Mas a diversificação de fontes garante que o país não fique paralisado como seus vizinhos.

A aposta de 25 anos em energia renovável que agora protege a China

A preparação da China para crises energéticas não se resume a estocar petróleo. Há 25 anos, Pequim começou a investir pesadamente em energia renovável eólica, solar, nuclear e hidroelétrica. O resultado é que mais da metade da capacidade instalada de geração de eletricidade na China já vem de fontes limpas, segundo estimativas recentes.

O Escritório Nacional de Estatísticas de Pequim indica que essas fontes geraram mais de um terço da eletricidade chinesa em 2025, e a proporção continuou crescendo desde então.

O petróleo representou apenas cerca de 20% do consumo total de energia do país em 2024, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE) um número significativamente menor do que na Europa ou nos Estados Unidos. E a demanda por petróleo na China dificilmente voltará a crescer, segundo a própria agência.

O pesquisador em economia energética Roger Fouquet destaca que a transição chinesa para energia renovável não tem motivação apenas ambiental. “De certa forma, a China teve a sorte de ter iniciado seus investimentos em energia renovável 25 anos atrás”, explica.

“E, agora, está colhendo os frutos.” Essa antecipação criou uma blindagem parcial contra choques de preço no mercado de petróleo algo que poucos países conseguiram replicar.

Os veículos elétricos como escudo contra a crise do petróleo

Pelo menos um terço dos automóveis novos vendidos na China são elétricos. Esse dado, por si só, já indica o quanto o país reduziu sua dependência do petróleo no setor de transportes.

Segundo Roc Shi, da Universidade de Tecnologia de Sydney, “o proprietário de um veículo elétrico em Pequim simplesmente não sente o impacto na bomba de combustível quando aumenta a tensão no Oriente Médio”.

Para quem dirige um carro elétrico na China, os custos de mobilidade não estão mais atrelados aos mercados internacionais de petróleo. Isso cria uma camada de proteção econômica que não existia há uma década e que é resultado direto dos incentivos governamentais à eletrificação da frota.

Mas a proteção não é total. Os custos de carregamento podem subir durante uma crise energética se os preços dos combustíveis fósseis aumentarem já que parte da eletricidade chinesa ainda vem de fontes térmicas.

Na semana passada, os preços da gasolina subiram 695 yuanes por tonelada (cerca de US$ 100) e os do diesel, 670 yuanes (cerca de US$ 97), segundo o China Daily. O petróleo mais caro também encarece a indústria petroquímica do país, que produz plásticos, fertilizantes e outros insumos essenciais.

A China está protegida, mas não é imune

A combinação de reservas estratégicas de petróleo, energia renovável em escala, fornecimento russo por oleoduto e eletrificação do transporte coloca a China em posição muito mais confortável do que qualquer outro grande importador asiático.

Mas “mais confortável” não significa invulnerável. O carvão ainda é a principal fonte de geração de eletricidade no país, o petróleo alimenta boa parte da indústria e do transporte pesado, e os preços internacionais afetam toda a cadeia produtiva.

A China, como maior importador de energia do mundo, vai pagar mais caro por barril enquanto a guerra no Irã durar.

“Não terá outra opção a não ser assumir esse custo adicional”, afirma Roc Shi. Existem relatos de que Pequim já ordenou que refinarias suspendessem temporariamente a exportação de combustíveis para conter os preços internos uma medida que confirma que, apesar da preparação, a pressão é real.

O que diferencia a China não é a ausência de impacto, mas a profundidade da preparação. Décadas de planejamento estratégico, diversificação de fornecedores, acúmulo de reservas estratégicas e investimento em energia renovável construíram uma resiliência que agora está sendo testada e que, até o momento, está funcionando melhor do que a de qualquer outro país na mesma situação.

Com informações do portal do G1.

Na sua opinião, a estratégia da China de se preparar por décadas para uma crise energética deveria ser copiada por outros países? O Brasil, com sua matriz renovável, está em posição semelhante ou muito diferente? Deixe sua análise nos comentários esse debate sobre energia e geopolítica precisa da sua perspectiva.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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