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A Austrália importou 101 sapos do Havaí para salvar a cana-de-açúcar de uma praga em 1935, nunca testou se funcionaria e criou o maior desastre com espécie invasora da história do país: 90 anos depois, o governo ainda não consegue conter os 200 milhões de sapos-cururus que avançam cerca de 50 km por ano pelo continente

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 09/03/2026 às 11:12
Assista o vídeoA Austrália importou 101 sapos do Havaí para salvar a cana-de-açúcar de uma praga em 1935, nunca testou se funcionaria e criou o maior desastre com espécie invasora da história do país: 90 anos depois, o governo ainda não consegue conter os 200 milhões de sapos-cururus que avançam cerca de 50 km por ano pelo continente
A Austrália importou 101 sapos do Havaí para salvar a cana-de-açúcar de uma praga em 1935, nunca testou se funcionaria e criou o maior desastre com espécie invasora da história do país: 90 anos depois, o governo ainda não consegue conter os 200 milhões de sapos-cururus que avançam cerca de 50 km por ano pelo continente
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Introduzido em 1935 para combater pragas da cana, o sapo-cururu virou desastre ecológico na Austrália: hoje são mais de 200 milhões avançando até 60 km por ano.

Em junho de 1935, o entomologista Reginald Mungomery desembarcou no porto de Gordonvale, no norte do estado australiano de Queensland, trazendo consigo uma caixa contendo 102 sapos vivos capturados no Havaí. Durante a viagem, um dos animais morreu, restando 101 sapos vivos que seriam utilizados em um experimento agrícola que pretendia resolver um problema persistente da indústria da cana-de-açúcar australiana. Os sapos foram colocados inicialmente em um cercado experimental próximo à região de Gordonvale. Em poucas semanas, os animais começaram a se reproduzir rapidamente. Em agosto daquele mesmo ano, cerca de 2.400 sapos-cururus já haviam sido liberados nos canaviais próximos à cidade de Cairns, no norte de Queensland.

A iniciativa parecia promissora na época. Entretanto, aquela decisão acabaria desencadeando um dos maiores desastres ambientais da história moderna da Austrália.

A praga dos besouros da cana ameaçava a indústria açucareira australiana

Antes da introdução do sapo-cururu, a indústria da cana-de-açúcar em Queensland enfrentava um problema persistente desde o final do século XIX: a infestação de besouros-da-cana. Esses insetos causavam danos significativos às plantações. Suas larvas se alimentavam das raízes da cana-de-açúcar, comprometendo o crescimento das plantas muito antes que qualquer dano fosse visível na superfície do solo.

Para tentar resolver o problema, o governo estadual criou em 1900 o Bureau of Sugar Experiment Stations (BSES), uma instituição dedicada à pesquisa agrícola voltada para a produção de açúcar. Durante mais de duas décadas, cientistas e agrônomos investigaram diversas estratégias de controle da praga.

Entre as soluções testadas estavam:

  • fungos parasitas capazes de atacar os besouros
  • inseticidas experimentais
  • métodos de cultivo alternativos
  • remoção manual de larvas

Nenhuma dessas estratégias apresentou resultados suficientemente eficazes para eliminar o problema.

A ideia de usar sapos como controle biológico veio de experiências no Caribe

Em 1932, o pesquisador Arthur Bell participou de um congresso científico em Porto Rico e voltou à Austrália com uma ideia que parecia revolucionária. Naquela época, relatos vindos do Caribe indicavam que o sapo-cururu americano estava sendo utilizado com aparente sucesso para controlar besouros em plantações de cana-de-açúcar.

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Experimentos semelhantes também haviam sido realizados no Havaí e nas Filipinas. A lógica parecia simples: um anfíbio grande, resistente e extremamente voraz poderia consumir grandes quantidades de insetos, reduzindo a população da praga sem necessidade de pesticidas químicos.

O plano parecia oferecer uma solução natural e econômica.

Assim, Reginald Mungomery viajou até o Havaí, capturou os animais e os transportou até Queensland.

O detalhe crucial que ninguém verificou antes da liberação dos sapos era se os besouros-da-cana australianos realmente teriam contato com esses predadores.

Por que o controle biológico com sapos-cururus nunca poderia ter funcionado

A razão pela qual o plano falhou estava na biologia das espécies envolvidas. Os besouros-da-cana encontrados em Queensland não eram os mesmos observados no Caribe.

As principais espécies que atacavam as plantações australianas eram:

  • greyback cane beetle
  • French’s cane beetle

Esses insetos possuíam comportamentos muito diferentes dos besouros encontrados em Porto Rico. O greyback cane beetle raramente descia ao solo, permanecendo na parte superior das plantas de cana-de-açúcar. Já o French’s cane beetle era ativo principalmente durante a noite.

O sapo-cururu, por sua vez, é um predador terrestre que caça no chão e geralmente se alimenta durante períodos mais quentes do dia.

Isso significa que os sapos praticamente nunca encontravam os besouros que deveriam controlar. Mesmo assim, nenhum estudo ecológico aprofundado foi realizado antes da liberação em larga escala.

Em dezembro de 1935, o Commonwealth Department of Health tentou impedir novas liberações de sapos. Porém, a pressão política da indústria açucareira e do próprio Bureau of Sugar Experiment Stations levou à derrubada do veto em 1936.

Em março de 1937, mais de 62.000 girinos já haviam sido criados em cativeiro e liberados no ambiente.

De 101 sapos para mais de 200 milhões: a expansão explosiva da espécie invasora

O sapo-cururu encontrou na Austrália condições ideais para se multiplicar. Ao contrário de seu habitat original, o animal não possuía predadores naturais no continente australiano. Além disso, o sapo possui uma estratégia reprodutiva extremamente eficiente. Cada fêmea pode colocar entre 8.000 e 30.000 ovos em uma única desova, podendo se reproduzir duas vezes por ano.

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Para comparação, muitas espécies de rãs nativas australianas produzem cerca de 2.000 ovos por ano.

Os girinos eclodem em apenas 48 a 72 horas, e em climas tropicais os filhotes podem atingir a fase adulta em menos de um ano. Com essa capacidade reprodutiva extraordinária, a população de sapos-cururus explodiu rapidamente em todo o norte da Austrália.

Até 1959, os animais já haviam colonizado grande parte da costa leste de Queensland.

  • Em 1964 chegaram ao Golfo de Carpentária.
  • Em 1978 atingiram a fronteira com New South Wales.
  • Em 1984 avançaram até o Território do Norte.
  • Em 2001 chegaram ao Parque Nacional Kakadu, patrimônio mundial da UNESCO.
  • Em 2009 alcançaram a fronteira da Austrália Ocidental.

Hoje, estimativas indicam que existem mais de 200 milhões de sapos-cururus espalhados pelo continente, avançando cerca de 40 a 60 quilômetros por ano rumo ao oeste.

O veneno do sapo-cururu devastou predadores nativos da Austrália

O principal impacto ecológico do sapo-cururu não está na competição por alimento, mas no seu poderoso veneno. O animal produz uma substância tóxica chamada bufotoxina, secretada pelas glândulas parotoides localizadas atrás da cabeça.

Esse veneno está presente em todas as fases da vida do animal:

  • ovos
  • girinos
  • filhotes
  • adultos

Predadores que tentam comer o sapo ingerem compostos chamados bufadienolídeos, que afetam diretamente o sistema cardiovascular.

A intoxicação pode provocar arritmias, paralisia e morte em poucos minutos. A fauna australiana jamais havia encontrado esse tipo de toxina antes da introdução da espécie. Como resultado, diversas populações de predadores sofreram colapsos dramáticos.

O quoll-do-norte, um marsupial carnívoro semelhante a um pequeno gato selvagem, perdeu mais de 90% de sua população em regiões invadidas pelos sapos-cururus. Lagartos varanídeos, cobras nativas e monitores-de-manchas-amarelas também registraram quedas populacionais entre 50% e 90% após a chegada dos sapos.

Em algumas áreas do Território do Norte, crocodilos de água doce morreram em massa após ingerirem sapos-cururus.

Cascatas ecológicas alteraram o equilíbrio de vários ecossistemas

A morte de predadores importantes provocou efeitos em cadeia nos ecossistemas. No Parque Nacional Kakadu, por exemplo, a redução da população de monitores-de-manchas-amarelas — que predam ninhos de répteis — resultou no aumento da sobrevivência de ovos de jacarés e tartarugas.

Esse fenômeno é conhecido como cascata trófica, quando a remoção de um predador altera todo o equilíbrio ecológico de um ambiente.

Após 90 anos, a Austrália ainda não encontrou solução para o sapo-cururu

Em 2010, o governo australiano reconheceu oficialmente a gravidade da situação. Autoridades ambientais declararam que é improvável que um método de controle em larga escala para os sapos-cururus esteja disponível no futuro próximo. Diversas estratégias foram testadas ao longo das últimas décadas.

Entre elas:

  • cercas de exclusão em áreas protegidas
  • armadilhas com feromônios
  • programas de treinamento de predadores para evitar os sapos

Uma das estratégias mais promissoras envolve a chamada aversão condicionada. Pesquisadores da Universidade de Sydney desenvolveram iscas contendo pequenos fragmentos de sapo misturados com substâncias que provocam náusea em predadores.

A ideia é ensinar animais nativos a associar o sapo-cururu a uma experiência negativa. Os resultados foram limitados. Algumas espécies de crocodilos e lagartos aprenderam a evitar os sapos, mas o método não funcionou com quolls. Em 2023, pesquisadores encontraram em Queensland um sapo de 25 centímetros e 2,7 quilos, apelidado de “Toadzilla”, possivelmente o maior já registrado.

O animal foi preservado no museu estadual como símbolo da escala que a invasão atingiu.

A introdução do sapo-cururu não trouxe benefícios para a produção de cana-de-açúcar

Apesar da justificativa inicial, estudos posteriores mostraram que a introdução do sapo-cururu não aumentou a produtividade da cana-de-açúcar.

Pesquisas conduzidas pelo ecólogo Richard Shine, da Universidade de Sydney, demonstraram que os sapos não apenas falharam em controlar os besouros-da-cana, como também criaram novos problemas. Os sapos se alimentam de formigas que naturalmente controlam as larvas dos besouros.

Além disso, o veneno matou lagartos varanídeos que também predavam os insetos responsáveis pelos danos às plantações. O resultado foi exatamente o oposto do esperado: a introdução do sapo-cururu acabou agravando o desequilíbrio ecológico nas plantações de cana.

Mais de 90 anos após a chegada dos primeiros 101 sapos ao porto de Gordonvale, a Austrália ainda convive com os descendentes dessa introdução mal planejada.

Hoje, a prioridade dos cientistas não é mais erradicar a espécie — algo considerado praticamente impossível, mas desenvolver estratégias que permitam que a fauna nativa sobreviva à presença permanente de um invasor que chegou ao continente por decisão humana e acabou se espalhando por milhões de quilômetros quadrados.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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