Segunda a Revista Fórum, o governo Milei enfrenta dados que contradizem o discurso da Casa Rosada: a Argentina registrou o maior volume de remessas de lucros ao exterior em mais de 15 anos, o investimento estrangeiro direto fechou o quarto trimestre de 2025 com saldo negativo de US$ 4,687 bilhões e a taxa de reinvestimento por empresas estrangeiras despencou para apenas 17%.
A Argentina vive um paradoxo econômico difícil de ignorar. O governo de Javier Milei prometeu uma avalanche de dólares como resultado da liberalização cambial e do programa de incentivos RIGI, mas os dados oficiais do Banco Central argentino mostram exatamente o oposto. Em março, as remessas de lucros de empresas estrangeiras para suas matrizes no exterior atingiram US$ 876 milhões, o nível mais alto em mais de 15 anos. Em vez de atrair capital, a Argentina está exportando os recursos que já tinha.
O cenário se completa com o Relatório de Investimento Estrangeiro Direto referente ao quarto trimestre de 2025, que registrou um saldo negativo histórico. A Argentina teve uma saída líquida de US$ 4,687 bilhões em investimento estrangeiro direto, um rombo impulsionado principalmente pelo pagamento de dívidas comerciais do setor de exportação agrícola com matrizes no exterior. O resultado transforma em letra morta o discurso oficial de que o país estaria se tornando um destino confiável para investidores internacionais.
US$ 876 milhões em um único mês: o recorde que ninguém celebra
O volume de remessas de lucros ao exterior registrado em março de 2026 não é apenas um número alto. É o maior em mais de 15 anos, um recorde que evidencia uma decisão clara das empresas estrangeiras instaladas na Argentina: retirar recursos do país em vez de reinvestir na economia local. Quando uma empresa multinacional remete lucros para sua matriz, ela está sinalizando que não enxerga oportunidades suficientes para aplicar esse dinheiro no país onde ele foi gerado.
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A liberalização cambial promovida pelo governo Milei facilitou tecnicamente essas remessas, removendo barreiras que em governos anteriores dificultavam a saída de dólares. O resultado prático é que a política pensada para atrair investidores acabou funcionando como porta de saída para os capitais que já estavam no país. Para a economia real da Argentina, cada dólar remetido ao exterior é um dólar que deixou de financiar expansão de fábricas, contratação de funcionários ou desenvolvimento de novos projetos em solo argentino.
Investimento estrangeiro negativo: o que significa na prática
Um saldo negativo de investimento estrangeiro direto significa que saiu mais capital estrangeiro da Argentina do que entrou. Os US$ 4,687 bilhões de saída líquida registrados no quarto trimestre de 2025 representam um rombo histórico, agravado pelo fato de que o déficit foi puxado por pagamentos de dívidas comerciais do setor agroexportador, um dos pilares da economia argentina. Na prática, empresas ligadas à exportação de grãos e derivados quitaram obrigações com suas matrizes no exterior, drenando dólares que poderiam circular internamente.
A taxa de reinvestimento de lucros por empresas estrangeiras na Argentina caiu para apenas 17%, uma das mais baixas registradas nos últimos anos. Isso quer dizer que de cada cem dólares de lucro gerado por uma multinacional no país, apenas 17 ficaram na Argentina. Os outros 83 foram remetidos para fora. Em economias saudáveis, essa taxa costuma ser significativamente mais alta, refletindo confiança dos investidores no ambiente de negócios e nas perspectivas de crescimento do mercado local.
O programa RIGI e a avalanche que não veio
O governo Milei criou o programa RIGI (Regime de Incentivo a Grandes Investimentos) como peça central de sua estratégia para atrair capital estrangeiro à Argentina. O programa oferece benefícios fiscais e regulatórios extraordinários para projetos de grande porte, especialmente em setores como mineração, petróleo e gás. Na narrativa oficial, o RIGI seria o gatilho para uma onda de investimentos bilionários que transformaria a economia do país.
Os dados, porém, mostram que a prometida avalanche de dólares não se concretizou. Enquanto o governo celebra a aprovação de projetos no papel, os números do Banco Central revelam que o dinheiro novo simplesmente não está chegando. Economistas argentinos apontam que existe um abismo entre aprovar projetos em gabinete e ver recursos efetivamente desembarcando em fábricas, minas e plataformas. O próprio governo já anunciou que prepara uma nova versão do programa, um reconhecimento implícito de que a primeira edição não entregou os resultados esperados.
Extrativismo e intermediários financeiros: a qualidade do pouco que entra
Além do volume insuficiente, a qualidade dos poucos investimentos que ainda entram na Argentina levanta questionamentos. Os aportes de capital registrados no final de 2025 vieram majoritariamente de intermediários financeiros, um setor que tem baixo impacto na geração de empregos e no desenvolvimento produtivo. Em outras palavras, o dinheiro que entra não vai para fábricas, infraestrutura ou projetos que criem postos de trabalho para a população.
Os setores que efetivamente recebem investimento estrangeiro na Argentina sob o governo Milei são predominantemente extrativistas, concentrados em mineração e petróleo. Economistas como Martín Burgos alertam que esse modelo configura um esquema onde os incentivos estatais financiam a extração de recursos naturais por empresas estrangeiras que depois remetem os lucros para fora do país. O cálculo feito por Burgos, conforme reportagem do jornal Pagina12, revela que a diferença acumulada entre o investimento estrangeiro direto recebido pela Argentina desde 2003 e a remessa de lucros e dividendos no mesmo período é de apenas 6 bilhões de dólares, um saldo magro para mais de duas décadas.
O abismo entre o discurso e os números
A contradição entre a narrativa do governo Milei e os dados oficiais do Banco Central da Argentina é o elemento mais revelador desse cenário. De um lado, a Casa Rosada celebra acordos, anuncia projetos bilionários e promete que a abertura econômica transformará o país em polo de investimento global. Do outro, os números mostram recorde de saída de dólares, investimento estrangeiro negativo e uma taxa de reinvestimento que indica desconfiança estrutural por parte das empresas que já operam no país.
Para a população argentina, as consequências dessa desconexão são concretas. Menos investimento estrangeiro produtivo significa menos fábricas, menos empregos industriais e menos receita tributária para financiar serviços públicos. A fuga de dólares pressiona o câmbio e pode corroer o poder de compra dos salários. E a concentração dos poucos aportes em setores extrativistas e financeiros reforça um modelo econômico que historicamente gerou riqueza para poucos sem distribuir benefícios para a maioria.
Dados que falam mais alto que promessas
A Argentina sob o governo Milei apresenta hoje um quadro onde os indicadores de investimento estrangeiro apontam na direção contrária ao discurso oficial. US$ 876 milhões em remessas de lucros em um único mês, saldo negativo de US$ 4,687 bilhões em investimento direto e taxa de reinvestimento de 17% compõem um retrato que nenhuma retórica consegue maquiar. Os dados são do próprio Banco Central argentino, não de opositores ou analistas independentes.
O que você acha do cenário econômico da Argentina sob Milei? Deixe nos comentários a sua análise sobre esses números e se acredita que a estratégia de liberalização cambial e incentivos a grandes investimentos pode se reverter em resultados concretos ou se a tendência de fuga de capitais veio para ficar. Queremos ouvir a sua opinião.

Miley enganou os argentinos e beneficiou os estrangeiros. O pobre argentino não tem condições de se Nantes. Estão passando fome.
Argentina não e para amadores…
A população jamais poderá deixar de ser criteriosa nas escolhas de seus políticos.
Conhecer e avaliar profundamente as ideias e “laços” dos pretensos políticos excluiria oportunistas, pseudos populistas.