O equipamento foi instalado em um dos lugares mais secos do planeta e funcionou por mais de um ano, com produção entre 57 e 161 mililitros por dia. Por trás da ideia está uma família de materiais ultraporosos premiada em outubro, capaz de capturar moléculas de água com umidade do ar abaixo de 10 por cento.
Um dispositivo do tamanho de uma janela, sem eletricidade nem filtros, conseguiu extrair água potável do ar seco do Vale da Morte, nos Estados Unidos, usando apenas luz solar. O resultado vem de um estudo do Massachusetts Institute of Technology, o MIT, publicado em junho de 2025 na revista Nature Water, e dá novo impulso a uma família de tecnologias coroada poucos meses depois com o Nobel de Química de 2025.
O experimento foi liderado pelo professor Xuanhe Zhao, do Departamento de Engenharia Mecânica do MIT. Em um ambiente em que a umidade relativa do ar variou entre 21% e 88%, o aparelho produziu entre 57 e 161 mililitros de água por dia, em quantidade compatível com os padrões de potabilidade da Organização Mundial da Saúde. Para efeito de comparação, geradores comerciais de água atmosférica costumam exigir compressores, alto consumo elétrico e umidade do ar acima de 40% para operarem com eficiência.
Como o dispositivo do MIT funciona

Esse hidrogel é dobrado em padrão de origami para multiplicar sua área de contato com o ar, montado entre placas de vidro que funcionam como uma espécie de destilador solar passivo, sem qualquer parte móvel.
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O ciclo de operação é simples e se repete a cada 24 horas. Durante a noite, o hidrogel absorve vapor de água do ar. Durante o dia, o sol esquenta o conjunto através do vidro, fazendo a água armazenada evaporar, condensar nas superfícies internas e escorrer para um recipiente coletor. Não há bombas, ventiladores nem compressores envolvidos, o que reduz o consumo de energia a praticamente zero e abre caminho para aplicações em regiões remotas ou sem rede elétrica.
O Nobel de 2025 que entrou na conversa
A pesquisa do MIT ganhou eco adicional em 8 de outubro de 2025, quando a Real Academia Sueca de Ciências anunciou que o Nobel de Química seria entregue a três cientistas que abriram caminho para esse tipo de aplicação. Foram premiados Susumu Kitagawa, da Universidade de Kyoto, Richard Robson, da Universidade de Melbourne, e Omar Yaghi, da Universidade da Califórnia em Berkeley, pelo desenvolvimento das chamadas estruturas metal-orgânicas, conhecidas pela sigla MOF, do inglês metal-organic frameworks.
As MOFs são materiais cristalinos ultraporosos, formados pela combinação de íons metálicos e moléculas orgânicas, capazes de armazenar gases, capturar dióxido de carbono, separar poluentes da água e, entre outras coisas, colher umidade direto do ar do deserto. Yaghi, em particular, vem desenvolvendo uma versão chamada MOF-303, capaz de absorver vapor de água em condições de umidade abaixo de 10%, e fundou a startup Atoco para tentar levar a tecnologia à escala comercial, com a meta de gerar dezenas de milhares de litros por dia.
Uma ideia muito mais antiga do que parece
Apesar do brilho recente, o princípio de capturar água do ar não é novo. Existem registros e tentativas que atravessam séculos. Em 1900, na Crimeia, o engenheiro florestal Friedrich Zibold encontrou grandes montes de pedras nas ruínas da antiga colônia grega de Teodósia e os interpretou como condensadores atmosféricos da Antiguidade, com mais de dois milênios de história. Estudos posteriores indicaram, porém, que aquelas estruturas eram, na verdade, túmulos funerários, e não sistemas de condensação.
Ainda assim, a ideia inspirou novas tentativas. Em 1931, o engenheiro belga Achille Knapen construiu uma torre de condensação em forma de sino em Trans-en-Provence, no sul da França, com cerca de 14 metros de altura. A estrutura, monumental, produziu na prática poucos litros por dia, mostrando que faltava ciência de materiais para tornar o princípio realmente útil. Foi somente na segunda metade do século 20 que os colhedores de neblina, depois os hidrogéis e finalmente as MOFs começaram a transformar a velha ideia em tecnologia viável.
O caminho dos coletores de neblina
Um marco importante dessa trajetória foi o trabalho do cientista atmosférico canadense Robert Schemenauer, que, em 1987, instalou os primeiros coletores de neblina modernos em El Tofo, no Chile, na borda do deserto do Atacama. A técnica usa redes verticais finas que interceptam as gotículas trazidas pelo vento, que se acumulam e escorrem para calhas. Em 1992, a vila chilena de Chungungo passou a operar uma estação com cerca de cem coletores que produziu, em média, 15 mil litros de água por ano durante uma década.
Em 2000, Schemenauer cofundou a organização FogQuest, que ampliou a implantação dessa tecnologia em países como Chile, Peru, Marrocos e Etiópia. Em Marrocos, um único coletor de 30 metros quadrados costuma atender as necessidades básicas de cerca de 400 pessoas, ao custo aproximado de mil dólares por unidade. Os números mostram que, em locais com nevoeiro regular, a tecnologia já é uma realidade barata e testada, embora dependa muito do regime climático local.
Por que ainda não vemos esses sistemas em larga escala
Apesar dos avanços, é importante separar entusiasmo de realidade quando se fala em colher água do ar. Os dispositivos baseados em hidrogéis e MOFs ainda estão em fase de testes em campo, com produção diária medida em centenas de mililitros ou poucos litros por quilograma de material. Para abastecer cidades, seria preciso escalonar essas tecnologias em milhares de módulos, com custos de produção, manutenção e durabilidade que ainda estão em estudo.
Também não é correto enquadrar o tema como uma tecnologia “escondida pelo mercado”. Universidades de ponta, governos como o da Arábia Saudita e startups financiadas por capital de risco vêm investindo nessas frentes. O Nobel de 2025, aliás, ajuda a consolidar essas pesquisas como prioridade global, e a Atoco, de Yaghi, é um exemplo concreto de empresa tentando levar a tecnologia ao mercado. O obstáculo principal está em ciência, engenharia e custo, não em alguma suposta conspiração para manter as pessoas dependentes de redes de abastecimento.
Por que essa pauta importa para o leitor do CPG
Para quem acompanha petróleo, gás, infraestrutura e meio ambiente, esse tipo de avanço tem várias camadas. A primeira é a segurança hídrica, num planeta em que cerca de 2,2 bilhões de pessoas ainda não têm acesso confiável a água potável segundo a Organização das Nações Unidas, num cenário agravado por eventos climáticos extremos. Para o Brasil, marcado por enchentes históricas no Sul e por secas prolongadas no Nordeste e em outras regiões, qualquer ganho em tecnologias alternativas de abastecimento é estratégico.
A segunda camada é o vínculo com o debate climático. As MOFs, mesma família de materiais por trás da colheita de água, também aparecem em pesquisas de captura de carbono direto do ar, armazenamento de hidrogênio e separação de gases industriais, todos temas centrais da transição energética. Acompanhar a evolução desses materiais é, portanto, acompanhar parte do futuro do setor de energia, de mineração e de petróleo e gás, que cada vez mais terá de operar dentro de metas de descarbonização.
O que esperar dos próximos anos
O cenário mais provável para o curto prazo é o uso desses sistemas em nichos específicos: comunidades isoladas, operações militares, postos avançados em áreas desérticas, missões humanitárias e até turismo de aventura. A escala comercial massiva, com painéis em telhados residenciais ou estações de tratamento alimentadas pela atmosfera, ainda depende de avanços em durabilidade dos materiais, produção em larga escala e queda de custo.
Existem ainda iniciativas de baixo custo que envolvem hidrogéis simples ou coletores de neblina caseiros, comentadas em revistas de divulgação e canais de ciência. É importante encarar essas variantes como prova de conceito interessante, e não como receita doméstica de aplicação imediata. Reproduzir misturas químicas em casa, sem orientação técnica adequada, pode envolver riscos de segurança e não garante a qualidade da água obtida, que deveria sempre passar por análises laboratoriais antes do consumo.
O experimento do MIT no Vale da Morte e o Nobel de Química de 2025 marcam um momento em que a velha ideia de capturar água do ar finalmente começa a ter respaldo científico de alto nível e potencial real de aplicação. Não se trata de uma solução mágica para a crise hídrica mundial, mas de uma peça promissora dentro de um quebra-cabeça maior, ao lado de saneamento básico, gestão de aquíferos, dessalinização e combate ao desperdício. A próxima década dirá se essas tecnologias deixarão o laboratório para chegar de fato à torneira de quem mais precisa.
E você, acredita que dispositivos passivos como o do MIT podem mesmo se tornar uma alternativa real para regiões com escassez de água potável? Vê esse tipo de tecnologia chegando ao Brasil em quantos anos? Deixe seu comentário, conte se já tinha ouvido falar das estruturas metal-orgânicas e compartilhe a matéria com quem se interessa por ciência, energia e o futuro da água no planeta.


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