Conferência internacional realizada no Brasil reuniu pesquisadores de quase 50 países para discutir câncer, publicidade, impostos e os impactos bilionários do consumo de bebidas alcoólicas na saúde pública mundial
O consumo de álcool continua profundamente normalizado em boa parte do mundo, mas especialistas em saúde pública alertam que os danos provocados pela bebida são muito maiores do que a maioria das pessoas imagina. Embora o cigarro seja amplamente reconhecido como um dos maiores vilões da saúde, o álcool ainda enfrenta uma percepção mais branda da população, mesmo sendo classificado como carcinogênico e associado a milhões de mortes anuais.
A informação foi divulgada por “Veja Saúde”, com base nos debates apresentados durante a oitava edição da Global Alcohol Policy Conference (GAPC), realizada no Rio de Janeiro. O evento reuniu mais de 400 pesquisadores, ativistas e gestores públicos de quase 50 países para discutir estratégias globais de combate aos impactos do álcool na saúde pública.
Segundo Laura Cury, coordenadora do Projeto Álcool da ACT Promoção da Saúde, o álcool ainda é tratado de maneira muito permissiva socialmente. Para ela, o produto segue sendo um fator de risco negligenciado, apesar do peso gigantesco que representa para os sistemas de saúde e para a economia mundial.
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Além disso, os especialistas destacaram que o consumo de bebidas alcoólicas está relacionado não apenas a doenças hepáticas, mas também a câncer, transtornos mentais, acidentes, violência e perda de produtividade econômica. O cenário preocupa ainda mais diante da expectativa de aumento do consumo per capita até 2030.
Álcool já é considerado carcinogênico e provoca mais de 700 mil casos de câncer por ano
Um dos pontos centrais da conferência foi o elo direto entre álcool e câncer. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc) já classifica a substância no mesmo grupo de carcinógenos do cigarro e do amianto.
Mesmo assim, políticas públicas preventivas continuam tímidas em muitos países. Atualmente, o álcool está ligado a mais de 700 mil casos anuais de câncer no mundo. No Brasil, os custos relacionados apenas aos tratamentos oncológicos provocados pelo consumo da bebida devem atingir cerca de R$ 4 bilhões até 2030.
Os pesquisadores explicam que o álcool aumenta os riscos de câncer por diversos mecanismos biológicos. Ainda assim, a percepção pública sobre o tema permanece distante da gravidade apresentada pelos estudos científicos.
Outro debate importante girou em torno dos chamados “determinantes comerciais da saúde”. Esse conceito analisa como determinados setores econômicos impactam diretamente a saúde da população. Nesse cenário, o álcool aparece ao lado do cigarro, da indústria alimentícia ultraprocessada e dos combustíveis fósseis como responsável por mais de 30% das mortes globais.
Além disso, especialistas defendem que as embalagens das bebidas alcoólicas passem a exibir alertas mais explícitos sobre os riscos à saúde, incluindo mensagens relacionadas ao câncer, seguindo modelo semelhante ao adotado nos cigarros.
Taxação, publicidade digital e crescimento do consumo entre mulheres preocupam especialistas
Outro tema que ganhou força na conferência foi a taxação das bebidas alcoólicas. De acordo com os pesquisadores, aumentar o preço do álcool é uma das estratégias mais eficientes para reduzir o consumo excessivo.
No Brasil, a reforma tributária já incluiu as bebidas alcoólicas no chamado imposto seletivo, destinado a produtos considerados prejudiciais à saúde. No entanto, ainda falta definir qual será a alíquota aplicada.
Os custos econômicos do álcool também chamaram atenção durante o evento. Um estudo apresentado no GAPC mostrou que o consumo excessivo gera despesas bilionárias ao país, incluindo gastos do SUS, tratamentos médicos e perda de produtividade causada por mortes precoces.
Segundo Eduardo Nilson, pesquisador da Fiocruz, os números atuais ainda podem estar subestimados. Ele ressalta que a cerveja, muitas vezes vista como uma bebida “menos perigosa”, representa hoje um dos maiores desafios de saúde pública relacionados ao álcool.
Enquanto isso, a publicidade digital aparece como outro problema crescente. A legislação brasileira sobre propaganda de bebidas alcoólicas possui cerca de 30 anos e não acompanha a agressividade dos algoritmos das redes sociais, que conseguem direcionar conteúdos personalizados para públicos específicos.
Os pesquisadores também demonstraram preocupação com o aumento do consumo entre mulheres. Segundo Natana Magalhães, da ONG Alcoolismo Brasil, muitas mulheres recorrem ao álcool como forma de aliviar sobrecarga emocional e mental. O cenário é ainda mais delicado entre mulheres negras, consideradas grupo de maior vulnerabilidade.
Consumo global deve continuar crescendo até 2030 apesar das campanhas de conscientização
Embora parte das gerações mais jovens esteja consumindo menos álcool em países ricos, os estudos apresentados no congresso indicam que o consumo mundial per capita deve continuar crescendo até pelo menos 2030, especialmente em países em desenvolvimento.
Dados publicados pela revista científica The Lancet apontam que jovens dessas regiões estão bebendo com mais frequência e em maiores quantidades por ocasião.
Outro debate importante envolveu a chamada cerveja zero álcool. Especialistas reconhecem que ela pode representar uma alternativa menos nociva, mas alertam para um problema de marketing: como as embalagens geralmente são praticamente idênticas às versões alcoólicas, elas acabam fortalecendo visualmente as marcas e ajudando a normalizar o consumo.
Os números apresentados no evento reforçam o tamanho da crise global causada pelo álcool:
- 12 mortes acontecem por hora no Brasil devido ao álcool;
- 3 milhões de pessoas morrem por ano no mundo em decorrência do abuso da bebida;
- 10% da população brasileira convive com transtornos relacionados ao álcool;
- Apenas 30% dessas pessoas receberam algum tipo de tratamento.
Diante desse cenário, pesquisadores defendem medidas mais duras, campanhas educativas e políticas públicas mais modernas para reduzir o impacto do álcool sobre a saúde coletiva.
No fim das contas, o debate levantado pelos especialistas vai muito além do simples consumo recreativo. A discussão envolve saúde pública, economia, regulação e até o modo como a sociedade enxerga culturalmente as bebidas alcoólicas.
E você, acredita que o álcool deveria receber alertas semelhantes aos do cigarro nas embalagens e propagandas?

Super concordo! Todavia, “alertar” ainda é muito pouco… o aumento exemplar nos tributos de comercialização, nas multas e penalizações por descumprimentos legais e abusos de utilização (sempre letais a curto, médio e longo prazos) devem ser rigorosamente aplicados, fiscalizados e destinados às instituições de saúde que lidam com os vitimados.
Sim, concordo com a proposta de conter alertas semelhantes aos dos cigarros nas embalagens de bebidas alcoólicas