Depósitos de rejeitos, mineração de urânio, fábricas nucleares e areias naturais com radioatividade formam um mapa pouco conhecido no país, onde ciência, segurança e monitoramento ajudam a explicar riscos diferentes.
A presença de áreas com material radioativo no Brasil não se limita ao acidente com o césio-137, ocorrido em Goiânia em setembro de 1987.
O país tem depósitos de rejeitos, unidades industriais do ciclo do combustível nuclear, áreas de mineração de urânio e praias onde a radioatividade aparece por causa da composição natural das areias.
Em cada caso, a origem, o nível de controle e o tipo de risco são diferentes, segundo órgãos públicos e instituições ligadas ao setor nuclear.
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O assunto ganhou nova circulação com a minissérie brasileira Emergência Radioativa, lançada pela Netflix em 18 de março de 2026 e inspirada no acidente radiológico de Goiânia.
O episódio envolveu uma fonte de césio-137 retirada de um aparelho de radioterapia abandonado e provocou a contaminação de pessoas, imóveis, objetos e áreas da capital goiana.
A radiação, no entanto, não aparece sempre da mesma forma.
Em alguns locais, o material está acondicionado em depósitos controlados.
Em outros, integra atividades de mineração, beneficiamento ou fabricação de combustível nuclear.
Também há situações em que a radioatividade está associada à própria formação geológica do terreno, sem relação com acidente ou descarte industrial.
Abadia de Goiás guarda rejeitos do césio-137
Abadia de Goiás, município próximo a Goiânia, abriga o depósito definitivo dos rejeitos gerados pelo acidente com o césio-137.

Os materiais ficam no Parque Estadual Telma Ortegal, em uma estrutura destinada ao armazenamento de longo prazo sob responsabilidade da Comissão Nacional de Energia Nuclear.
O volume armazenado é estimado em cerca de 6 mil toneladas de rejeitos.
Entre os itens contaminados estão terra, entulho, objetos pessoais, partes de imóveis e materiais recolhidos durante a descontaminação feita após o acidente.
A fonte radioativa também foi destinada à área de armazenamento.
A existência do depósito não significa exposição direta da população ao material.
De acordo com a CNEN, depósitos desse tipo devem permanecer sob controle institucional e vigilância radiológica.
A função da estrutura é manter os rejeitos isolados e acompanhar as condições ambientais no entorno.
O acidente de 1987 começou depois que um equipamento de radioterapia abandonado foi violado.
O material radioativo, em forma de cloreto de césio, foi manuseado sem conhecimento do risco e se espalhou por diferentes pontos de Goiânia.
O caso se tornou uma referência para a área de segurança radiológica no Brasil.
Interlagos tem resíduos radioativos da antiga Usina Santo Amaro
Na zona sul de São Paulo, a Unidade de Descomissionamento de São Paulo, ligada à INB, mantém armazenados materiais provenientes da antiga Usina Santo Amaro, desativada no início dos anos 1990.
A unidade fica na região de Jurubatuba, próxima à Avenida Miguel Yunes.
Segundo a INB, o local reúne 1.179 toneladas de materiais sob responsabilidade da empresa.
O conjunto inclui Torta II, equipamentos, peças, ferramentas e materiais contaminados no processo de descomissionamento da antiga fábrica.
A Torta II é um resíduo gerado no processamento químico da monazita, mineral associado à presença de tório, urânio em baixa concentração e terras raras.
Ainda conforme a INB, esse material tem baixa radioatividade e permanece acondicionado em embalagens industriais apropriadas.
A presença do depósito em uma área urbana faz com que o tema seja acompanhado por órgãos públicos, moradores e especialistas em segurança ambiental.
A empresa afirma que os materiais permanecem em galpões industriais, com monitoramento e medidas de controle para impedir dispersão para o ambiente.
Itu armazena Torta II em silos de concreto
No interior paulista, Itu também aparece no mapa brasileiro de áreas com material radioativo armazenado.
O Sítio São Bento, em Botuxim, abriga a Unidade de Estocagem de Botuxim, vinculada à INB.
De acordo com a empresa, há 3.500 toneladas de Torta II armazenadas em sete silos de concreto.

Esses silos ocupam uma área isolada dentro de uma propriedade de aproximadamente 300 mil metros quadrados, com cercas, muros e sinalização.
O material tem a mesma origem dos resíduos mantidos em São Paulo: o processamento de monazita na antiga Usina Santo Amaro.
Por conter elementos radioativos naturais, como tório e urânio em baixa concentração, a Torta II exige armazenamento controlado e acompanhamento técnico.
A destinação definitiva desses resíduos ainda depende de solução institucional.
Enquanto não há transferência para outra estrutura, o material permanece acondicionado no sítio, sob responsabilidade da INB e dentro das normas aplicáveis ao setor.
Caetité concentra mineração de urânio no Brasil
Na Bahia, Caetité tem uma situação diferente das áreas de depósito.
O município abriga a Unidade de Concentração de Urânio da INB, onde ocorre a mineração e o beneficiamento do minério usado na produção de concentrado de urânio.
A unidade é apresentada pela INB como a única mineração de urânio em atividade no Brasil.
Ali são realizadas as primeiras etapas do ciclo do combustível nuclear, que resultam no concentrado conhecido internacionalmente como yellowcake.
A região integra uma província mineral com ocorrência natural de urânio.
Por isso, a análise de águas subterrâneas, rios e poços é um ponto central no acompanhamento ambiental.
A INB informa que monitora recursos hídricos na área desde 1990, período anterior ao início da operação de mineração.
O caso de Caetité envolve a convivência entre uma atividade econômica regulada, a presença natural do minério e a necessidade de controle ambiental permanente.
Comunidades locais, órgãos fiscalizadores e a própria empresa acompanham indicadores relacionados à água, ao solo e às operações industriais.
Caldas passa por descomissionamento de mina de urânio
Em Minas Gerais, Caldas abriga a Unidade em Descomissionamento de Caldas, primeira unidade brasileira de extração e beneficiamento de minério para produção de concentrado de urânio.
A instalação foi inaugurada em 6 de maio de 1982 e encerrou a produção em 1995.
Desde então, a área passa por etapas de descomissionamento.
Esse processo inclui ações para reduzir impactos ambientais, tratar passivos da mineração e preparar a área para usos futuros, de acordo com normas técnicas e exigências regulatórias.
A INB informa que a unidade envolve tratamento de água ácida, gerenciamento de resíduos e rejeitos sólidos, segurança de barragens, recomposição vegetal e monitoramento radiológico e ambiental.
Também há estruturas ligadas à antiga operação, como cava de mina, pilhas de resíduos e áreas industriais remanescentes.
Caldas ilustra uma fase posterior da cadeia nuclear: o período após o encerramento da produção.
Mesmo sem extração ativa, a área demanda acompanhamento contínuo para controlar rejeitos, efluentes e estruturas associadas à antiga atividade minerária.

Resende fabrica combustível nuclear para Angra
No Rio de Janeiro, Resende abriga a Fábrica de Combustível Nuclear da INB.
A unidade processa etapas do ciclo do combustível usado nos reatores das usinas nucleares brasileiras, incluindo enriquecimento isotópico de urânio, reconversão, produção de pastilhas e montagem dos elementos combustíveis.
Na prática, o urânio passa por processos industriais até chegar às pastilhas de dióxido de urânio.
Essas pastilhas são colocadas em varetas metálicas, que depois são organizadas em estruturas chamadas elementos combustíveis.
Esse conjunto abastece os reatores de Angra 1 e Angra 2.
Resende não é uma área associada a acidente radiológico nem a rejeitos abandonados.
Trata-se de uma instalação industrial nuclear licenciada, submetida a controles de segurança, fiscalização e salvaguardas.
Em 2025, a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear iniciou inspeção de segurança física nuclear na unidade.
Por lidar com material nuclear e tecnologia de enriquecimento, a fábrica integra um setor estratégico.
A operação envolve regras específicas de proteção física, controle de acesso e acompanhamento por autoridades nacionais e organismos vinculados ao regime internacional de salvaguardas.
Guarapari tem radiação natural nas areias monazíticas
No Espírito Santo, Guarapari é conhecida por praias com areias escuras, como a Praia da Areia Preta.
Nesse caso, a radioatividade está associada à composição natural da areia, e não a acidente, mineração ativa ou depósito de rejeitos.
As areias monazíticas contêm minerais que podem concentrar tório.
A Universidade Federal do Espírito Santo registra que a radioatividade observada em Guarapari tem base no tório, e não no urânio, e que essa composição foi formada por processos naturais.
A cidade também é conhecida por visitantes que associam essas areias a possíveis efeitos terapêuticos.

Se Governo realizar levantamento radiometrico sobre áreas prioritárias poderia detectar qualquer ameaça de radioatividade!