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Terras raras, minerais críticos e minerais estratégicos não são a mesma coisa, mas todos estão no centro da maior disputa geopolítica do século, e o Brasil guarda reservas gigantescas em Minas Gerais, Goiás, Amazonas e Bahia que podem mudar o jogo global da transição energética

Publicado em 27/04/2026 às 14:18
Atualizado em 27/04/2026 às 14:47
O Brasil guarda reservas de terras raras e minerais críticos em MG, GO, AM e BA. A disputa global coloca o país no centro da transição energética mundial.
O Brasil guarda reservas de terras raras e minerais críticos em MG, GO, AM e BA. A disputa global coloca o país no centro da transição energética mundial.
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O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com 21 milhões de toneladas que representam 23% do total global. Também detém 94% das reservas mundiais de nióbio, é o segundo em grafita e o terceiro em níquel. Mas terras raras, minerais críticos e minerais estratégicos são conceitos diferentes, e entender a distinção é essencial para compreender a disputa geopolítica que coloca o país no centro do tabuleiro da transição energética.

O Brasil guarda debaixo da terra reservas de minerais que o mundo inteiro disputa, mas poucos brasileiros sabem a diferença entre os três conceitos que dominam as manchetes da geopolítica global: terras raras, minerais críticos e minerais estratégicos. Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), terras raras são um grupo específico de 17 elementos químicos da tabela periódica, incluindo 15 lantanídeos, escândio e ítrio, essenciais para tecnologias como turbinas eólicas, carros elétricos, baterias e sistemas de defesa. Apesar do nome, não são necessariamente raros na natureza, mas costumam estar dispersos, o que dificulta a exploração econômica.

A confusão entre os três termos não é apenas semântica: tem consequências práticas para a política mineral do país. Minerais estratégicos são aqueles considerados essenciais para o desenvolvimento econômico e com importância em produtos de alta tecnologia e transição energética. Minerais críticos são aqueles cujo suprimento envolve riscos de abastecimento, como concentração geográfica da produção, dependência externa e instabilidade geopolítica. A definição de quais minerais se enquadram em cada categoria varia de país para país e muda com o tempo, mas o Brasil figura como protagonista em todas as listas por causa de suas reservas colossais.

O tamanho das reservas brasileiras e onde elas estão escondidas

Segundo informações divulgadas pela Revista Fórum, os números do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) colocam o Brasil em posição privilegiada em múltiplas categorias. O país detém 94% das reservas mundiais de nióbio, com 16 milhões de toneladas, mineral indispensável para ligas de aço de alta resistência usadas em aviação, infraestrutura e defesa. É o segundo no ranking global de reservas de grafita, com 74 milhões de toneladas que representam 26% do total mundial, e o terceiro em níquel, com 16 milhões de toneladas e 12% das reservas globais.

As terras raras brasileiras, estimadas em 21 milhões de toneladas, estão concentradas em Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe. Esses estados abrigam os principais tipos de depósitos com potencial econômico, mas a maior parte nunca foi explorada comercialmente porque o Brasil historicamente priorizou a exportação de minerais de maior volume e menor valor agregado, como ferro e bauxita. A diversificação para terras raras e minerais críticos exige investimento em pesquisa, mapeamento e, principalmente, em capacidade de refino que o país ainda não possui.

Por que a China domina o mercado e o que isso significa para o Brasil

A China lidera amplamente o refino e a produção de terras raras, controlando mais de 60% da extração global e quase toda a cadeia de processamento. Essa concentração gera preocupação em potências como Estados Unidos e União Europeia, que buscam diversificar fornecedores para reduzir a dependência de um único país em um setor que é a base da tecnologia moderna.

Para o Brasil, a dominância chinesa é ao mesmo tempo ameaça e oportunidade. Se o país conseguir desenvolver capacidade de refino e beneficiamento, suas reservas podem atender à demanda ocidental por fontes alternativas de terras raras e minerais críticos. Se continuar apenas extraindo e exportando matéria-prima bruta, repetirá o padrão histórico que o professor Luiz Jardim Wanderley, da Universidade Federal Fluminense, descreve como perpetuação da condição de “país primário-exportador” que marcou a economia brasileira desde o ouro colonial.

O desafio que vai além da extração: beneficiamento e refino

O professor Jardim Wanderley aponta que o desafio brasileiro não está apenas na extração. A cadeia produtiva dos minerais críticos envolve etapas complexas como beneficiamento e refino que ainda são pouco desenvolvidas no Brasil, o que faz com que o país exporte matéria-prima barata e importe produtos acabados de alto valor. O Brasil exporta muitos minerais e os consome muito pouco no mercado nacional.

Sem investimento em processamento, as reservas brasileiras continuam sendo potencial não realizado. O nióbio é um exemplo: apesar de deter 94% das reservas mundiais, o Brasil processa apenas parte do minério internamente, e o valor agregado da cadeia produtiva fica concentrado nos países que transformam o nióbio em ligas especiais para aviação e infraestrutura. O mesmo padrão se repete com grafita, níquel e terras raras: o Brasil tem o recurso, mas não captura o valor que ele pode gerar.

Os impactos ambientais que acompanham a exploração mineral

A exploração de minerais críticos e terras raras não é isenta de custos ambientais e sociais. O professor Jardim Wanderley é categórico ao afirmar que não existe mineração sustentável e que toda extração causa impactos pesados, como comprometimento de recursos hídricos, pressão econômica nos municípios onde ocorre, aumento da pobreza, desigualdade e violência urbana.

A avaliação não significa que a mineração deva ser abandonada, mas que precisa ser repensada. É possível fazer um modelo menos degradante, mas grandes escavações continuarão a desmontar montanhas e a afetar cursos de água, segundo o geógrafo. Para o Brasil, que possui reservas de importância global, a questão é equilibrar os ganhos econômicos e geopolíticos da exploração com a proteção dos ecossistemas e das comunidades que vivem nas regiões mineradoras de Minas Gerais, Goiás, Amazonas e Bahia.

A lista oficial de minerais estratégicos do Brasil e o que ela revela

O Ministério de Minas e Energia publicou em 2021 uma lista de minerais considerados estratégicos para o desenvolvimento nacional, dividida em três grupos. O primeiro inclui minerais que o Brasil precisa importar: enxofre, fosfato, potássio e molibdênio. O segundo reúne os usados em produtos de alta tecnologia, como cobalto, cobre, lítio, nióbio, terras raras e urânio. O terceiro lista os que geram superávit na balança comercial, como ferro, ouro, manganês e alumínio.

A lista revela uma contradição: o Brasil é superpotência em reservas, mas importa minerais que poderia produzir internamente se investisse em prospecção e processamento. A atualização periódica da lista é necessária porque avanços tecnológicos e mudanças geopolíticas alteram constantemente quais minerais são considerados críticos ou estratégicos. O lítio, por exemplo, ganhou relevância nos últimos anos com a explosão da demanda por baterias de veículos elétricos, e o Brasil possui reservas que ainda não foram plenamente dimensionadas.

Você sabia que o Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo e 94% do nióbio global, ou achava que esses minerais só existiam na China? Conte nos comentários se acredita que o país conseguirá industrializar suas reservas ou se continuará exportando matéria-prima bruta como faz há séculos.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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