Em 26 de abril de 1986, o reator número 4 da usina nuclear de Chernobyl explodiu e espalhou radiação por toda a Europa. Quarenta anos depois, a cidade de Pripyat permanece como uma cápsula do tempo soviética: 160 edifícios em ruínas, 13,5 mil apartamentos vazios e quase 50 mil pessoas que perderam suas casas para sempre. Volodimir Vorobei, que tinha 18 anos naquele dia, voltou ao prédio onde morava e encontrou seus discos de vinil no meio do lixo.
Chernobyl completa 40 anos do pior acidente nuclear da história, e a cidade de Pripyat, construída para abrigar os trabalhadores da usina e suas famílias, continua exatamente como foi deixada na evacuação de abril de 1986. Veículos abandonados apodrecem à beira das ruas, brinquedos e restos de eletrodomésticos permanecem ao lado das casas, e placas parcialmente desbotadas em russo ainda avisam sobre os níveis de radioatividade. A vegetação tomou conta dos espaços, com arbustos e árvores crescendo por toda parte e formando um emaranhado verde que engole as ruínas dos prédios vazios.
Volodimir Vorobei é um dos poucos ex-moradores que voltaram para enfrentar as memórias. Ele trabalhava como eletricista e, no dia anterior à explosão, instalava linhas de energia que levavam justamente ao reator 4. Hoje, dirige o departamento de automação térmica da usina, onde os trabalhos de desativação continuam duas décadas após o último reator ter sido desligado. Ao entrar no antigo apartamento no prédio 18-A da rua Lesya Ukrainka, foi direto ao quarto que fora seu e pegou um disco de vinil do chão, um objeto que o fez lembrar de quanto a família ouvia música naquela época.
A cidade que a União Soviética prometeu transformar em orgulho nuclear

Segundo informações divulgadas pelo portal DW, Pripyat existia havia apenas 16 anos quando o reator explodiu. A liderança soviética planejava transformar Chernobyl na maior usina nuclear do mundo, com 12 blocos de reatores, e a cidade abrigaria toda a força de trabalho e suas famílias. Foram construídos 160 edifícios com 13,5 mil apartamentos, 15 jardins de infância e cinco escolas, uma infraestrutura completa para uma população que crescia junto com o programa nuclear soviético.
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A propaganda do regime garantia que a energia nuclear era absolutamente segura. Em universidades, institutos e treinamentos para funcionários, ensinava-se que as usinas da URSS eram as mais seguras do mundo e que um acidente radiológico era simplesmente impossível. “Nos diziam que tudo havia sido previsto e calculado. Nem nos passava pela cabeça que um acidente pudesse acontecer”, relata Vorobei. A maioria dos moradores de Pripyat não tinha conhecimento dos riscos reais para a saúde e o meio ambiente, e um acidente anterior na usina de Leningrado em 1975 havia sido mantido em segredo.
O dia em que tudo mudou e a evacuação que ninguém esperava
Na manhã de 26 de abril de 1986, Vorobei não ouviu a explosão. Quis ir trabalhar normalmente, mas não havia ônibus. Caminhou com um amigo até a usina e viu o prédio destruído do reator 4. “Não sabíamos o que tinha acontecido, nem exatamente onde. Não havia fumaça, mas calor. Um verdadeiro fluxo de calor subia para o céu”, relata. Um ciclista avisou que era perigoso ficar ali, e eles voltaram para casa.
Somente à noite, pelo irmão mais velho que trabalhava na usina, Vorobei soube do acidente e da evacuação iminente. “No começo achamos que seria só por alguns dias.” A família deixou Pripyat em um trem superlotado, e pela janela viram o reator 4 destruído. Vorobei lembra que naquele momento ninguém refletiu sobre as consequências, ninguém sabia que nunca mais voltaria para casa, e ele ainda pensava nos tênis novos que havia esquecido no armário.
O que sobrou de Pripyat quarenta anos depois do acidente
Quatro décadas transformaram Pripyat em uma cidade-fantasma que a natureza está lentamente reclamando. Os prédios estão em ruínas, com janelas quebradas e portas escancaradas que revelam interiores tomados por detritos, lixo e objetos pessoais que os moradores não tiveram tempo de levar. No antigo apartamento de Vorobei, cadeiras e sapatos permanecem onde foram deixados. Uma placa com os nomes dos vizinhos ainda está pendurada na entrada do edifício, mas ele nunca mais viu nenhum deles.
No cinema Prometheus, onde Vorobei ia com amigos, retratos desbotados de antigos dirigentes do Partido Comunista pendem das paredes. Símbolos soviéticos são onipresentes no centro de Pripyat: emblemas da Ucrânia soviética nos telhados e, em um prédio, a inscrição “O átomo deve servir aos trabalhadores, não aos soldados”, frase que resume a crença que a população tinha na segurança absoluta da energia nuclear antes que a explosão destruísse essa ilusão junto com o reator 4.
A roda-gigante que se tornou símbolo mundial de uma cidade abandonada
A roda-gigante de Pripyat é provavelmente a imagem mais conhecida do desastre de Chernobyl. Oficialmente, ela nunca entrou em funcionamento porque deveria ser inaugurada em 1º de maio de 1986, o Dia do Trabalhador, cinco dias após a explosão. Antes do acidente, era parte da rota turística que atraía visitantes de todo o mundo à zona de exclusão, até que a invasão russa à Ucrânia em 2022 interrompeu o fluxo.
Vorobei sorri ao falar dela. “Não acredite nas histórias de que ninguém jamais andou nela. Alunos da minha escola técnica, inclusive eu, foram usados como testadores.” O detalhe humaniza uma imagem que o mundo inteiro associa à tragédia: antes de se tornar símbolo de abandono, a roda-gigante foi palco de juventude, de risadas de adolescentes que não imaginavam o que estava por vir. Quarenta anos depois, ela permanece parada, oxidada e coberta de vegetação, mais um monumento em ruínas involuntário à fragilidade das promessas que a tecnologia nuclear carregava.
Os trabalhos que continuam em Chernobyl e a cúpula perfurada por um drone
Desde o ano 2000, não se produz mais eletricidade em Chernobyl, mas a desativação da usina está longe de terminar. Sobre o reator 4 e o sarcófago de concreto construído às pressas em 1986, foi erguida uma nova estrutura de proteção chamada New Safe Confinement, projetada para conter a radiação por pelo menos um século. Instalações no terreno da antiga usina processam combustíveis radioativos e resíduos contaminados, um trabalho que continuará por décadas.
Em 2025, a cúpula de proteção foi perfurada por um drone de combate russo. A Agência Internacional de Energia Atômica informou que a estrutura não cumpre sua principal função de segurança desde então, adicionando uma camada de risco a um local que já carrega o peso de ser a maior catástrofe nuclear da história. Para Vorobei, que trabalha diariamente nas instalações de Chernobyl, o perigo não é abstrato: ele admite que até hoje não sabe qual dose de radiação recebeu desde 1986 e prefere não solicitar o certificado que informaria o número.
O legado de Chernobyl e a pergunta que não se cala
Questionado sobre quanto a catástrofe mudou sua vida, Vorobei responde que aos 18 anos ainda não tinha grandes planos. Quarenta anos depois, ao olhar para trás, lhe parece “como se todos estivessem caminhando em uma mesma direção e, de repente, tivessem se virado para seguir outro caminho”. Ele acredita que a história do mundo e da Ucrânia talvez tivesse sido diferente se o acidente de Chernobyl não tivesse acontecido.
A explosão de 1986 espalhou radiação por toda a Europa, contaminou milhares de quilômetros quadrados de terra e forçou a evacuação permanente de quase 50 mil pessoas só em Pripyat. Quatro décadas não foram suficientes para apagar os vestígios do desastre: as ruínas de Pripyat continuam contaminadas, a cúpula está perfurada por guerra e os discos de vinil de um jovem de 18 anos ainda jazem no chão de um apartamento que ninguém mais chama de lar.
Você já conhecia a história de Pripyat ou só associava Chernobyl à explosão do reator? Conte nos comentários o que mais te impressionou sobre uma cidade que ficou congelada no tempo e se acredita que a energia nuclear pode ser segura depois de tudo o que aconteceu.

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