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Viúva há anos, mulher enfrenta a solidão, acorda às 4h30 e aprendeu sozinha a tirar leite, cuidar de bezerros e manter a produção do sítio de um alqueire em Goiás

Escrito por Geovane Souza
Publicado em 30/01/2026 às 10:16
Assista o vídeoViúva há anos, mulher enfrenta a solidão, acorda às 4h30 e aprendeu sozinha a tirar leite, cuidar de bezerros e manter a produção do sítio de um alqueire em Goiás
Viúva assume sozinha produção de leite em sítio de um alqueire em Jaraguá, Goiás, e relata desafios da agricultura familiar. (Foto: Lucas Pereira Lima / YouTube)
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Luziélia perdeu o marido e enfrentou o desafio de assumir a produção de leite e cuidados com os animais sem nunca ter trabalhado no curral e história comove nas redes sociais mostrando a realidade de mulheres rurais brasileiras

A jornada começa às 4h30 da manhã. Antes do sol nascer, Luziélia já está de pé preparando as filhas para a escola e se organizando para mais um dia de trabalho intenso no sítio de um alqueire em Jaraguá, Goiás. Viúva há alguns anos, ela assumiu sozinha a responsabilidade de tocar a propriedade rural, tirar leite de vacas, cuidar de bezerros e manter a produção que sustenta sua família.

A história ganhou visibilidade através de um vídeo publicado no canal Lucas Pereira Lima, que registrou a rotina da produtora rural. Nas imagens, ela compartilha os desafios enfrentados desde a perda do marido. “Eu fiquei perdida, sabe? Ao mesmo tempo eu queria ficar, ao mesmo tempo eu queria ir embora”, relata no vídeo, relembrando os primeiros dias após o luto.

Segundo dados do Censo Agropecuário de 2017 do IBGE, as mulheres são responsáveis por mais de um quarto das propriedades rurais no Brasil, representando 19% dos estabelecimentos agrícolas. De acordo com informações da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), houve um crescimento de 38% de mulheres à frente de empresas rurais entre 2006 e 2017.

A realidade de Luziélia espelha a de milhares de mulheres na agricultura familiar que enfrentam jornadas triplas: cuidam da produção, da casa e dos filhos, muitas vezes sem apoio. No caso dela, a situação foi agravada pelo isolamento social que enfrentou após a viuvez.

Aprendizado solitário e superação no curral

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Vídeo do YouTube

Quando decidiu permanecer no sítio, 30 dias após perder o marido, Luziélia nunca havia trabalhado no curral. “Eu não sabia nem nome de vaca”, conta. Foi a filha mais velha, Laila, quem a ajudou a identificar os animais nos primeiros dias.

O aprendizado foi doloroso e solitário. No primeiro dia no curral, das oito vacas disponíveis, conseguiu tirar leite de apenas cinco. “Elas não estavam acostumadas comigo. Eu também não estava adaptada”, explica no depoimento.

Hoje, a produção diária gira em torno de 10 a 14 litros de leite, vendidos para o laticínio local por valores que, segundo ela, não aumentaram na seca de 2025 como em anos anteriores. De acordo com análise da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), os preços do leite caíram significativamente em 2025, chegando a valores médios entre R$ 2,20 e R$ 2,41 por litro, dependendo da região.

A renda da propriedade vem da venda do leite e dos bezerros. Cada bezerro desmamado pode valer até R$ 1.800, segundo informou, embora os que ela cria atualmente ainda sejam pequenos e valham cerca de R$ 1.000.

Isolamento social e preconceito no meio rural

Um dos relatos mais impactantes de Luziélia diz respeito ao preconceito enfrentado como mulher viúva no campo. “Como eu sou viúva, as mulheres aí não quiseram deixar os homens ajudar”, revelou, referindo-se ao isolamento que sofreu por parte de vizinhos após a perda do marido.

Esse fenômeno não é exclusivo de sua realidade. Conforme apontam pesquisas sobre mulheres rurais no Brasil, elas enfrentam desafios que vão além das dificuldades operacionais da agricultura, incluindo discriminação de gênero, falta de acesso a recursos e barreiras culturais.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), as mulheres produzem cerca de metade dos alimentos no mundo e representam 43% da mão de obra agrícola mundial, mas ainda têm dificuldade de acesso à terra, ao crédito e às cadeias de valor.

No caso de Luziélia, o abandono dos vizinhos significou enfrentar sozinha tarefas que exigem força física considerável. Ela mesma carrega sacos de ração e milho, cuida da alimentação das vacas com casca de algodão e farelo, e planta silagem para o período da seca.

Jornada tripla e busca por renda complementar

Além da produção leiteira, Luziélia concilia as responsabilidades domésticas e o cuidado com as três filhas. A rotina inclui preparar as meninas para a van escolar que passa às 5 horas da manhã, tratar dos animais, fazer compras na cidade, pagar contas e buscar trabalhos de faxina em fazendas vizinhas para complementar a renda.

“Só a renda daqui não dá”, admite. Ela recebe pensão por morte do marido, mas o valor também é insuficiente para cobrir todas as despesas familiares. “Eu agora mesmo tô assim arrochada”, desabafa.

A situação reflete o cenário de muitos pequenos produtores de leite no Brasil. Segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA), agricultores familiares dependem fortemente da produção leiteira, mas enfrentam margens apertadas devido aos baixos preços pagos pelos laticínios e custos crescentes de produção.

Dados da Embrapa indicam que o Brasil produziu 25,375 bilhões de litros de leite em 2024, com crescimento de 2,38% em relação ao ano anterior. No entanto, apesar do aumento na produção nacional, os pequenos produtores continuam enfrentando dificuldades financeiras.

Redes sociais como válvula de escape e fonte de renda

Diante das dificuldades, Luziélia encontrou nas redes sociais uma forma de lidar com a tristeza e criar perspectivas de renda futura. Com o perfil @luzielia_ no TikTok, ela posta vídeos de dança e da rotina tirando leite.

“Quando eu comecei a fazer os vídeos, foi tirando um pouco da tristeza”, conta. “Fazia o vídeo de dança, fazia o vídeo tirando leite, colocava a cabeça em outro lugar”. A iniciativa deu resultado: ela alcançou 10.000 seguidores, marca necessária para começar a monetizar conteúdo na plataforma.

A presença digital tem se tornado uma estratégia importante para mulheres rurais ganharem visibilidade e renda complementar. Além disso, permite que elas se conectem com outras pessoas em situações semelhantes, reduzindo o isolamento.

Luziélia conta que se inspira em outras produtoras, como Camila, uma criadora de conteúdo que também ficou viúva e tira leite. “Ela é uma pessoa guerreira, trabalhadeira”, diz. A identificação com histórias parecidas demonstra a importância da representatividade feminina no agronegócio.

Desafios da produção leiteira em pequenas propriedades

A propriedade de um alqueire (cerca de 2,4 hectares) que Luziélia administra é considerada pequena para a pecuária leiteira. Ela mantém atualmente duas vacas em ordenha, além de alguns bezerros, incluindo dois enjeitados que são alimentados por uma “mãe de leite”.

Para manter a produtividade, ela oferece ração às vacas durante a ordenha e planta silagem de milho — usa cerca de um saco e meio de sementes por ano. A alimentação complementar é essencial, especialmente no período da seca, quando o capim escasseia.

Segundo informações do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o Brasil é o terceiro maior produtor mundial de leite, com produção em 98% dos municípios brasileiros. A atividade emprega cerca de 4 milhões de pessoas, com predominância de pequenas e médias propriedades.

Entretanto, conforme aponta a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), muitos produtores da agricultura familiar enfrentam dificuldades para manter a atividade devido aos baixos preços, falta de tecnologia e acesso limitado a recursos.

Perspectivas e políticas públicas

O governo federal lançou em 2024 a Estratégia de Desenvolvimento da Produção de Leite na Agricultura Familiar, buscando fortalecer o setor. A iniciativa prevê apoio especial a cooperativas e incentivo ao consumo através de programas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

Para mulheres como Luziélia, políticas públicas específicas são fundamentais. De acordo com estudos sobre igualdade de gênero na agricultura, é necessário garantir acesso à terra, crédito, tecnologia e capacitação técnica para que as mulheres rurais possam desenvolver plenamente seu potencial produtivo.

A Lei 14.660/2023 alterou o PNAE determinando que, quando alimentos forem adquiridos de família rural individual, pelo menos 50% da compra seja feita em nome da mulher, um avanço importante para o reconhecimento do papel feminino na produção de alimentos.

Apesar dos desafios, Luziélia permanece firme em sua decisão. Após os primeiros 30 dias de adaptação, ela não quis mais deixar o sítio. “Eu comecei a pegar o ritmo”, lembra. A determinação e resiliência demonstradas por ela representam a força de milhares de mulheres na agricultura brasileira que, mesmo diante de adversidades, seguem sustentando suas famílias e contribuindo para a segurança alimentar do país.

E você, conhece alguma história semelhante de superação no campo? As mulheres rurais enfrentam desafios únicos que vão desde o preconceito até a sobrecarga de trabalho. Será que a sociedade valoriza suficientemente o papel dessas trabalhadoras na produção de alimentos que chegam à nossa mesa? Deixe sua opinião nos comentários e ajude a dar visibilidade a essas histórias de luta e resistência.

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Cleonice Medeiros
Cleonice Medeiros
04/02/2026 15:26

Nós mulheres somos guerreiras sim, nada nos assusta.
Somos e seremos mulheres de fibra.

Jardélia
Jardélia
01/02/2026 21:04

Hoje em dia ,as mulheres estão se superando mais e mais .Parabéns a todas as mulheres guerreiras do nosso Brasil.

José Ari De Brito Marinho
José Ari De Brito Marinho
01/02/2026 20:48

Parabéns mulher! Vc.está deixando um grande legado para futuras gerações femininas e com isso mostrando a suas filhas o verdadeiro valor quê tem a mulher.

Geovane Souza

Especialista em criação de conteúdo para internet, SEO e marketing digital, com atuação focada em crescimento orgânico, performance editorial e estratégias de distribuição. No CPG, cobre temas como empregos, economia, vagas home office, cursos e qualificação profissional, tecnologia, entre outros, sempre com linguagem clara e orientação prática para o leitor. Universitário de Sistemas de Informação no IFBA – Campus Vitória da Conquista. Se você tiver alguma dúvida, quiser corrigir uma informação ou sugerir pauta relacionada aos temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: gspublikar@gmail.com. Importante: não recebemos currículos.

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