Pesquisadores do Fred Hutch Cancer Center criaram anticorpos a partir de camundongos geneticamente modificados que bloquearam completamente a infecção pelo vírus Epstein-Barr — associado a cânceres e esclerose múltipla
Um estudo publicado em abril de 2026 na revista Cell Reports Medicine revelou que cientistas do Fred Hutch Cancer Center, nos Estados Unidos, desenvolveram anticorpos monoclonais capazes de impedir completamente a infecção pelo vírus Epstein-Barr (VEB) em modelos com sistema imunológico semelhante ao humano.
O vírus Epstein-Barr infecta aproximadamente 95% da população mundial ao longo da vida.
A maioria das pessoas carrega o vírus sem saber.
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Ele é mais conhecido por causar a mononucleose, popularmente chamada de “doença do beijo”.
Porém, em casos mais graves, está associado a cânceres como linfoma de Hodgkin, linfoma de Burkitt e câncer nasofaríngeo.
Risco de esclerose múltipla é 30 vezes maior em infectados
Além dos cânceres, o VEB está ligado a doenças autoimunes graves.
Um estudo anterior da Universidade Harvard mostrou que pessoas infectadas pelo vírus Epstein-Barr apresentam risco 30 vezes maior de desenvolver esclerose múltipla.
Apesar dessa associação alarmante, até hoje não existem vacinas nem antivirais específicos contra o VEB.
Também não há terapias aprovadas para prevenir a infecção.
Por isso, a descoberta do Fred Hutch representa um avanço significativo.

Como o anticorpo bloqueou 100% da infecção
Para desenvolver a arma contra o vírus, os pesquisadores usaram uma estratégia inovadora.
Eles criaram camundongos geneticamente modificados capazes de produzir anticorpos humanos.
A partir desses modelos, a equipe desenvolveu anticorpos monoclonais que atacam duas proteínas-chave do vírus.
- gp350: proteína responsável por permitir que o vírus se ligue às células do hospedeiro
- gp42: proteína essencial para que o vírus penetre nas células imunológicas
Ao bloquear essas duas estruturas simultaneamente, um dos anticorpos impediu completamente a infecção em camundongos com sistema imunológico humanizado.
O resultado foi de 100% de prevenção nos testes.

Um vírus que quase todos carregam sem saber
A transmissão do VEB vai além do beijo.
O vírus pode ser contraído por objetos contaminados, transfusão sanguínea e até pela via transplacentária — quando a gestante adquire o vírus durante a gravidez e passa ao feto pela placenta.
Na maioria dos casos, a infecção ocorre na infância ou adolescência e permanece latente no corpo pelo resto da vida.
O sistema imunológico mantém o vírus sob controle, mas não o elimina.
É por isso que 95 em cada 100 adultos no mundo carregam o VEB — geralmente sem apresentar sintomas.
O problema surge quando o sistema imunológico está comprometido, como em pacientes que passam por transplantes de órgãos ou medula óssea.
Caminho para terapia preventiva em transplantados
Os pesquisadores acreditam que os anticorpos desenvolvidos podem ser usados como tratamento preventivo por meio de infusões.
Essa abordagem seria especialmente útil para pacientes transplantados, que recebem medicamentos imunossupressores e ficam vulneráveis à reativação do VEB.
Nesses casos, o vírus pode sair da latência e provocar linfomas associados ao transplante.
Com os novos anticorpos, seria possível neutralizar o vírus antes que ele cause danos.
No entanto, a terapia ainda precisa passar por etapas de ensaios clínicos em humanos para comprovar segurança e eficácia.

Ressalvas: resultados ainda são de laboratório
Apesar do sucesso nos testes com camundongos, é importante ressaltar que os resultados são pré-clínicos.
Não há informações sobre cronograma para testes em humanos nem sobre possíveis efeitos colaterais dos anticorpos.
Além disso, o custo de uma eventual terapia baseada em anticorpos monoclonais tende a ser elevado, o que poderia limitar o acesso em países de baixa renda.
Contudo, o fato de que pela primeira vez um anticorpo conseguiu bloquear 100% das infecções por VEB em modelos com sistema imunológico humano representa um marco.
Para um vírus que 95% da humanidade carrega e que está ligado a cânceres e esclerose múltipla, qualquer caminho de prevenção é uma notícia que vale a atenção.
