Vênus atingirá magnitude -4,8 em setembro de 2026 e poderá brilhar mais de 150 vezes acima de Sírius no céu do entardecer.
Segundo a EarthSky, Vênus atingirá sua maior iluminação aparente de 2026 na noite de 18 de setembro, brilhando com magnitude -4,8 no céu do pôr do sol. O planeta estará tão brilhante que olhos adaptados ao escuro podem perceber sua luz projetando sombras em superfícies brancas, enquanto observadores treinados conseguem localizá-lo no céu azul durante o dia se souberem exatamente onde procurar. A magnitude -4,8 coloca Vênus em um território reservado a poucos objetos celestes: o Sol, a Lua e o próprio Vênus. Nenhuma estrela chega perto. Sírius, a mais brilhante do céu noturno, tem magnitude -1,46, sendo mais de 150 vezes menos luminosa que Vênus no pico. Júpiter, o segundo planeta mais brilhante, atinge no máximo magnitude -2,9.
O que aparecerá no horizonte oeste ao entardecer de 18 de setembro de 2026 não será uma estrela comum. Será um ponto de luz tão intenso que desafia a intuição de quem olha para o céu e tenta classificá-lo.
Por que Vênus brilha mais como crescente do que como disco cheio visto da Terra
Vênus tem fases, exatamente como a Lua. A descoberta foi feita por Galileu Galilei em 1610, por meio de seu telescópio artesanal, e foi uma das primeiras evidências observacionais de que os planetas orbitam o Sol, e não a Terra. Quando Galileu viu Vênus mudar de disco quase cheio para crescente, a explicação consistente era que o planeta circulava ao redor do Sol em uma órbita menor que a da Terra.
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A consequência desse comportamento orbital é um paradoxo fotométrico: Vênus é mais brilhante como crescente do que como disco cheio.
Quando está totalmente iluminado do nosso ponto de vista, fica do lado oposto do Sol em relação à Terra, portanto mais distante e visualmente menor. Quando aparece como crescente, está muito mais próximo da Terra, e seu disco aparente cresce o suficiente para compensar a menor fração iluminada.
O pico de brilho ocorre quando a combinação entre proximidade e fase produz a maior área iluminada projetada vista da Terra.
Esse ponto acontece quando Vênus exibe aproximadamente 25% a 28% de iluminação, um crescente fino, mas enorme em tamanho angular. É a chamada maior extensão iluminada, associada à magnitude -4,8 de setembro de 2026.
O ciclo de 584 dias de Vênus que os maias já acompanhavam com precisão astronômica
Vênus completa uma volta ao redor do Sol em 225 dias, enquanto a Terra leva 365 dias. Por isso, a posição relativa entre os dois planetas muda continuamente. A cada 584 dias, aproximadamente 19,5 meses, Terra e Vênus retornam à mesma configuração relativa, em um ciclo chamado período sinódico.
Esse período tem uma propriedade extraordinária: 5 ciclos de 584 dias somam 2.920 dias, quase o mesmo que 8 anos terrestres, com 2.922 dias. Isso faz com que os padrões de aparição de Vênus se repitam a cada oito anos com desvio mínimo, nas mesmas constelações, nas mesmas estações e com geometria parecida.
Os maias descobriram esse ciclo por observação. O Códex de Dresden, manuscrito maia do século XI, contém tabelas detalhadas das aparições de Vênus em ciclos de 584 dias, acumulados em períodos de 37 e 104 anos. Em 2026, Vênus repete fenômenos celestes notáveis vistos pela última vez em 2018, justamente porque os dois anos são separados por um ciclo de oito anos do planeta.
O que acontece com Vênus entre agosto, setembro e outubro de 2026 no céu do entardecer
O pico de 18 de setembro não ocorre isoladamente. Ele é o clímax de um arco de oito meses que começou em fevereiro e termina em outubro.
Vênus emergiu das proximidades do Sol em meados de fevereiro de 2026 e subiu gradualmente no céu do pôr do sol. Em março, passou a se pôr em céu escuro, aparecendo como o objeto mais luminoso à vista depois da Lua.

Vênus atingiu sua maior elongação, a maior separação angular em relação ao Sol, em 15 de agosto, com cerca de 46 graus. O pico de brilho em 18 de setembro acontece quando o planeta já estará relativamente baixo no horizonte oeste ao anoitecer, cerca de 10 graus acima do horizonte no pôr do sol, desaparecendo aproximadamente uma hora e meia depois do Sol.
Após 18 de setembro, Vênus afundará rapidamente em direção ao Sol, sumindo da vista no início de outubro. Em 24 de outubro de 2026, passará pela conjunção inferior, quando estará entre a Terra e o Sol. Depois disso, ressurgirá como estrela da manhã no horizonte leste, atingindo novo pico de brilho próximo de -4,8 por volta de 27 de novembro de 2026.
A magnitude -4,8 explica por que Vênus pode ser visto durante o dia e até projetar sombras
A escala de magnitude astronômica é logarítmica e inversamente proporcional ao brilho: quanto menor o número, mais brilhante é o objeto. Uma diferença de 5 magnitudes equivale a um fator de 100 em brilho, enquanto 1 magnitude corresponde a um fator de 2,512.
Com magnitude -4,8, Vênus será cerca de 150 vezes mais brilhante que Sírius, a estrela mais brilhante do céu noturno, cerca de 40 vezes mais brilhante que Júpiter no pico e aproximadamente 6 vezes mais brilhante que Vênus em uma aparição comum, quando varia entre -3,5 e -4,0.
Essa intensidade torna possível vê-lo durante o dia. A técnica mais segura é usar a Lua como referência quando ela estiver visível no céu diurno e Vênus estiver próximo dela.
À noite, em locais escuros e sem Lua, a projeção de sombras por Vênus pode ser testada colocando a mão diante de uma folha branca, com o planeta brilhando de frente, depois de cerca de 20 minutos de adaptação ao escuro.
Por que Vênus parece uma estrela a olho nu mesmo sendo um planeta próximo da Terra
A natureza planetária de Vênus não é óbvia sem equipamento. Para a maioria das pessoas, ele aparece como um ponto de luz puro, semelhante a uma estrela muito brilhante. Isso acontece porque seu diâmetro angular, mesmo no pico de proximidade, chega a cerca de 60 segundos de arco, limite próximo da resolução do olho humano médio.
Com binóculos de qualidade, o crescente de Vênus já pode ser visto, especialmente nas semanas próximas ao pico de setembro, quando o planeta exibe cerca de 22% de iluminação e tamanho angular de 50 a 60 segundos de arco. Com telescópio de 60 milímetros ou mais, o crescente se torna evidente e visualmente marcante.
O brilho extremo vem de sua atmosfera densa, composta majoritariamente por dióxido de carbono e coberta por nuvens contínuas.
Vênus reflete aproximadamente 70% da luz solar que recebe, uma das maiores refletividades do Sistema Solar. Por fora, é o objeto mais brilhante do céu depois do Sol e da Lua. Por dentro, tem superfície a cerca de 464 °C e pressão atmosférica 92 vezes maior que a da Terra.
A estrela da tarde que guiou navegadores e ajudou Galileu a derrubar o modelo geocêntrico
Antes do GPS e antes da bússola magnética chegar à Europa no século XII, navegadores mediterrâneos e atlânticos usavam corpos celestes para orientação. O Sol servia durante o dia, as estrelas à noite, e Vênus, nos crepúsculos, aparecia como uma referência poderosa por ser brilhante o suficiente para ser visto contra o céu parcialmente iluminado.
A estrela da tarde, chamada Hesperus pelos gregos e Vesper pelos romanos, e a estrela da manhã, conhecida como Phosphorus ou Lucifer, foram inicialmente tratadas como objetos diferentes.
A identificação dos dois como o mesmo planeta é atribuída a Pitágoras no século VI a.C., embora registros babilônicos indiquem que astrônomos mesopotâmicos já conheciam essa identidade antes.
Galileu Galilei fez a primeira observação precisa das fases de Vênus em 1610. Essa descoberta ajudou a provar a teoria copernicana de que os planetas orbitam o Sol, porque no modelo geocêntrico Vênus não poderia mostrar o conjunto completo de fases observado.
Em 18 de setembro de 2026, o mesmo planeta voltará a aparecer como um farol de magnitude -4,8 no horizonte oeste, visível sem equipamento para qualquer pessoa que olhe para o céu no momento certo.
Vênus será apenas um ponto luminoso para muitos observadores, mas a pergunta que fica é inevitável: quantas pessoas vão olhar para o horizonte em setembro de 2026 sem imaginar que aquele brilho já guiou calendários, navegadores e uma revolução na forma de entender o Sistema Solar?


Nos anos 1965 até 70 eu morava no interior do estado do Paraná, e via uma estrela 🌟 o dia todo. Hoje em dia procuro em todo o firmamento e não a vejo mais. Vou ficar de olho em setembro.