Passo Fundo é sede da Be8 e a terceira cidade com mais exportações no Rio Grande do Sul. Os números oficiais mostram que o biodiesel feito lá quase não sai do país, e por quê.
Passo Fundo vendeu US$ 1,73 bilhão ao exterior em 2025, quase tudo vindo do campo, e abriga a sede da Be8, apresentada pela prefeitura como a maior produtora de biodiesel do Brasil. O retrato foi publicado pelo Canal Rural nesta quarta-feira (8), com dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do município.
A reportagem junta as duas coisas na mesma frase. A conta separa. Nos registros do Comex Stat, a base de comércio exterior do MDIC, o biodiesel respondeu por 0,19% das exportações de Passo Fundo no ano passado.
Quanto Passo Fundo exportou em 2025 e o que saiu da cidade?
Foram US$ 1.729.482.986 em exportações, conforme o Comex Stat. A soja em grão sozinha somou US$ 1,30 bilhão, ou 75% do total.
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O resto é campo também. Trigo rendeu US$ 183,4 milhões, perto de 11% da pauta, e o milho ficou com US$ 73 milhões.
Biodiesel? US$ 3,3 milhões, todo ele vendido para a Espanha.
| Produto exportado por Passo Fundo em 2025 | Valor (US$) | Fatia do total |
|---|---|---|
| Soja em grão | 1,299 bilhão | 75,1% |
| Trigo | 183,4 milhões | 10,6% |
| Milho | 73,0 milhões | 4,2% |
| Farelo de soja | 53,5 milhões | 3,1% |
| Arroz | 43,8 milhões | 2,5% |
| Glicerina bruta | 18,9 milhões | 1,1% |
| Biodiesel | 3,3 milhões | 0,19% |
| Total do município | 1,729 bilhão | 100% |
Um detalhe chama atenção na tabela. A glicerina bruta, que sobra quando o óleo vira biodiesel, exportou quase seis vezes mais que o próprio combustível: US$ 18,9 milhões contra US$ 3,3 milhões.
O destino das exportações também é concentrado. A China comprou US$ 1,32 bilhão de Passo Fundo em 2025, ou 76% de tudo que a cidade vendeu lá fora.
Por que a maior produtora de biodiesel do Brasil quase não exporta o combustível?
Porque o biodiesel brasileiro tem freguês garantido em casa. Desde 1º de agosto de 2025, todo diesel vendido no país leva 15% de biodiesel na mistura, o B15, pela Resolução CNPE nº 9/2025, como registra a página da ANP sobre o biodiesel.
A mistura obrigatória puxa a produção para o tanque do caminhão brasileiro. Uma reportagem da agência eixos de abril de 2025 resumiu assim: a produção nacional de biodiesel é focada na demanda interna e depende dos mandatos de mistura para crescer.
Na mesma reportagem, a Be8 anunciou que a unidade de Passo Fundo foi a primeira da América do Sul certificada pela agência ambiental da Califórnia.
O presidente da empresa, Erasmo Carlos Battistella, disse à eixos que planejava a primeira grande venda para o estado americano ainda em 2025.
No Comex Stat, essa venda não aparece nas exportações com origem em Passo Fundo.
O biodiesel exportado pela cidade caiu de US$ 4,9 milhões em 2024, para a Holanda, para US$ 3,3 milhões em 2025, para a Espanha. De janeiro a setembro de 2026, foram US$ 2,2 milhões, quase tudo para a Bélgica.
O tamanho da usina da Be8 em Passo Fundo pelos números da ANP
A tabela 4.10 do Anuário Estatístico 2026 da ANP dá à planta da Be8 em Passo Fundo uma capacidade instalada de 1.500 metros cúbicos por dia.
Somadas as seis unidades da empresa no país, a Be8 chega a 4.748 m³ por dia. É o maior grupo em capacidade da lista da ANP, com 11% dos 43.264 m³ diários instalados no Brasil.
Uma ressalva, para não exagerar: a usina de Passo Fundo, sozinha, não é a maior do país. Na mesma tabela, ela aparece em quarto lugar. A maior unidade isolada é a da Potencial em Lapa (PR), com 2.500 m³ por dia.
A conta: quanto do biodiesel gaúcho cabe numa usina só
O Rio Grande do Sul foi o estado que mais produziu biodiesel em 2025: 2,24 milhões de metros cúbicos, ou 22,8% da produção nacional, pela tabela 4.11 do anuário da ANP.
Agora a usina de Passo Fundo rodando no limite o ano inteiro. São 1.500 m³ vezes 365 dias, o que dá 547,5 mil m³, ou 547,5 milhões de litros.
Isso equivale a cerca de um quarto de todo o biodiesel produzido no estado em 2025. É um teto teórico: a ANP publica capacidade por usina, não produção por usina, e nenhuma fábrica opera cheia 365 dias.
Mesmo assim, a comparação mostra a escala. Uma única planta poderia responder por um em cada quatro litros gaúchos, e quase nada disso vira dólar na balança comercial da cidade.
Por que as exportações de Passo Fundo caíram 16% em 2025?
Em 2024, a cidade tinha exportado US$ 2,06 bilhões e ficado em segundo lugar no estado, atrás só do município de Rio Grande. Em 2025, caiu para terceiro, também ultrapassada por Santa Cruz do Sul, segundo o Comex Stat.
A queda de US$ 333 milhões tem um culpado claro na planilha: a soja. As vendas do grão recuaram de US$ 1,61 bilhão para US$ 1,30 bilhão, perda de 19%.
Foi volume, mais que preço. O município embarcou 3,71 milhões de toneladas de soja em 2024 e 3,06 milhões em 2025. O valor médio por tonelada mal se mexeu, de US$ 433 para US$ 424.
Sozinha, a soja explica 93% do tombo. É o outro lado de uma economia em que três de cada quatro dólares vêm de um único grão.
E em 2026?
As exportações seguem abaixo do ano anterior. De janeiro a setembro de 2026, Passo Fundo exportou US$ 1,106 bilhão, contra US$ 1,181 bilhão no mesmo período de 2025, queda de 6,3% pelo Comex Stat.
Os meses de agosto e setembro, com US$ 246 milhões e US$ 261 milhões, foram os mais fortes do ano até aqui. Quem quiser saber se Passo Fundo recupera o segundo lugar gaúcho vai ter de esperar a colheita da próxima safra de soja.
