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O mar pode avançar mais rápido do que se imaginava: uma elevação de 1 metro no nível dos oceanos pode deixar até 132 milhões de pessoas abaixo da linha d’água, enquanto uma falha presente em mais de 99% das análises costeiras sugere que o risco real já está sendo subestimado

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 24/04/2026 às 00:50
Atualizado em 24/04/2026 às 01:04
Assista o vídeoUma elevação de 1 metro no nível do mar pode colocar até 132 milhões de pessoas abaixo da linha d’água, e um erro presente em mais de 99% das análises costeiras indica que o risco real já é maior do que o estimado
Elevação do nível do mar
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Estudo revela erro em mais de 99% das análises costeiras e indica que até 132 milhões de pessoas podem ficar abaixo do nível do mar.

Em 4 de março de 2026, um estudo publicado na Nature por Katharina Seeger e Philip S. J. Minderhoud acendeu um alerta que pode mudar de forma relevante a maneira como o mundo calcula o risco de avanço do mar sobre áreas costeiras. Ao revisar 385 estudos científicos revisados por pares, publicados entre 2009 e 2025, os pesquisadores concluíram que mais de 99% das avaliações analisadas trataram de forma inadequada a relação entre nível do mar e elevação do terreno, o que pode ter distorcido para baixo a exposição real de terras e populações costeiras.

O trabalho, conduzido por uma equipe ligada à Wageningen University & Research, à University of Cologne, à University of Padova e à Deltares, mostrou que o problema não estava necessariamente nos modelos digitais de elevação em si, mas na forma como esses dados eram comparados com referências oceânicas inadequadas. Em grande parte da literatura revisada, os estudos assumiram níveis costeiros baseados em geoides em vez de usar medições reais do mar, ignorando que o nível oceânico na costa varia conforme marés, correntes, ventos e outras condições locais.

Esse desajuste técnico, embora pareça sutil, pode alterar fortemente a estimativa global de risco. Segundo a própria Nature, o nível costeiro medido é, em média, 0,24 m a 0,27 m mais alto do que o assumido em muitos estudos, e em partes do Sul Global essa diferença pode superar 1 metro. Com a correção, uma elevação relativa hipotética de 1 metro no nível do mar faria com que 31% a 37% mais terra e 77 milhões a 132 milhões de pessoas adicionais passassem a ser consideradas abaixo do nível do mar

Diferença entre nível do mar real e modelos usados pela ciência altera estimativas globais

O ponto central do estudo está na distinção entre dois conceitos fundamentais: o nível médio do mar real e o chamado geoide, uma superfície teórica utilizada como referência em muitos modelos geodésicos.

Enquanto o nível do mar real varia de acordo com fatores como correntes oceânicas, temperatura e salinidade, o geoide representa uma média global baseada no campo gravitacional da Terra. Em muitos estudos analisados, a altitude do terreno foi comparada com o geoide, e não com o nível do mar observado localmente.

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Essa diferença pode parecer pequena, mas em regiões costeiras planas, onde poucos centímetros fazem grande diferença, o impacto é significativo.

Ao corrigir esse desvio, os pesquisadores descobriram que grandes áreas costeiras estão mais próximas do nível do mar do que se acreditava, ampliando o número de pessoas potencialmente expostas à inundação.

Revisão aponta que até 132 milhões de pessoas podem estar abaixo da linha d’água com elevação de 1 metro

Com base na correção metodológica, o estudo recalculou o impacto de uma elevação relativa de 1 metro no nível do mar. Os resultados mostram que entre 77 milhões e 132 milhões de pessoas podem viver em áreas que ficariam abaixo da linha d’água nesse cenário.

Esse intervalo reflete diferentes níveis de incerteza nos dados, mas todos os cenários apontam para um aumento significativo em relação às estimativas anteriores.

Além disso, os autores indicam que a área de terra afetada pode ser entre 31% e 37% maior do que o que vinha sendo considerado em estudos anteriores. Isso significa que o risco global não apenas existe, mas pode já estar sendo subestimado em escala planetária.

Regiões costeiras densamente povoadas concentram maior vulnerabilidade

O impacto dessa revisão é especialmente relevante em regiões onde grandes populações vivem próximas ao nível do mar. Áreas como o Sudeste Asiático, o delta do Ganges-Brahmaputra, partes da China costeira e regiões urbanas de países em desenvolvimento apresentam alta densidade populacional em zonas de baixa altitude.

Nesses locais, pequenas diferenças na medição de elevação podem significar a inclusão ou exclusão de milhões de pessoas em zonas de risco.

A correção proposta pelo estudo indica que muitas dessas regiões podem estar mais expostas do que os planejadores urbanos e governos vinham considerando.

Elevação do nível do mar é impulsionada por aquecimento global e derretimento de gelo

O aumento do nível do mar é um dos efeitos mais diretos das mudanças climáticas. Ele ocorre principalmente por dois mecanismos:

  • A expansão térmica da água do oceano à medida que aquece
  • O derretimento de geleiras e camadas de gelo na Groenlândia e na Antártida

Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o nível médio do mar já subiu cerca de 20 centímetros desde o início do século XX, e a taxa de elevação tem acelerado nas últimas décadas.

elevação do nivel do mar

Projeções indicam que, até o final do século XXI, o aumento pode chegar a valores próximos ou superiores a 1 metro, dependendo do cenário de emissões. Esse contexto torna ainda mais relevante a precisão das análises costeiras, já que decisões de adaptação dependem diretamente dessas estimativas.

Erro metodológico pode afetar políticas públicas e planejamento urbano

As estimativas de risco costeiro são utilizadas por governos, organizações internacionais e empresas para planejar investimentos em infraestrutura, proteção contra enchentes e adaptação climática.

Se essas estimativas estiverem subavaliando o risco, decisões importantes podem estar sendo tomadas com base em informações incompletas.

Isso inclui:

  • Planejamento de cidades costeiras
  • Construção de diques e barreiras
  • Definição de zonas habitacionais
  • Avaliação de risco para seguros

Uma subestimação do risco pode levar a investimentos insuficientes ou mal direcionados, aumentando a vulnerabilidade a eventos futuros.

Ajuste nos modelos pode redefinir mapas globais de risco climático

Com a correção proposta pelo estudo, mapas globais de risco costeiro podem precisar ser revisados. Isso significa que áreas anteriormente consideradas seguras podem passar a ser classificadas como vulneráveis, enquanto regiões já identificadas como de risco podem exigir medidas ainda mais urgentes.

Essa revisão não ocorre automaticamente. Ela depende da incorporação das novas metodologias em modelos climáticos, sistemas de planejamento e políticas públicas. O processo pode levar anos, mas o alerta já está colocado: o risco real pode ser maior do que o que aparece nos mapas atuais.

Impactos econômicos e sociais podem atingir escala global

A elevação do nível do mar não afeta apenas áreas isoladas, mas pode ter consequências amplas para economias e sociedades. Cidades costeiras concentram grande parte da população mundial, além de infraestrutura crítica como portos, indústrias e centros financeiros.

Inundações frequentes, perda de território e necessidade de relocação podem gerar impactos econômicos significativos.

Além disso, a migração forçada de populações pode aumentar a pressão sobre regiões internas e gerar desafios sociais e políticos. O aumento do risco identificado pelo estudo amplia a dimensão dessas possíveis consequências.

Estudo reforça importância de precisão científica em análises climáticas

Um dos principais recados da pesquisa é a importância da precisão metodológica. Pequenos erros ou simplificações em modelos podem se traduzir em grandes diferenças quando aplicados em escala global.

No caso das análises costeiras, a escolha da referência para medir altitude mostrou-se um fator crítico. A correção desse ponto pode melhorar significativamente a qualidade das previsões e apoiar decisões mais informadas.

Após a publicação do estudo, pesquisadores de diferentes áreas passaram a discutir formas de incorporar as novas abordagens em análises futuras. Isso inclui o uso de dados mais precisos de altimetria, integração com medições locais do nível do mar e revisão de metodologias utilizadas em estudos anteriores.

Embora ainda não haja consenso completo sobre todos os aspectos, há reconhecimento de que o problema identificado é relevante. O debate em andamento indica que a ciência está em processo de ajuste, mas que os impactos dessas mudanças ainda precisam ser totalmente compreendidos.

Diante desse cenário, o risco costeiro global pode estar sendo subestimado há décadas

A combinação entre elevação do nível do mar e erro metodológico nas análises cria um cenário que exige atenção. Se as estimativas atuais estiverem subavaliando o risco, isso significa que milhões de pessoas podem estar mais expostas do que se acreditava.

A questão que emerge a partir desse estudo é direta: quantas decisões ao redor do mundo foram tomadas com base em mapas que agora podem estar incompletos ou subestimados?

Diante desse novo quadro, o desafio não é apenas atualizar modelos, mas garantir que as novas informações sejam incorporadas rapidamente em políticas públicas e estratégias de adaptação, antes que o avanço do mar torne essas correções urgentes demais para serem ignoradas.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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