A população de Berezniki caiu 30% em quatro décadas, 12 mil moradores ainda serão removidos e o chão segue cedendo, mas o Brasil compra 40% do seu cloreto de potássio dessa região sem ter um plano alternativo consolidado.
Embaixo de Berezniki, nos Montes Urais, existe um esqueleto. São 390 quilômetros quadrados de túneis e cavernas escavados entre 220 e 450 metros de profundidade, o legado de décadas de mineração de potássio que transformou a cidade em capital mundial do fertilizante. O problema: esse esqueleto está cedendo, e a cidade está sendo engolida pelo próprio chão.
Uma cidade construída sobre uma armadilha soviética
A história de Berezniki começa com uma decisão que parece absurda hoje. A política soviética determinava que campos de trabalho fossem instalados ao lado das minas, sem qualquer análise de risco geotécnico. A cidade cresceu, ganhou fábricas, prédios e famílias, tudo erguido diretamente sobre uma das maiores reservas de potássio do planeta.
Por décadas, as minas trouxeram prosperidade. A Uralkali, gigante russa do setor, opera cinco minas e sete usinas nas cidades de Berezniki e Solikamsk. Após fundir-se com a Silvinit em 2011, a empresa passou a responder por 20% da produção mundial de potássio. O mineral ali extraído alimentava lavouras em todos os continentes, inclusive e especialmente o agronegócio brasileiro.
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O colapso que ninguém previu até que aconteceu

Em outubro de 2006, pequenos tremores começaram a sacudir Berezniki. A água do rio Kama havia infiltrado silenciosamente numa mina abandonada, dissolvendo os pilares de sal que sustentavam o teto das cavernas a 400 metros de profundidade. O subsolo simplesmente implodiu.
O resultado imediato foi uma cratera do tamanho de 17 campos de futebol, com profundidade suficiente para engolir um prédio de 50 andares. Em 2008, esse sumidouro já media 423 metros de comprimento, 310 de largura e 100 metros de profundidade. Em novembro de 2010, surgiu um segundo buraco, apelidado de “O Jovem”, que destruiu trecho da ferrovia e engoliu um vagão de passageiros estacionado.
Uma cidade monitorada 24 horas sem resposta para o inevitável
Hoje, Berezniki vive sob vigilância permanente. Câmeras 24 horas, sensores sísmicos e monitoramento por satélite rastreiam cada milímetro de movimentação do solo. Rachaduras atravessam paredes inteiras de edifícios residenciais. Nas cavernas não inundadas, acumulam-se bolsões de gás explosivo capazes de provocar colapsos súbitos.
Até 2018, a cidade já contabilizava 10 sumidouros ativos. Cerca de 60 blocos de apartamentos foram classificados como inabitáveis, e estimativas do setor apontam que 12 mil moradores ainda precisarão ser removidos em breve. A população, que chegou a 185 mil pessoas nos anos 1980, encolheu para 132.841 habitantes em 2025, uma queda de quase 30% em quatro décadas.

Fechar as minas não é opção
Apesar do colapso progressivo, Berezniki ainda responde por cerca de 10% da produção mundial de potássio. As minas seguem operando porque representam o único sustento econômico de toda a região. Fechar tudo significaria um colapso social imediato. A cidade vive, literalmente, de extrair o mineral que está destruindo seu próprio chão.
O Brasil está no centro dessa equação e depende demais dela
Aqui entra o dado que muda tudo para o leitor brasileiro. O Brasil é o 4º maior consumidor de fertilizantes do mundo, respondendo por 8% do total global. E 97% do potássio consumido no país é importado. Desse total, 40% vem diretamente da Rússia, uma dependência que Alberto Pfeifer, pesquisador do Insper Agro Global, define como “calcanhar de Aquiles da soberania brasileira”.
Em 2024, o Brasil gastou US$ 3,7 bilhões em fertilizantes russos, equivalente a 27% de toda a importação nacional do insumo. O cloreto de potássio, o mesmo extraído das minas sob Berezniki, representou 43% de tudo que o país importou em fertilizantes. Sem esse mineral, a produção de soja, milho e cana entra em colapso.
O que acontece com o preço da comida quando a cidade afunda de vez
Em 2022, quando a guerra na Ucrânia ameaçou o fornecimento russo, os preços internacionais de fertilizantes subiram 129% em poucos meses. Segundo pesquisa do Insper Agro Global, no curto e médio prazo a Rússia continuará sendo um fornecedor central e dificilmente substituível para o Brasil. Alternativas como Canadá e Marrocos existem, mas levariam anos para compensar o volume russo.
O Brasil compete com os EUA como maior exportador mundial de soja, e essa disputa é travada com potássio russo, extraído de uma cidade que está sendo engolida pelo subsolo. O risco geológico de Berezniki não é apenas um drama local. É uma vulnerabilidade estratégica do agronegócio nacional que raramente aparece no debate público.
O solo de Berezniki vai continuar cedendo. A questão que o Brasil ainda não respondeu é: o que acontece com nossa lavoura quando ele ceder de vez?

