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Uma cidade murada de 1.339 anos foi afogada de propósito em 1959 para erguer uma hidrelétrica, e 290 mil pessoas saíram de casa antes de a água cobrir portões, ruas e dragões de pedra

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 30/07/2026 às 18:42 Atualizado 30/07/2026 às 18:46
Cidade murada de 1.339 anos foi inundada de propósito em 1959 na China e segue quase intacta a 40 metros no Lago Qiandao.
Cidade murada de 1.339 anos foi inundada de propósito em 1959 na China e segue quase intacta a 40 metros no Lago Qiandao.
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Shi Cheng, a cidade murada de 1.339 anos que ficou no fundo do Lago Qiandao, na província chinesa de Zhejiang, foi submersa em 1959 para a construção de uma usina no Rio Xin’an. Portões, arcos e esculturas de dragões continuam lá, praticamente intactos, entre 26 e 40 metros de profundidade.

Não foi terremoto, guerra nem enchente. A cidade murada de 1.339 anos conhecida como Shi Cheng, ou Cidade do Leão, desapareceu porque alguém decidiu que ela deveria desaparecer. Em 1959, o vale onde ela ficava foi alagado de propósito para formar o reservatório da usina hidrelétrica do Rio Xin’an, na província de Zhejiang, no leste da China. Reportagem publicada por O Antagonista em 30 de julho de 2026 retomou a história.

O resultado foi o Lago Qiandao, também chamado Lago das Mil Ilhas, com 573 quilômetros quadrados e 1.078 ilhas grandes que nada mais são do que os antigos topos de montanha do vale. Cerca de 290 mil pessoas foram realocadas e mais de 1.300 vilarejos sumiram sob a água. Junto com eles foram duas cidades antigas: Shi Cheng, sede do condado de Sui’an, e He Cheng, sede do condado de Chun’an.

O que existe hoje no fundo do lago

Cidade murada de 1.339 anos foi inundada de propósito em 1959 na China e segue quase intacta a 40 metros no Lago Qiandao.
Cidade murada de 1.339 anos foi inundada de propósito em 1959 na China e segue quase intacta a 40 metros no Lago Qiandao.

As construções estão distribuídas entre aproximadamente 26 e 40 metros de profundidade, dependendo do ponto e do nível do reservatório. Mergulhadores que desceram até lá relatam portões monumentais com torres, arcos memoriais cobertos de relevos, escadarias, portas, vigas de madeira e ruas pavimentadas que ainda permitem reconhecer o traçado original.

O que mais chama atenção nas imagens é o nível de detalhe da pedra. Dragões, leões e fênix esculpidos continuam nítidos, assim como caracteres chineses talhados nas superfícies. A cidade ocupa uma área comparável a cerca de sessenta campos de futebol, o que dá a dimensão do que está submerso e explica por que o mapeamento completo nunca foi concluído.

Por que o vale foi alagado de propósito

A construção da hidrelétrica do Rio Xin’an foi um projeto estatal de grande porte, ligado ao esforço de industrialização chinês do período. O represamento do rio exigia inundar todo o vale ao pé da montanha Wu Shi, conhecida como Montanha dos Cinco Leões, que é justamente a origem do nome da cidade.

A decisão seguiu a lógica de qualquer obra desse tipo: a energia valia mais que o território. O que diferencia esse caso é o que havia no fundo do vale. Não era só terra agrícola, eram duas sedes de condado com séculos de história urbana, muralhas, templos e arcos memoriais. O enchimento do reservatório começou em setembro de 1959.

O custo humano da obra

Cidade murada de 1.339 anos foi inundada de propósito em 1959 na China e segue quase intacta a 40 metros no Lago Qiandao.
Cidade murada de 1.339 anos foi inundada de propósito em 1959 na China e segue quase intacta a 40 metros no Lago Qiandao.

O número de realocados varia conforme a publicação. A cifra mais repetida em levantamentos e reportagens especializadas é de 290 mil pessoas, mas parte das fontes internacionais arredonda para perto de 300 mil. A diferença não muda a natureza do fato: foi um dos maiores deslocamentos populacionais motivados por uma obra de infraestrutura na China daquele período.

Muitas dessas famílias viviam na região havia gerações. Todas saíram antes de a água subir, o que significa que a cidade não foi surpreendida pela inundação. Ela foi esvaziada, fechada e entregue ao reservatório. É uma diferença importante em relação às histórias de civilizações perdidas, porque aqui existe registro documental, existem sobreviventes e existe uma data.

A idade da cidade é mais discutida do que parece

Aqui entra a informação que costuma circular sem ressalva. O número de 1.339 anos vem da versão que atribui a fundação de Shi Cheng ao ano de 621, durante a dinastia Tang. É a datação mais citada e a que sustenta o apelido de cidade de quase quatorze séculos.

Existe, porém, uma segunda linha de registros que situa a origem bem antes, na dinastia Han Oriental, entre os anos 25 e 200, com o estabelecimento formal do condado por volta de 208. Parte dessa confusão vem da existência das duas cidades submersas no mesmo lago: He Cheng é reconhecidamente a mais antiga das duas. A leitura mais segura é que 1.339 anos corresponde à datação Tang de Shi Cheng, e não a um consenso arqueológico fechado. Boa parte da arquitetura de pedra hoje visível, aliás, é posterior: as muralhas remontam ao século XVI e trechos das obras em arco trazem datação do fim do século XVIII.

Cinco portões, 265 arcos e seis ruas

Cidade murada de 1.339 anos foi inundada de propósito em 1959 na China e segue quase intacta a 40 metros no Lago Qiandao.
Cidade murada de 1.339 anos foi inundada de propósito em 1959 na China e segue quase intacta a 40 metros no Lago Qiandao.

Shi Cheng tinha uma característica incomum entre as cidades muradas chinesas. Em vez dos quatro acessos que formavam o padrão, ela foi construída com cinco portões, cada um com sua própria torre. Seis ruas principais ligavam os pontos da cidade, e as vias eram de pedra, montadas com lajes e seixos.

O elemento mais fotografado, no entanto, são os arcos. Levantamentos e relatos de mergulho apontam cerca de 265 estruturas em arco espalhadas pela cidade, muitas delas memoriais, com inscrições e esculturas trabalhadas. Um dos mais conhecidos, alcançado pelos mergulhadores logo nos primeiros metros de aproximação, é o arco memorial Jie Xiao. Durante a dinastia Ming, entre 1368 e 1644, a cidade viveu seu período de maior prosperidade como polo comercial.

Por que a água preservou o que o ar teria destruído

O efeito é contraintuitivo, mas tem explicação simples. Fora da água, uma cidade abandonada em 1959 estaria hoje coberta de vegetação, com pedra corroída por chuva ácida, madeira apodrecida pela alternância de umidade e sol, e estruturas rachadas pela variação térmica entre dia e noite.

Debaixo do lago, nada disso acontece. A temperatura é estável, não há vento, não há radiação solar direta e não existe vegetação terrestre para rachar as fundações. A água fria funcionou como uma câmara de conservação acidental. Isso não quer dizer que tudo esteja idêntico a 1959: sedimentos se acumulam, organismos aquáticos colonizam superfícies, a pressão atua e há telhados e paredes danificados. Mas o contraste com o que teria sobrado na superfície é enorme.

A cidade só foi reencontrada em 2001

Cidade murada de 1.339 anos foi inundada de propósito em 1959 na China e segue quase intacta a 40 metros no Lago Qiandao.
Cidade murada de 1.339 anos foi inundada de propósito em 1959 na China e segue quase intacta a 40 metros no Lago Qiandao.

Durante mais de quatro décadas, Shi Cheng ficou basicamente esquecida. Sabia se que estava lá, porque havia registro da inundação, mas ninguém tinha ido verificar em que estado. Isso mudou em 2001, quando uma expedição organizada pelo governo chinês desceu ao fundo do Lago Qiandao para checar o que restava.

O que os mergulhadores encontraram surpreendeu inclusive quem organizou a operação: uma cidade estruturalmente inteira, com esculturas em condição próxima da original e até elementos de madeira preservados. Foi a partir daí que o local ganhou o apelido de Atlântida da China e passou a atrair equipes de documentação, com uso de sonar, mapeamento subaquático e veículos operados remotamente.

Dá para mergulhar até lá

Não é um passeio turístico comum. A descida ocorre em água doce, fria e escura, com visibilidade limitada, e em alguns pontos um único movimento de nadadeira levanta sedimento suficiente para reduzir a visão quase a zero. Mergulhadores descrevem a experiência como equivalente a um mergulho noturno profundo.

Por isso o acesso depende de autorização, de operadores especializados e de mergulhadores com experiência comprovada em profundidade e baixa visibilidade. Publicações do setor registram que o acesso turístico já sofreu restrições justamente para proteger as ruínas do desgaste causado pela visitação. Para quem quer ver algo parecido sem entrar na água, foi construída em terra firme, perto do lago, uma réplica em escala da cidade, conhecida como Wenyuan Shi Cheng.

E você, acha que valeu a pena trocar uma cidade de séculos por uma hidrelétrica? Conta aqui nos comentários se você desceria 40 metros na água escura para ver esses dragões de pedra de perto ou se prefere que o lugar continue fechado para se preservar.

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Bruno Teles

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