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Merendeira concursada desde 1990 numa escola municipal de Rondônia, premiada como a melhor do município, estudou nas horas vagas, concluiu o magistério e a faculdade de Pedagogia numa universidade federal e virou professora da mesma rede onde servia a merenda

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 30/07/2026 às 19:12 Atualizado em 30/07/2026 às 19:17
Merendeira concursada em 1990 numa escola de Vilhena, ela estudou nas horas vagas, fez Pedagogia na Unir e virou professora e diretora da mesma rede municipal.
Merendeira concursada em 1990 numa escola de Vilhena, ela estudou nas horas vagas, fez Pedagogia na Unir e virou professora e diretora da mesma rede municipal.
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Valdete Savaris entrou por concurso como merendeira numa escola municipal de Vilhena, em Rondônia, no ano de 1990. Estudou nas horas vagas, recuperou o ensino fundamental e o médio, fez o magistério, cursou Pedagogia na Universidade Federal de Rondônia e virou professora da mesma rede onde servia a merenda.

Aos 15 anos, Valdete Savaris largou a escola para sustentar a mãe idosa e três irmãos menores. Nove anos depois, em 1990, entrou por concurso público como merendeira na Escola Municipal Castelo Branco, em Vilhena, e foi ali dentro que o sonho de infância de ser professora voltou. O relato é dela própria, em texto autobiográfico publicado pela Câmara Municipal de Vilhena em novembro de 2019.

O que veio depois inverteu completamente o ponto de partida. Ela recuperou toda a escolaridade perdida estudando nos momentos livres, concluiu o magistério, cursou Pedagogia na Universidade Federal de Rondônia e chegou a assumir, em 2003, a direção da mesma escola onde tinha começado servindo a merenda. Antes disso, ainda na década de 1990, recebeu placa de honra ao mérito como melhor merendeira do município.

De Cruzeiro do Oeste a Vilhena

Valdete nasceu em 12 de dezembro de 1966, em Cruzeiro do Oeste, no Paraná, filha de Eradio Ferreira de Sousa e Guiomar Paulina de Jesus Sousa, os dois agricultores. Ainda pequena, a família migrou para a zona rural de Itaquiraí, em Mato Grosso do Sul.

A última mudança tem data exata na memória dela: 18 de agosto de 1981, quando chegaram a Vilhena, no extremo sul de Rondônia, cidade onde ela permanece desde então. Era o período de ocupação acelerada do estado, com famílias vindas do Sul e do Centro Oeste atrás de terra e trabalho. Ela tinha 14 anos e nenhuma expectativa de que a escola voltasse a fazer parte da vida dela.

Os 15 anos que interromperam os estudos

Merendeira concursada em 1990 numa escola de Vilhena, ela estudou nas horas vagas, fez Pedagogia na Unir e virou professora e diretora da mesma rede municipal.
Merendeira concursada em 1990 numa escola de Vilhena, ela estudou nas horas vagas, fez Pedagogia na Unir e virou professora e diretora da mesma rede municipal.

A separação dos pais mudou a estrutura da casa. Valdete assumiu a responsabilidade pela família, com a mãe já idosa e três irmãos mais novos para cuidar. A conta não fechava, e a escola foi a primeira coisa a sair da rotina.

O relato dela inclui uma decisão que ela mesma faz questão de registrar e que dá a medida da situação: tirou dois irmãos, de 13 e 9 anos, da escola para trabalhar em uma fábrica de portas do município. Em 1983, os três saíram dali e foram para uma laminadora e madeireira na saída de Vilhena em direção a Cuiabá. Foi nesse emprego que ela conheceu Sidnei Savaris, com quem se casou em 1986 e teve dois filhos.

O concurso de 1990 e a virada dentro da escola

A entrada na Escola Municipal Castelo Branco aconteceu por concurso público, em 1990. Merendeira é um cargo que normalmente não aparece nas histórias de ascensão profissional em educação, e é justamente ali que essa começa.

O ponto que ela destaca não é o salário nem a estabilidade, e sim o ambiente. Passar o dia dentro de uma escola, cercada de gente estudando e de colegas que incentivavam estudo, reacendeu um projeto que tinha sido abandonado aos 15 anos. Com apoio do marido e incentivo das colegas de trabalho, ela passou a usar os momentos vagos para estudar. Não houve licença, bolsa nem afastamento. Houve tempo livre convertido em escolaridade.

Como ela recuperou anos inteiros de estudo

O caminho foi feito por partes. Primeiro veio a conclusão do ensino fundamental. Depois o ensino médio, cursado pelo supletivo, modalidade destinada a quem precisa recuperar etapas fora da idade regular. Em seguida, o magistério, obtido pelo Projeto Fênix, programa voltado à formação de professores que já atuavam ou pretendiam atuar na rede sem a habilitação exigida.

Esse detalhe importa porque explica a mecânica da coisa. Não existe atalho na legislação educacional brasileira, existem modalidades desenhadas para quem ficou para trás. Supletivo, exames de certificação e programas de habilitação docente cumprem exatamente essa função, e foi por essa via que uma merendeira sem ensino fundamental completo chegou à condição de professora habilitada.

Pedagogia na Unir e as especializações

Com o magistério concluído, Valdete ingressou no curso de Pedagogia da Universidade Federal de Rondônia, a Unir. Universidade pública, curso de graduação plena, o mesmo diploma exigido de qualquer professora da educação básica no país.

Depois da graduação, ela seguiu estudando e fez especializações em orientação, supervisão e gestão escolar e em educação de jovens e adultos. A segunda área não é coincidência: é exatamente a modalidade que atende gente na situação em que ela mesma esteve aos 15 anos. Quem passou pelo supletivo foi se especializar em ensinar quem precisa do supletivo.

Da merenda à direção da mesma escola

Ao longo dos estudos, Valdete percorreu várias funções dentro da Secretaria Municipal de Educação de Vilhena. Foi merendeira, secretária escolar, monitora de ensino, professora A e professora nível III, subindo os degraus da carreira à medida que a formação avançava.

Em 2003, assumiu a direção da Escola Castelo Branco, a mesma unidade onde tinha entrado treze anos antes para trabalhar na cozinha. Depois disso, foi a primeira diretora da Escola Marcos Donadon, atuou como secretária adjunta de Ação Social entre 2007 e 2008 e, a partir de 2009, trabalhou como orientadora educacional. Permaneceu nessa função até 30 de março de 2019, quando pediu aposentadoria por tempo de serviço e contribuição.

O capítulo político veio depois

A trajetória na educação abriu uma segunda carreira. Em 2012, convidada pela direção municipal do partido ao qual era filiada, então chamado PPS, Valdete se candidatou a vereadora em Vilhena e foi eleita com 611 votos.

Nas eleições de 2016, ficou como primeira suplente da coligação A Vontade do Povo 2. Assumiu a cadeira depois da renúncia do vereador Junior Donadon e passou a integrar a legislatura de 2017 a 2020, período em que o PPS se transformou em Cidadania. Nas atas da Câmara e no noticiário local, ela aparece pelo nome com o qual ficou conhecida na cidade: Professora Valdete. É o apelido de alguém que entrou no serviço público pela cozinha de uma escola.

O que essa história tem de incomum

Vale registrar o que a torna rara sem exagerar o alcance dela. Não se trata de uma exceção mágica: cada etapa que Valdete cumpriu existe na legislação e está disponível para milhões de brasileiros. Supletivo, programas de habilitação docente e universidade pública são política educacional, não sorte.

O que é incomum é a soma de três coisas ao mesmo tempo: manter um emprego de jornada integral, criar dois filhos e atravessar do ensino fundamental incompleto até a especialização, tudo em cerca de duas décadas e sem sair da mesma rede municipal. A história não prova que qualquer pessoa consegue, prova que o caminho existe e que percorrê lo custa muito. Ela credita boa parte do resultado ao apoio do marido e das colegas de trabalho, e essa parte também costuma ficar de fora quando o assunto vira frase de efeito.

E você, conhece alguém que voltou a estudar já adulto trabalhando o dia inteiro? Conta aqui nos comentários como foi, e diga também se acha que as escolas brasileiras valorizam o suficiente quem trabalha na cozinha, na limpeza e na portaria.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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