Acordava às 5h30, pegava ônibus, metrô e trem para chegar ao cursinho e estudava antes de a aula começar. O resultado foram quatro aprovações em Medicina no mesmo período, duas delas em primeiro lugar na Universidade de Brasília, com renda familiar entre R$ 2 mil e R$ 3 mil.
Isabella Melquiades Carvalho Lopes, de 20 anos, conquistou quatro aprovações em Medicina de uma só vez, entre elas o primeiro lugar na Universidade de Brasília pelo sistema de cotas para pessoas de baixa renda, tanto no vestibular tradicional quanto no Programa de Avaliação Seriada, o PAS. Ela é filha de um pedreiro e de uma dona de casa e estudou a vida inteira em escola pública.
A trajetória dela foi contada em reportagem do Correio Braziliense, publicada em fevereiro de 2025. Além das duas primeiras colocações na universidade de Brasília, ela foi aprovada em Medicina na Universidade Federal de Uberlândia pelo Sisu e garantiu bolsa integral pelo ProUni na Universidade Católica de Brasília. Sobre o momento em que viu o resultado, resumiu dizendo que ficou em choque, repetindo várias vezes que havia passado.
As quatro aprovações, uma por uma
O número quatro não é figura de linguagem, é a soma de processos distintos. O primeiro é o vestibular tradicional da Universidade de Brasília, em que ela ficou em primeiro lugar em Medicina pelas cotas de baixa renda. O segundo é o PAS, sistema de avaliação seriada da mesma universidade, em que também terminou na primeira colocação.
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Os outros dois vieram de instituições diferentes. Pelo Sistema de Seleção Unificada, ela foi aprovada em Medicina na Universidade Federal de Uberlândia, em Minas Gerais. E pelo Programa Universidade para Todos conquistou bolsa integral na Universidade Católica de Brasília, instituição privada. Quatro portas abertas ao mesmo tempo para um curso que costuma ser o mais disputado do país.
Por que duas aprovações são na mesma universidade
Vale explicar esse detalhe, porque ele confunde quem não conhece o sistema do Distrito Federal. A Universidade de Brasília oferece duas formas principais de ingresso, e é possível concorrer pelas duas ao mesmo tempo, com resultados independentes.
O vestibular tradicional é a prova única, feita ao fim do ensino médio. O PAS é diferente: aplica provas ao longo dos três anos do ensino médio, e a nota final combina os três desempenhos. Ficar em primeiro lugar em Medicina nas duas modalidades significa ter mantido desempenho alto durante todo o ensino médio e também na prova única, exigências que testam coisas distintas.
A nota de redação que quase bateu o teto

Um número específico ajuda a entender o tamanho do resultado. Na redação do vestibular da Universidade de Brasília, ela alcançou 9.875 pontos de um total de 10 mil, o que representa pouco mais de 98% do máximo possível naquela prova.
Redação é justamente onde muitos candidatos perdem posição em cursos como Medicina. Em uma disputa decidida por décimos, uma redação quase perfeita funciona como reserva de vantagem sobre quem acerta o mesmo número de questões objetivas. O desempenho não veio por sorte: a rotina de estudo dela incluía escrever textos e corrigir provas todas as tardes.
Cinco e meia da manhã, ônibus, metrô e trem
O deslocamento diário é a parte da história que raramente aparece nas manchetes de aprovação. Para chegar ao cursinho, ela pegava um ônibus até o metrô e depois um trem até o local da aula, percurso que consumia cerca de uma hora em cada sentido.
O despertador era ajustado para 5h30, e a chegada acontecia por volta de 6h40, bem antes do início das aulas. Esse intervalo não era folga, era estudo: ela usava o tempo antes da aula para revisar matérias. Duas horas de transporte por dia, somadas às horas de estudo, transformam a preparação para Medicina em jornada de trabalho integral.
A técnica que ela mesma resume em uma frase
Perguntada sobre método, a resposta foi curta e sem mistério. Sentar na cadeira e estudar, disse ela, tratando como simples aquilo que a maior parte dos candidatos considera a parte mais difícil do processo.
Na prática, o dia tinha divisão clara. Da manhã até o meio dia, aulas no cursinho e resolução de questões. À tarde, simulados, correção de provas e produção de textos. É um desenho de rotina que separa conteúdo novo de treino de aplicação, e essa separação é justamente o que a maioria dos estudantes de Medicina bem colocados descreve como decisivo.
A bolsa que abriu a porta do cursinho
Nada disso teria acontecido dentro de um cursinho pago com dinheiro da família. Ela conseguiu uma bolsa de 100% em um cursinho especializado em Medicina, o Fleming, por meio do projeto Gauss, organização não governamental que investe na educação de jovens com poucas oportunidades.
O caminho até a bolsa passou por outra iniciativa gratuita. Ela conheceu o Gauss através de um cursinho comunitário de Brasília, o Galt, que divulgou a oportunidade no grupo dos alunos. A seleção tinha três etapas, prova, redação e entrevista, e a bolsa incluía auxílio de transporte e alimentação. Sem o transporte pago, aquela viagem diária de duas horas simplesmente não caberia na renda da casa.
Escola pública, três endereços e uma sala de aula
O percurso geográfico dela acompanha o de muita gente no Distrito Federal. Nasceu em Ceilândia, morou a maior parte da vida em Samambaia e hoje mora em Taguatinga Norte, região onde a família se estabeleceu.
A escolarização foi inteira na rede pública. Ela cursou o ensino fundamental e o médio no Centro de Ensino Médio Ave Branca, em Taguatinga Sul, e só entrou em contato com preparação especializada em Medicina no terceiro ano, quando conseguiu a bolsa. Um único ano de cursinho contra anos de preparação paga é a assimetria que define esse tipo de disputa, e é contra ela que o resultado precisa ser lido.
O custo que não aparece na foto da aprovação

A irmã mais velha, Aurora Lopes, de 24 anos, acompanhou o processo de perto e descreveu o outro lado da rotina. Segundo ela, a estudante atingiu um nível de exaustão tão grande que chegou a chorar de cansaço, em uma sequência de provas atrás de provas em que às vezes ficava por pouco sem passar.
O relato da família ajuda a desmontar a narrativa fácil de superação sem custo. Todos em casa viam o sofrimento dela, conta a irmã, e a aprovação foi tratada como festa e também como alívio. Preparação para Medicina em regime de dedicação total cobra um preço físico e emocional, e esse preço costuma desaparecer quando a história vira apenas manchete de resultado.
Um pedreiro, uma dona de casa e três filhos na universidade

A composição da família explica muito do caso. O pai, Brás Lopes, de 61 anos, é pedreiro. A mãe, Arlete Carvalho, de 51, é dona de casa. Os três filhos chegaram à universidade, e a mais velha abriu o caminho antes de a mais nova entrar em Medicina.
Aurora foi a primeira da família a entrar na faculdade e hoje é formada em pedagogia pela Universidade de Brasília. O filho mais novo, Otávio, de 18 anos, estuda engenharia aeroespacial na mesma instituição. Três filhos de um pedreiro em uma universidade federal, em cursos de alta concorrência, resultado que o pai atribui ao esforço da casa em manter os estudos como prioridade.
R$ 2 mil a R$ 3 mil por mês para sustentar a casa
O dado de renda dá dimensão ao esforço por trás das quatro aprovações em Medicina. Segundo o pai, a família vive com algo entre R$ 2 mil e R$ 3 mil por mês, valor que varia conforme o volume de serviço na construção civil, e conta com auxílios do governo para transporte e outras despesas.
A história dele começa antes disso. Brás saiu de Minas Gerais e chegou a Brasília em 1976, ainda adolescente, e foi para a construção civil. Ele conta que na época era difícil sem estudo, que tentou estudar e não conseguiu, e lembra que a filha mais velha passava em frente a escolas particulares querendo estudar sem que houvesse dinheiro para pagar. Não podíamos pagar escola particular nem transporte escolar, mas sempre fizemos o possível para que eles estudassem, resumiu.
De onde veio a vontade de cursar Medicina
O interesse é antigo e bem específico. Desde os 9 anos, ela conta que gostava de assistir a partos e admirava a profissão. A irmã confirma que o fascínio começou cedo, com vídeos de parto e uma concentração incomum em um assunto tão específico para uma criança daquela idade.
A confirmação veio de um episódio doméstico. Ela relata que teve certeza da escolha ao ver a mãe passar muito mal na frente dela, em um mal súbito, sem saber o que fazer para ajudar. Foi essa sensação de impotência que fixou a decisão, e é ela que aparece na frase em que a estudante diz que saber que pode ajudar alguém já faz tudo valer a pena.
A escolha final e o sonho da cardiologia
Com quatro aprovações na mão, ela precisou escolher uma. Ficou com Medicina na Universidade de Brasília, instituição onde os dois irmãos também estudaram, e disse que a expectativa é aproveitar ao máximo o que a universidade tem a oferecer.
A especialidade pretendida já tem nome. Ela fala em cardiologia, área que descreve como fascinante e de grande impacto na vida das pessoas. Entre a decisão da menina de 9 anos que assistia a partos e o sonho da cardiologia existe uma década de mudança de interesse, movimento comum entre estudantes que entram no curso e vão descobrindo as especialidades ao longo da formação.
O que as cotas fizeram e o que elas não fizeram nesse caso
Vale precisar o papel da política de acesso na história, porque esse ponto é sempre disputado. Ela ingressou pela modalidade de cotas para pessoas de baixa renda, que reserva parte das vagas para candidatos dentro de um limite de renda familiar comprovada.
O detalhe que muda a leitura é a colocação. Ela não apenas passou dentro da reserva de vagas, ficou em primeiro lugar em Medicina nas duas formas de ingresso da universidade. A cota definiu em qual fila ela concorreu, não o desempenho dela dentro dessa fila, e é essa distinção que costuma se perder no debate público sobre o assunto.
A data que muda a leitura desta história
Um registro necessário para quem lê hoje. As aprovações e a reportagem são de fevereiro de 2025, referentes ao ingresso naquele ano, e não a um resultado desta temporada de vestibulares.
Isso significa que a estudante já está em curso na graduação, e não mais na expectativa da matrícula. A rotina descrita aqui é a de preparação, não a de quem já cursa Medicina, e não há informação atualizada sobre o andamento do curso, sobre permanência na universidade ou sobre a confirmação da escolha pela cardiologia.
E você, acha que dá para competir em condições assim
O caso coloca duas leituras na mesma mesa, e as duas fazem sentido. Uma enxerga mérito individual em estado puro: escola pública, um ano de cursinho, duas horas de transporte por dia e primeiro lugar no curso mais concorrido do país. A outra enxerga o tamanho do obstáculo, porque a mesma história depende de uma bolsa concedida por uma ONG, de auxílio de transporte e alimentação e de uma política de reserva de vagas para que a disputa acontecesse.
Agora queremos ouvir você. Você acha que casos como esse provam que esforço basta, ou mostram justamente que sem bolsa, cota e transporte pago o talento não chega à prova? E se você tentou Medicina ou outro curso concorrido saindo de escola pública, o que faltou mais na sua preparação: conteúdo, tempo ou dinheiro para se deslocar? Comenta aqui embaixo.
