Ketlly Cristina da Silva conciliou o serviço braçal nas ruas de Várzea Grande com a faculdade financiada pelo Fies, enfrentou falta de dinheiro para transporte e chegou a estudar depois da meia-noite. Formada em 2021, ela trocou a limpeza urbana pela área jurídica e, dois anos depois, recebeu a carteira de advogada.
Durante o dia, Ketlly Cristina da Silva empurrava o carrinho de limpeza e varria ruas sob o calor de Várzea Grande, na região metropolitana de Cuiabá, em Mato Grosso. À noite, tomava banho às pressas, subia na bicicleta e percorria aproximadamente 5,5 quilômetros até a faculdade de Direito.
O trajeto completo, considerando a ida e a volta, chegava a cerca de 11 quilômetros por dia. As aulas terminavam tarde, e Ketlly geralmente retornava para casa entre meia-noite e 1h, poucas horas antes de recomeçar a rotina de trabalho.
A jovem tinha 25 anos quando sua formação ganhou repercussão nacional, em agosto de 2021. Segundo informações publicadas pelo UOL, ela concluiu a graduação enquanto ainda ocupava o cargo público de gari e se tornou a primeira pessoa de sua família a receber um diploma universitário.
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O diploma não encerrou o percurso. Depois de trabalhar na Procuradoria do Município, participar da Comissão de Direitos Humanos da OAB de Mato Grosso e prestar o Exame de Ordem, Ketlly recebeu sua carteira profissional em setembro de 2023.
O concurso para gari ofereceu a estabilidade necessária para manter a faculdade
Antes de ingressar no serviço público, Ketlly trabalhava como vigia em uma escola. Ela também vendia cremosinho nas ruas durante parte do dia para completar a renda, mas temia perder o emprego e não conseguir continuar pagando os custos relacionados à graduação.

Quando a Prefeitura de Várzea Grande abriu concurso para gari, ela enxergou no cargo uma possibilidade de estabilidade. Mesmo ouvindo de pessoas próximas que dificilmente seria aprovada, fez a prova, conseguiu a classificação e assumiu a função quando já cursava Direito.
O trabalho envolvia esforço físico, exposição ao sol e dificuldades básicas, como encontrar um banheiro durante o expediente. Conforme relatado pelo portal jurídico Migalhas, Ketlly também sentia dores no ombro devido a um acidente de motocicleta e chegou a ser deslocada temporariamente para trabalhar como recepcionista enquanto se recuperava.
A mudança reduziu parte do desgaste físico, mas não alterou a jornada dupla. Depois do expediente, ela seguia para a faculdade e, ao voltar para casa, ainda precisava preparar trabalhos e revisar o conteúdo das disciplinas.
Sem dinheiro para o ônibus, a bicicleta virou parte da rotina universitária
A bicicleta não representava uma escolha esportiva ou uma tentativa de economizar tempo. Era o meio disponível para chegar à instituição de ensino quando o orçamento da família não permitia pagar as passagens de ônibus todos os dias.
Nos períodos de chuva intensa, Ketlly recorria ao transporte coletivo. Nos demais dias, fazia o percurso entre o bairro Cristo Rei e a região da Avenida Beira Rio, em Cuiabá, carregando o cansaço acumulado pelo trabalho realizado desde a manhã.
A mensalidade da instituição particular foi viabilizada por meio do Fundo de Financiamento Estudantil, o Fies. O programa federal financia cursos superiores não gratuitos avaliados pelo Ministério da Educação, permitindo que estudantes sem recursos para arcar imediatamente com as mensalidades tenham acesso à graduação.
O financiamento resolveu uma parte do custo, mas não cobria transporte, alimentação e materiais acadêmicos. Ketlly relatou que, em diferentes momentos, faltou dinheiro até para o lanche, obrigando-a a organizar a rotina com o pouco que recebia.
Mesmo assim, ela continuou frequentando as aulas. A frase repetida durante aquele período resumia a estratégia adotada diante das dificuldades: “O não a gente sempre tem, mas vamos procurar o sim”.
A morte do pai levou Ketlly a buscar respostas no Direito
A escolha do curso estava ligada a um episódio ocorrido quando Ketlly ainda era criança. Seu pai morreu durante uma rebelião no antigo Presídio Pascoal Ramos, e sua mãe precisou criar três filhos sozinha, sustentando a casa com trabalhos como diarista.
Sem orientação jurídica, a família não procurou medidas de reparação ou assistência relacionadas à morte ocorrida dentro da unidade prisional. Anos depois, Ketlly passou a enxergar naquela falta de informação uma das causas das dificuldades enfrentadas por sua mãe.
O objetivo de estudar Direito nasceu da vontade de impedir que outras pessoas perdessem benefícios, indenizações ou garantias legais simplesmente por não conhecerem os caminhos disponíveis. Ainda como bacharel, ela já orientava conhecidos que enfrentavam cortes de benefícios, problemas com aposentadorias e dúvidas sobre serviços públicos.
A experiência pessoal também direcionou seu interesse para a defesa de pessoas vulneráveis. Pouco depois da graduação, a OAB-MT convidou Ketlly para integrar a Comissão de Direitos Humanos da seccional, formalizando sua entrada no grupo em 24 de setembro de 2021.
A formatura abriu uma porta dentro da Procuradoria de Várzea Grande

A repercussão da história colocou Ketlly diante de oportunidades que antes pareciam distantes. Escritórios de advocacia demonstraram interesse em contratá-la, mas a primeira experiência profissional na área jurídica surgiu dentro da administração municipal.
Ela foi chamada para trabalhar na Procuradoria-Geral de Várzea Grande. A nomeação permitiu que deixasse a limpeza urbana e acompanhasse, na prática, processos, procedimentos administrativos e demandas jurídicas do município.
A mudança de função não significava que Ketlly já pudesse exercer plenamente a advocacia. A conclusão do curso concede o título de bacharel em Direito, mas a atuação como advogada depende da aprovação no Exame da Ordem e da inscrição profissional na OAB.
Naquele momento, ela também cuidava de um filho ainda bebê e contava com o apoio da mãe e dos irmãos. A mãe, que havia interrompido os estudos ainda no ensino fundamental, foi apontada por Ketlly como uma das principais incentivadoras da graduação.
Dois anos depois, a antiga gari recebeu a carteira de advogada
Ketlly continuou estudando para o Exame da Ordem após começar a trabalhar na Procuradoria. A aprovação veio depois de tentativas, receios e da pressão financeira de quem ainda não tinha condições de abrir o próprio escritório.
Em 14 de setembro de 2023, ela recebeu a carteira da OAB durante uma cerimônia na Subseção de Várzea Grande. Ao relembrar o percurso, falou sobre o preconceito enfrentado no trabalho, os períodos de falta de comida e as ocasiões em que pessoas estranhavam o fato de uma gari cursar Direito.
A inscrição profissional também aparece em documento oficial da OAB-MT. A relação de profissionais aptos publicada pela entidade em 2024 registra Ketlly Cristina da Silva na Subseção de Várzea Grande, com a inscrição 33392/O.
Entre os registros públicos mais recentes localizados sobre sua trajetória está uma homenagem realizada em agosto de 2025. Ketlly recebeu uma moção de aplausos na Assembleia Legislativa de Mato Grosso durante uma sessão dedicada ao Dia do Advogado, reconhecimento entregue pelo deputado estadual Fábio Tardin, que também trabalhou como gari antes de ingressar na política.
A jovem que atravessava duas cidades de bicicleta para assistir às aulas conseguiu transformar a estabilidade de um concurso de nível básico no ponto de partida para uma carreira jurídica. A rotina sob o sol, as chegadas depois da meia-noite e a falta de dinheiro não desapareceram de sua história, mas deixaram de determinar até onde ela poderia chegar.
O que mais chama sua atenção na trajetória de Ketlly: a rotina de trabalho, os 11 quilômetros percorridos de bicicleta ou a decisão de continuar estudando mesmo sem dinheiro para o transporte? Deixe seu comentário e conte se você conhece outra pessoa que também precisou conciliar trabalho pesado e faculdade.
