Kivalina é uma faixa de areia no Mar de Bering onde vivem 400 indígenas inuit. O recuo do gelo ártico destruiu a proteção natural da costa e engenheiros já previam que a vila seria inabitável até 2025. O mega projeto de realocação custa até US$ 400 milhões e, até a publicação do relato da BBC em 2013, nenhum fundo público havia sido destinado à obra.
Quase ninguém nos Estados Unidos conhecia Kivalina antes da crise climática tornar a vila impossível de ignorar. Situada numa faixa estreita de areia no Mar de Bering, no Alasca, a comunidade inuit de 400 pessoas vivia há gerações da caça e da pesca num equilíbrio mantido pelo gelo espesso que protegia a costa das tempestades. Nas últimas duas décadas, esse equilíbrio começou a desaparecer. O recuo dramático do gelo ártico expôs a faixa de areia ao poder das tempestades de outono e inverno, que foram reduzindo o território da vila progressivamente, necessitando de um mega projeto, segundo reportagem de Stephen Sackur publicada pela BBC em julho de 2013.
Um mega projeto de realocação foi cogitado como única saída viável. O governo americano estimou que transferir os moradores de Kivalina para outro local custaria até US$ 400 milhões, valor que inclui a construção de estrada, casas e uma escola numa região de acesso extremamente difícil. Na época da reportagem da BBC, não havia sinal de que esse dinheiro viria de fundos públicos. Engenheiros do Exército americano já previam que Kivalina seria inabitável até 2025. A data passou. A discussão sobre quem paga pela mudança continua.
Uma faixa de areia que o gelo segurava no lugar

Mas a geografia que tornava a vila invisível nos mapas também explicava sua vulnerabilidade: uma língua de areia estreita no Mar de Bering, sem nenhuma proteção natural além da camada de gelo que se formava no outono e permanecia até o fim do inverno.
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Esse gelo funcionava como um amortecedor entre a costa e as tempestades, absorvendo a força das ondas antes que chegassem à terra.
Com o recuo do gelo ártico acelerado nas últimas décadas, esse amortecedor deixou de existir nos momentos críticos.
As tempestades de outono e inverno, que antes encontravam o gelo como primeira barreira, passaram a atingir a costa diretamente. A erosão se acelerou.
A faixa de areia encolheu. Em 2008, engenheiros do Exército americano construíram um muro ao longo da praia para tentar deter o avanço da água, mas, segundo a reportagem da BBC, a medida funcionou apenas como paliativo.
Uma tempestade particularmente violenta dois anos antes da reportagem forçou uma evacuação de emergência de toda a comunidade.
O Ártico americano aquece duas vezes mais rápido

Registros de temperatura mostram que a região ártica do Alasca está aquecendo em velocidade duas vezes maior do que o restante dos Estados Unidos, segundo dados citados pela BBC.
Além de Kivalina, outros três assentamentos inuit enfrentavam destruição iminente na época da reportagem, e outros oito corriam riscos sérios.
O padrão é o mesmo em todos: recuo do gelo, aumento do nível do mar e erosão costeira combinados numa pressão que as comunidades não têm condições de resistir sozinhas.
Em Barrow, a cidade mais ao norte do território americano e mais próxima do Polo Norte do que de Washington, o impacto se manifestou de forma diferente.
Os caçadores de baleias-da-groenlândia e focas, pertencentes à tribo Inupiat, relataram que o gelo havia começado a derreter e se quebrar em março, depois recongelou, mas estava tão fino e instável que os barcos de caça não conseguiram ser colocados sobre ele.
A estação de caça foi perdida. Herman Ahsoak, um dos capitais baleeiros mais experientes da cidade, disse à BBC que o gelo costumava ter 3 metros de espessura no inverno e havia reduzido para pouco mais de um metro.
Pela primeira vez em décadas, nenhuma baleia-da-groenlândia foi capturada em Barrow naquele ano.
O mega projeto que ninguém sabe quem vai pagar

Não há estradas para transportar materiais.
Não há infraestrutura preexistente no local de destino. Cada poste, cada cano, cada fundação precisa ser construída do zero num ambiente de temperaturas extremas, acessível principalmente por via aérea ou fluvial.
O governo americano estimou que esse mega projeto custaria até US$ 400 milhões, um valor que inclui a construção de estrada, casas e escola para uma população de 400 pessoas numa das regiões mais remotas do país.
A líder da assembleia de Kivalina, Colleen Swan, descreveu a situação com clareza à BBC: “Se ainda estivermos aqui em 10 anos, ou esperamos pela enchente e morremos ou saímos e vamos para outro lugar.”
Ela também contextualizou a responsabilidade histórica pelo problema: segundo Swan, o governo americano impôs o estilo de vida ocidental às tribos indígenas do Alasca, criou as condições para a dependência de estruturas fixas numa terra que a mudança climática agora torna inabitável, e não apresentou um plano claro para a realocação.
Os inuit de Kivalina estão pagando o preço por um problema que, nas palavras da própria liderança da comunidade, não foram eles que criaram.
O paradoxo do petróleo: combustível que aquece o Ártico
Enquanto comunidades inuit perdem o chão sob os pés, o Alasca continua sendo um dos maiores produtores de combustível fóssil dos Estados Unidos.
A Encosta Norte do Alasca abriga o maior campo de petróleo do país, e o oleoduto Trans-Alasca é peça central da estratégia de segurança energética americana.
Os lucros da indústria petrolífera equivaliam, à época da reportagem, a mais de 90% do orçamento estadual. Cada morador do Alasca recebia anualmente uma parcela desses lucros, e o estado não cobrava imposto de renda.
Quando a BBC perguntou ao vice-diretor do Departamento de Recursos Naturais do Alasca, Ed Fogels, sobre a tensão entre mudança climática e expansão da produção de petróleo, a resposta foi direta: “Nós estamos desenvolvendo nossos recursos naturais há 50 anos. As coisas estão muito bem, obrigado.”
A empresa Shell havia feito um lance para explorar petróleo no oceano Ártico, apesar de resistência de grupos ambientais. Kate Moriarty, diretora executiva da Federação de Petróleo e Gás do Alasca, estimou à BBC que o estado poderia ter cerca de 50 bilhões de barris ainda não explorados.
um mesmo território convivem a comunidade que perdeu a caça de baleias e a indústria que expande a extração do produto associado à causa do problema.
O custo humano que os números não capturam
Os US$ 400 milhões estimados para o mega projeto de realocação descrevem a logística de mover estruturas físicas.
O que eles não capturam é o custo cultural de deslocar uma comunidade que ocupa o mesmo território há gerações e cuja identidade está construída sobre uma relação específica com o mar, o gelo e os ciclos de caça que aquele ambiente proporcionava.
Os inuit de Kivalina não são apenas habitantes de uma faixa de areia. São uma comunidade cujas práticas, conhecimentos e memória coletiva dependem daquele lugar específico.
Mover as casas é tecnicamente possível, caro e logisticamente complexo. Mover a relação de quatro séculos com um território é outra questão, que nenhum orçamento de mega projeto cobre.
A mudança climática, nesse sentido, não destrói apenas infraestrutura: destrói contextos culturais inteiros que não podem ser reconstruídos em outro lugar simplesmente porque as estruturas físicas foram transferidas.
Kivalina pode ser a primeira de muitas comunidades costeiras nos Estados Unidos a enfrentar esse dilema sem solução orçamentária definida.
O que acontece quando o mar chega antes da verba
A reportagem da BBC foi publicada em 2013 com a projeção de que Kivalina seria inabitável até 2025. O prazo passou.
A vila ainda existia, mas as condições de erosão e vulnerabilidade climática que os engenheiros identificaram não desapareceram com a mudança de data no calendário.
O problema estrutural permanece: a proteção do gelo não voltou, as tempestades continuam atingindo a costa sem amortecimento e a faixa de areia não recuperou o que perdeu para a erosão.
O debate sobre quem financia o mega projeto de realocação também não foi resolvido. Comunidades indígenas remotas têm pouca capacidade de mobilizar recursos políticos na escala necessária para um investimento de centenas de milhões de dólares.
O governo federal americano reconhece o problema mas não comprometeu o financiamento.
O governo estadual do Alasca tem como prioridade declarada a expansão da produção de petróleo.
Entre o reconhecimento do problema e a ação concreta, são os 400 moradores de Kivalina que vivem a espera.
Uma comunidade de 400 pessoas que não criou o problema climático está pagando o custo mais alto por ele. O governo americano tem obrigação de financiar integralmente o mega projeto de realocação de Kivalina, ou a responsabilidade é mais difusa do que isso? Comunidades indígenas em zonas de risco climático ao redor do mundo deveriam ter tratamento prioritário nas políticas internacionais de adaptação? Deixe sua opinião nos comentários.

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