Formação Smackover, no Arkansas, pode conter até 19 milhões de toneladas de lítio, segundo o USGS, e já atrai gigantes como a Exxon para a corrida por baterias.
Durante mais de um século, a Formação Smackover foi associada principalmente a petróleo, gás natural e produção de bromo. Agora, essa mesma estrutura geológica passou a chamar atenção por outro motivo: ela pode abrigar uma das maiores concentrações de lítio em salmoura já identificadas nos Estados Unidos. Segundo o USGS, as salmouras profundas da região sul do Arkansas contêm entre 5,1 milhões e 19 milhões de toneladas métricas de lítio. O próprio órgão ressalta que esse volume representa um recurso geológico in place, e não uma reserva economicamente recuperável já comprovada.
A descoberta ganhou relevância porque o lítio é peça central das baterias recarregáveis usadas em carros elétricos, sistemas de armazenamento de energia e eletrônicos. Segundo o USGS, o intervalo calculado para a Smackover equivale a algo entre 35% e 136% da estimativa atual de recursos de lítio dos Estados Unidos, o que explica por que a região saiu do radar da indústria de energia tradicional e entrou no centro da disputa por minerais críticos.
Lítio do Arkansas não está em mina tradicional, mas dissolvido em salmouras profundas
O aspecto mais incomum da descoberta está na forma como esse lítio aparece no subsolo. Em vez de estar concentrado em uma mina de rocha dura, como ocorre em parte da Austrália, ou em salares, como na América do Sul, o lítio da Smackover está dissolvido em salmouras subterrâneas profundas. Segundo o USGS, a formação se estende por partes de Arkansas, Texas, Louisiana, Mississippi, Alabama e Flórida, mas as concentrações mais altas identificadas no estudo aparecem no sul do Arkansas.
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O órgão explica que essas águas subterrâneas já são trazidas à superfície há décadas como parte das atividades de petróleo, gás e bromo.

USGS.gov
Em 2022, cerca de 5 mil toneladas métricas de lítio dissolvido chegaram à superfície nessas salmouras como parte do fluxo já existente da indústria local, o que ajuda a mostrar por que a região passou a ser vista como uma oportunidade industrial concreta e não apenas como curiosidade geológica.
USGS usou aprendizado de máquina para mapear a distribuição do lítio na Smackover
A estimativa não nasceu de algumas perfurações isoladas. Segundo o USGS, os pesquisadores combinaram dados químicos de amostras de salmoura com um modelo de aprendizado de máquina para prever a distribuição do lítio ao longo da formação geológica.
O método permitiu criar mapas de concentração e estimar quanto lítio pode estar presente no sistema subterrâneo do sul do Arkansas.
O ponto central do estudo é justamente esse: ele mede quanto lítio existe no subsolo, mas não responde automaticamente quanto desse volume poderá ser extraído com lucro.
O próprio USGS enfatiza que a estimativa não considera a viabilidade tecnológica ou econômica da extração e, por isso, não deve ser confundida com reserva pronta para produção comercial.
Descoberta no Arkansas pode reduzir dependência externa dos Estados Unidos
A importância estratégica da Smackover vai muito além da geologia. Se uma parte relevante desse lítio puder ser extraída comercialmente, os Estados Unidos poderão fortalecer a produção doméstica de um mineral essencial para a cadeia das baterias.

Segundo o USGS, a escala do recurso identificado ajuda a entender por que o Arkansas passou a ser visto como peça importante no esforço americano para ampliar a oferta nacional de minerais críticos.
Esse potencial ficou ainda mais evidente porque a descoberta coincide com a corrida industrial por carros elétricos, armazenamento de energia e manufatura local de baterias. A lógica é simples: quanto maior a capacidade de produção doméstica, menor a vulnerabilidade diante de cadeias externas concentradas em poucos países.
Grande dúvida não é a presença do lítio, mas a viabilidade econômica da extração
O entusiasmo em torno da Smackover não elimina a principal incerteza do projeto: a viabilidade econômica.
O fato de existir muito lítio dissolvido no subsolo não significa, por si só, que ele poderá ser transformado em baterias de forma competitiva diante de produtores já estabelecidos em países como Austrália, Chile, Argentina e China.
É justamente aí que entra a aposta nas tecnologias de extração direta de lítio. Empresas e investidores apostam que esses métodos poderão separar o mineral das salmouras profundas sem depender de grandes lagoas de evaporação, encurtando prazos e reduzindo parte do custo operacional. Mas essa promessa ainda precisa se sustentar em escala comercial robusta.
Antigo mar jurássico virou peça da disputa global por baterias
A ironia geológica é poderosa. Uma formação criada em um antigo ambiente marinho do Jurássico e explorada por décadas por causa de petróleo, gás e bromo agora passou a ser tratada como possível fonte de um dos minerais mais estratégicos da transição energética.
A Formação Smackover deixou de ser apenas uma estrutura relevante para a energia fóssil e se transformou em ativo potencial da nova economia das baterias.
Se a tecnologia de extração direta funcionar como o setor promete, o Arkansas pode se consolidar como uma das áreas mais importantes do lítio americano nas próximas décadas.
Mas, por enquanto, o dado central continua sendo este: segundo o USGS, o lítio está lá, em escala gigantesca. O que ainda está em aberto é quanto desse volume poderá realmente sair das salmouras e entrar na indústria.


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