Cientistas descobriram sob o Glaciar Denman, na Antártida Oriental, o ponto mais profundo de terra firme do planeta, escondido sob quilômetros de gelo.
Quando se fala nos lugares mais profundos da Terra, a imagem mais comum é a das grandes fossas oceânicas do Pacífico. Mas um dos abismos mais impressionantes do planeta não está no oceano aberto. Ele está escondido sob quilômetros de gelo na Antártida Oriental, abaixo do Glaciar Denman, em uma região que permaneceu invisível por milhões de anos. Segundo a University of California, Irvine, os novos mapas do projeto BedMachine Antarctica revelaram que o cânion enterrado sob o Denman chega a 3.500 metros abaixo do nível do mar, o ponto mais profundo já identificado em terra firme.
A descoberta chamou atenção não apenas pelo tamanho do relevo oculto, mas pelo que ele representa para a ciência polar. O Denman não é apenas um glaciar remoto e colossal. Ele também é uma área estratégica para entender como a base rochosa da Antártida pode influenciar a estabilidade do gelo e, no futuro, o nível global dos oceanos. Segundo a NASA Earth Observatory, a linha de aterramento do glaciar recuou 5,4 quilômetros entre 1996 e 2018 em sua porção oeste, justamente onde o relevo profundo favorece maior vulnerabilidade ao avanço da água oceânica sob o gelo.
Glaciar Denman esconde um cânion colossal sob milhares de metros de gelo
O aspecto mais impressionante da descoberta é que ninguém jamais viu esse cânion diretamente. Segundo a University of California, Irvine, a depressão está completamente coberta pela camada de gelo antártica e só pôde ser reconstruída por meio da combinação de radares aerotransportados, dados de satélite e modelagem computacional avançada. O projeto BedMachine Antarctica reuniu medições de múltiplas campanhas científicas para gerar o retrato mais preciso já feito da base rochosa sob o gelo do continente.
-
Brasil recebe enxurrada de carros chineses eletrificados, mas a dúvida assusta donos e oficinas: quando baterias, módulos e peças começarem a falhar, mecânicos despreparados podem ficar para trás e motoristas podem enfrentar espera, custo alto e um novo gargalo na manutenção automotiva
-
Empresas admitem estar demitindo por esse motivo, mas pesquisa revela bastidor incômodo: 59% usam inteligência artificial para justificar cortes, enquanto só 9% dizem ter substituído funções totalmente e trabalhadores tentam entender o real risco
-
China conclui projeto offshore gigante com 400 MW de energia solar, hidrogênio verde e baterias no mar para tentar resolver o maior problema das renováveis: produzir energia limpa sem depender apenas do sol
-
Pesquisadores que analisaram 197 países e territórios alertam que 1,8 bilhão de adultos não se movimentam o suficiente, colocando coração, metabolismo e saúde mental em risco por causa de uma rotina cada vez mais parada
Até a publicação dos novos mapas, os cientistas já sabiam que existia um vale sob o Denman, mas não tinham noção exata de sua profundidade. Segundo os pesquisadores, o relevo real apareceu como muito mais extremo do que as estimativas anteriores sugeriam, revelando uma paisagem subglacial dramaticamente mais funda e complexa do que se imaginava.
Isso mudou a leitura geográfica da Antártida. Em vez de uma base relativamente uniforme sob a calota polar, o continente passou a aparecer como uma estrutura marcada por vales profundos, montanhas enterradas, cristas rochosas e depressões gigantescas, muitas delas invisíveis à superfície.
Ponto mais profundo em terra firme fica na Antártida Oriental e não pode ser visto a olho nu
O caso do Denman é fascinante porque desafia a forma como as pessoas normalmente pensam geografia extrema. Diferentemente de cânions famosos, desertos profundos ou grandes falhas expostas, o ponto mais profundo em terra firme não pode ser visitado nem observado diretamente. Ele está selado sob uma massa colossal de gelo antártico.
Segundo a University of California, Irvine, o cânion fica sob um glaciar que escoa em direção ao Mar de Mawson, na Antártida Oriental, e o relevo enterrado desce até cerca de 3,5 quilômetros abaixo do nível do mar.

Essa escala ajuda a entender por que a descoberta teve tanto impacto. O que parecia apenas uma vasta superfície branca escondia, na verdade, uma geografia gigantesca e profundamente encaixada, preservada fora do alcance do olhar humano. A paisagem real da Antártida continua sendo, em grande parte, uma paisagem revelada por instrumentos e cálculos, e não por observação direta.
É justamente isso que torna o Denman tão simbólico. Mesmo na era dos satélites, um dos maiores segredos geográficos do planeta permaneceu oculto até que novas ferramentas de mapeamento conseguissem atravessar o gelo e reconstituir o que estava abaixo dele.
Projeto BedMachine Antarctica mudou o mapa real do continente gelado
Segundo a University of California, Irvine, o projeto BedMachine Antarctica foi liderado por Mathieu Morlighem e reuniu dados de radar de múltiplas instituições para criar uma nova geração de mapas da Antártida. A técnica usa a física do fluxo de gelo para preencher com muito mais precisão as áreas entre as linhas de medição direta, produzindo um modelo de base rochosa muito mais confiável do que os mapas anteriores.
Esse avanço não serviu apenas para localizar o cânion do Denman. Ele também revelou centenas de feições subglaciais antes mal resolvidas ou completamente desconhecidas. A consequência científica foi imediata: a Antártida passou a ser entendida como um continente subterrâneo muito mais complexo, com regiões potencialmente mais vulneráveis ao aquecimento oceânico e ao recuo do gelo.
No caso do Denman, o novo mapa mostrou que o vale profundo se conecta a uma estrutura geológica ampla, formando uma rota potencialmente sensível para a intrusão de água mais quente sob a base do glaciar. É essa combinação entre profundidade extrema e relevância glaciológica que colocou a região entre as mais observadas da Antártida Oriental.
Recuo do Glaciar Denman preocupa cientistas por causa do formato do vale subglacial
Segundo a NASA Earth Observatory, o Glaciar Denman perdeu posição em sua linha de aterramento ao longo de mais de duas décadas. Entre 1996 e 2018, a linha recuou 5,4 quilômetros em sua porção oeste. A linha de aterramento é a região onde o gelo deixa de repousar sobre o solo e começa a flutuar, e seu deslocamento é um indicador importante da estabilidade de um glaciar.
O que preocupa os pesquisadores é o relevo da base. Segundo a NASA, o lado ocidental do Denman repousa sobre um vale profundo que desce em direção ao interior do continente. Esse tipo de configuração pode facilitar a entrada de água oceânica relativamente mais quente sob a massa de gelo, favorecendo novas perdas de estabilidade se o recuo continuar.

Isso não significa colapso imediato, mas explica por que o Denman passou a ser monitorado com tanta atenção. O tamanho do cânion oculto não é apenas uma curiosidade geográfica. Ele influencia diretamente a forma como o glaciar responde ao oceano e, portanto, o potencial de contribuição futura para a elevação do nível do mar.
Maior abismo continental da Terra continua invisível sob o gelo da Antártida
O aspecto mais fascinante da história é que o local mais profundo já identificado em terra firme continua completamente invisível para quem pisa na Antártida. Sobre ele existe uma camada espessa de gelo que esconde totalmente a paisagem. Não há paredão exposto, não há mirante natural, não há cena grandiosa como nos cânions famosos do planeta. Há apenas gelo, vento, satélites, radares e modelos digitais.
A descoberta do cânion sob o Glaciar Denman mostrou que alguns dos maiores segredos geográficos da Terra ainda não estão nas profundezas do oceano ou em áreas tropicais inexploradas, mas enterrados sob um continente congelado que continua revelando novas surpresas mesmo em plena era espacial. E no caso do Denman, o segredo geográfico também virou alerta climático.


Seja o primeiro a reagir!