Oak Ridge National Laboratory desenvolve turbinas com manufatura aditiva BAAM para viabilizar geração em até 80 mil barragens americanas hoje sem turbinas instaladas.
Em 80 mil barragens espalhadas pelos Estados Unidos, apenas 3% têm turbinas instaladas para gerar eletricidade. As turbinas impressas em 3D do Oak Ridge National Laboratory podem mudar essa estatística histórica.
O movimento é detalhado em reportagem do Interesting Engineering. Segundo a publicação, a tecnologia já saiu do laboratório.
Conforme a publicação, a parceria envolve ORNL, a empresa Cadens Hydro e o Departamento de Energia dos EUA. O objetivo é destravar dezenas de gigawatts parados.
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O número citado por análises setoriais chega a 29 GW. Por isso, o projeto tem ambição clara.
Segundo o DOE oficialmente, o potencial conservador é de 12 GW em barragens existentes sem geração. Os 29 GW incluem também modernizações.
Em outras palavras, é mais que a capacidade total da hidrelétrica de Itaipu, que entrega 14 GW. Apenas reaproveitando infraestrutura já existente.

O que são as turbinas impressas em 3D do ORNL
O ORNL opera a Manufacturing Demonstration Facility (MDF), um dos principais hubs mundiais de fabricação aditiva em grande formato. Conforme o próprio laboratório, a tecnologia central é a BAAM.
BAAM significa Big Area Additive Manufacturing. É uma impressora 3D industrial gigante capaz de imprimir peças com vários metros de comprimento. A taxa de deposição chega a dezenas de quilos de material por hora.
Por isso, a tecnologia permite duas abordagens principais:
- Impressão direta de componentes não críticos — carcaças, ductos, protótipos e turbinas para baixas quedas
- Impressão de moldes para fundição — reduz drasticamente o tempo de fabricação de peças metálicas
- Compósitos termoplásticos — ABS ou nylon reforçados com fibra de carbono ou vidro
- Diâmetros típicos de 1 a 3 metros para PCHs e modernização de barragens
De acordo com os documentos do DOE, a estratégia é “standardize, modularize and digitize” a cadeia de pequenos projetos hidrelétricos. Em português: padronizar, modularizar e digitalizar.
Por que 29 GW estão parados nos EUA
Conforme estudo do DOE intitulado “An Assessment of Energy Potential at Non-Powered Dams”, existem cerca de 80 mil barragens nos EUA. Por outro lado, apenas 3% delas geram eletricidade.

Em outras palavras, são 77.600 estruturas de concreto erguidas para outros fins. Controle de cheias, irrigação ou navegação são exemplos comuns. O potencial oficial é de 12 GW conservadoramente.
Por isso, o número de 29 GW citado em análises da indústria amplia o cenário. Inclui modernização de usinas existentes e novas hidrelétricas de baixo impacto.
Conforme a National Hydropower Association, o gargalo histórico para esses projetos é o custo das turbinas.
Como as turbinas impressas em 3D reduzem custos
Segundo relatórios do DOE e da indústria, as turbinas são um dos itens mais caros em hidrelétricas de pequeno porte. A engenharia sob medida, fundição e usinagem somam barreiras.
Com a adoção da fabricação aditiva em grande escala, os objetivos são:
- Reduzir custos de componentes em 20% a 40%, dependendo da rota
- Diminuir custo total de projetos small hydropower em 10% a 20%
- Encurtar prazos de semanas para dias na fabricação de moldes
- Permitir produção distribuída próxima das barragens
Por isso, a abordagem é classificada pelo DOE como caminho para “reduce time to market”. Em outras palavras, encurta o tempo entre projeto e operação comercial.
Citação direta do pesquisador do ORNL
Brian Post, pesquisador do ORNL na área de fabricação aditiva, sintetiza a aposta. Em declaração disponível no portal do laboratório, ele afirma:
“Large-scale additive manufacturing lets us produce complex energy components faster and at lower cost, enabling designs that would be impractical with traditional methods.”

De acordo com pesquisadores associados ao Water Power Technologies Office do DOE, o ganho é duplo. Por outro lado, a tecnologia abre portas para geometrias antes impossíveis.
Em outras palavras, designs que exigiriam ferramentaria pesada e usinagem complexa agora podem ser impressos. A flexibilidade abre espaço para novos projetos.
O que isso significa para o Brasil
O Brasil é uma potência hidrelétrica global. Conforme dados da EPE e do ONS, o país possui cerca de 190 GW de capacidade instalada. A hidreletricidade responde por 55-60% da matriz elétrica.

Por isso, Itaipu (14 GW, binacional) e Belo Monte (11 GW) estão entre as maiores do mundo. Nos EUA, a hidreletricidade representa apenas 6-7% da geração elétrica.
Ainda assim, o Brasil tem potencial remanescente em PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) e CGHs. Milhares de megawatts estão mapeados em rios de médio porte.
Conforme a ABRAPCH, a lógica brasileira é parecida com a americana. Turbinas sob medida para PCHs são caras e demoram para ficar prontas.
Aplicação em PCHs e modernizações brasileiras
Em outras palavras, a impressão 3D de grande escala poderia reduzir custos para a indústria nacional. Por isso, facilitaria prototipagem de turbinas tipo Kaplan, Bulbo ou soluções para baixas quedas.
Da mesma forma, encurtaria cronogramas de obra. Conforme analistas do setor, prazos longos historicamente afastaram investidores de PCHs no Brasil.
Em grandes usinas como Itaipu, o papel imediato é mais indireto. Por outro lado, a tecnologia serviria para produção de moldes, modelos hidráulicos e peças de reposição.
Os limites das turbinas impressas em 3D
Apesar do entusiasmo, há ressalvas importantes. Em primeiro lugar, a maior parte dos projetos com BAAM para turbinas está em fase de demonstração tecnológica.
Conforme a documentação do DOE, não há frota comercial nos EUA operando exclusivamente com turbinas estruturais impressas. O caminho começa por peças auxiliares.
Por isso, materiais críticos precisam de qualificação rigorosa. Componentes que trabalham sob altas tensões e ciclos longos exigem certificação estrutural.
O futuro próximo da hidreletricidade impressa
Conforme a documentação técnica do ORNL, a estratégia de curto prazo é foco em pilotos e modernização de pequenas usinas. Por isso, o impacto marginal é mais fácil de medir.
Em médio prazo, com qualificação de processos e materiais, a tecnologia migra para componentes de maior responsabilidade. Ainda assim, exigirá anos de validação.
Vale lembrar que a meta de “destravar 29 GW” deve ser lida como cenário amplo. Inclui vários instrumentos de política pública, não apenas impressão 3D.
Em outras palavras, a fabricação aditiva é uma das ferramentas. Por outro lado, o sucesso depende de financiamento federal e cadeia industrial robusta.
Conforme a cobertura energética brasileira sobre modernização do setor elétrico, o caso americano serve de espelho. As lições sobre custo e tempo se aplicam ao mercado de PCHs brasileiras.
No entanto, é preciso uma ressalva final. A tecnologia ainda enfrenta limitações em peças críticas estruturais. Porém, o ritmo de avanço é acelerado nos últimos cinco anos.
Será que o Brasil vai aproveitar essa onda de fabricação aditiva para destravar o próprio potencial hidrelétrico engessado, ou ficará apenas observando do lado de fora a nova revolução industrial do setor?

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