Ptahshepses serviu seis faraós, casou com a filha de um rei e foi enterrado em mastaba de 42 metros por 22 metros há 4.400 anos — arqueólogos tchecos usaram satélites para encontrá-lo 160 anos depois de a tumba ter sido descoberta e esquecida sob a areia
Ele nasceu na corte de Gizé, serviu seis faraós egípcios e casou com a filha de um rei. Morreu aos 65 anos, foi sepultado com honras em uma tumba de Ptahshepses monumental e desapareceu sob as areias do Deserto Ocidental por milênios. Quando um erudito francês o encontrou na década de 1860, levou artefatos para o British Museum — e a tumba sumiu de novo.
Agora, 160 anos depois, arqueólogos tchecos redescobriram a tumba de Ptahshepses usando imagens de satélite e mapas antigos. O achado, anunciado pelo Czech Institute of Egyptology da Universidade Charles (Praga), revelou uma múmia completa, pinturas preservadas e jarros canópicos intactos.
“A tumba de um homem que mudou o curso da história egípcia foi assim redescoberta, representando uma das maiores descobertas recentes da expedição”, afirmou Miroslav Bárta, chefe de pesquisa em Abusir, conforme a Universidade Charles.
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Quem foi Ptahshepses e por que sua tumba importa
Ptahshepses foi um alto oficial faraônico com uma carreira sem paralelo documentado. Educado na corte do faraó Menkaura, o último rei construtor de pirâmides em Gizé, ele atravessou a transição entre a 4ª e a 5ª Dinastias do Antigo Reino.
Ao longo da vida, serviu sob seis reis consecutivos: Menkaura, Shepseskaf, Userkaf, Sahura, Neferirkara e Nyuserre. Casou com Khamaat, filha do faraó Userkaf, consolidando sua posição como ponte entre a corte real e a administração do Estado.
Sua tumba de Ptahshepses é considerada um elo entre as mastabas simples das primeiras dinastias e os complexos funerários familiares que viriam depois. Dessa forma, ela documenta a evolução das práticas de sepultamento e mumificação no Antigo Reino.
- Período: séculos XXV–XXIV a.C. (~4.400 anos)
- Localização: entre Abusir e Saqqara, a sul do Cairo
- Dimensões: mastaba de 42 m × 22 m, mais de 4 metros de altura
- Faraós servidos: 6 (Menkaura → Nyuserre)
- Esposa: Khamaat, filha do faraó Userkaf
- Idade na morte: pelo menos 65 anos

Como imagens de satélite redescobriram a tumba de Ptahshepses
A primeira escavação da tumba aconteceu na década de 1860, conduzida pelo erudito francês Auguste Mariette. Ele removeu a falsa porta e o lintel do sepulcro, peças que acabaram no British Museum, em Londres, onde permanecem até hoje.
Depois dessa intervenção, a areia do Deserto Ocidental cobriu a mastaba novamente. “Desapareceu novamente sob as areias”, explica Renata Landgráfová, diretora do Czech Institute of Egyptology.
A busca moderna levou vários anos até que a equipe combinasse imagens detalhadas de satélite com mapas antigos da região de Abusir–Saqqara. Em 2022, a tumba foi finalmente localizada. As escavações se estenderam pelas temporadas de 2022 e 2023, com a câmara funerária examinada na primavera de 2023.
Outras redescobertas recentes no Egito confirmam a riqueza arqueológica da região. Uma missão espanhola-egípcia também revelou uma mastaba monumental em Saqqara com artefatos do Antigo Reino.

O que os arqueólogos encontraram dentro da tumba
A câmara funerária guardava uma múmia completa, deitada de costas no sarcófago parcialmente aberto. Antropólogos egípcios confirmaram que Ptahshepses morreu com pelo menos 65 anos.
Além da múmia, a equipe encontrou jarros canópicos para órgãos internos, cerâmica e oferendas votivas. A tumba foi roubada ainda na antiguidade, o que significa que joias e tesouros não sobreviveram. Contudo, o equipamento funerário básico permaneceu no lugar.
A capela da entrada preservava pinturas coloridas com cenas de oferendas e hieróglifos detalhando a carreira política de Ptahshepses. Dois serdabs, salas seladas para estátuas do morto, e um corredor de acesso com bloqueio de pedra calcária in situ completam a estrutura.
Um achado incomum chamou atenção: a primeira múmia de peixe registrada nesse contexto, indicando práticas funerárias ainda mais diversificadas do que se imaginava no Antigo Reino.

A falsa porta no British Museum e a biografia única
A peça mais famosa da tumba de Ptahshepses não está mais no Egito. A falsa porta, levada por Mariette na década de 1860, está exposta no British Museum e contém uma biografia gravada que é única na egiptologia.
Nela, Ptahshepses narra sua ascensão desde menino educado na corte real até se tornar um dos homens mais poderosos do Egito, casando com a filha do faraó. Essa narrativa biográfica em primeira pessoa é uma das mais detalhadas do Antigo Reino.
O achado se compara a outras descobertas que revelam a vida da elite egípcia, como os 10 mil múmias douradas encontradas no Oásis de Bahariya. Para mais detalhes, vale acessar a reportagem do My Modern Met e a cobertura da Czech Radio.

Pesquisa em andamento e limitações
Bárta alerta que “a pesquisa ainda está em andamento, e novas descobertas provavelmente serão feitas para lançar nova luz sobre sua família e seu tempo”. Portanto, o panorama completo da tumba de Ptahshepses ainda não está fechado.
A confirmação de que a múmia é de fato Ptahshepses baseia-se no contexto biográfico da tumba e na análise de idade (65+ anos), mas até o momento não há resultados de DNA publicados. A tumba foi roubada na antiguidade, o que limita o inventário de objetos pessoais.
Ainda assim, o achado é considerado uma das redescobertas arqueológicas mais importantes das últimas décadas no Egito. Financiada por grant do American Research Center in Egypt, a missão tcheca continua as escavações na região de Abusir–Saqqara com planos para novas temporadas.

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