Treze anos depois, a Barragem do Alqueva voltou à cota máxima, obrigando a descargas de até 1.800 metros cúbicos por segundo e enchendo o leito do Guadiana como há muito não se via, com cais submersos, ilhas desaparecidas e margens em alerta.
Depois de anos em que a seca extrema dominava as conversas no Alentejo e no Baixo Guadiana, agricultores, moradores e turistas voltam a olhar para a água com esperança e preocupação ao mesmo tempo. A abundância que enche a albufeira da Barragem do Alqueva devolve reservas hídricas e segurança para os próximos anos, mas também reacende o medo das cheias nas localidades ribeirinhas, especialmente em Mértola e Alcoutim.
A Barragem do Alqueva atinge agora a sua cota máxima com uma capacidade de descarga de 1.800 metros cúbicos por segundo, voltando a empurrar grandes volumes de água pelo leito do Guadiana. Esta alteração rápida no regime do rio é reforçada pelo papel da Barragem de Pedrógão, que também alcançou o limite e passou a descarregar em força. O resultado é um Guadiana que sobe depressa, submerge estruturas habituadas ao nível normal e obriga as populações a voltarem a olhar para o rio com respeito redobrado.
Barragem do Alqueva volta a descarregar o Guadiana em força

Durante anos, o cenário dominante nas notícias era a seca. A Barragem do Alqueva, desenhada para ser o grande reservatório estratégico do sul de Portugal, chegou a ser símbolo de preocupação pela falta de água. Agora, o quadro inverteu.
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Com a albufeira no limite, o excesso tem de ser escoado, e o Guadiana volta a ser alimentado por descargas contínuas e volumosas.
Com a cota máxima atingida, a Barragem do Alqueva está novamente a encher o leito do Guadiana, devolvendo ao rio uma largura e um caudal que já não se viam há muitos anos. Para quem vive à beira-rio, é um misto de alívio e apreensão.
Alívio porque a água acumulada garante reservas para agricultura, consumo e turismo. Apreensão porque, a cada subida de metro, reemerge a memória das enchentes e dos prejuízos associados.
Pedrógão sem margem de manobra agrava a cheia no Baixo Guadiana
O problema não está apenas na Barragem do Alqueva. As chuvas intensas dos últimos dias encheram também a Barragem de Pedrógão, que deveria servir de tampão e controlo do caudal a jusante.
Na prática, Pedrógão também atingiu a cota máxima e ficou sem margem para segurar mais água, passando a descarregar em força para o Baixo Guadiana.
Sem espaço de manobra, as duas estruturas trabalham em conjunto a devolver ao rio volumes elevados num intervalo de tempo relativamente curto.
O efeito é claro: uma subida drástica e praticamente imparável do nível das águas no Baixo Guadiana, com impacto direto nas localidades que dependem da estabilidade do rio para o seu dia a dia, seja na atividade económica, seja no simples acesso aos cais e passadiços.
Mértola: ilhas submersas, moinhos desaparecidos e cais debaixo de água

As imagens de Mértola mostram de forma evidente o que estas descargas da Barragem do Alqueva representam no terreno.
Em registo de caudal normal, o rio exibe uma pequena ilha ao centro, moinhos de água históricos e margens bem definidas. A paisagem é familiar para quem visita a vila ou para quem atravessa a ponte com vista para o Guadiana.
Agora, o cenário é outro. A ilha, os moinhos e a vegetação que antes marcavam o meio do rio estão completamente submersos.
As copas das árvores surgem quase cobertas, indicando uma subida real da ordem dos 6 a 7 metros em relação ao nível habitual, mesmo quando alguns habitantes locais falam em cerca de 10 metros.
Ao comparar as imagens do ano passado com o momento atual, percebe-se como o Guadiana mudou de rosto em muito pouco tempo.
A diferença entre o caudal normal e a cheia atual transforma o que era um vale amplo e definido num corpo de água que parece engolir margens, ilhas e estruturas construídas ao longo de anos.
O cais de Mértola, que costuma ser um ponto de paragem para autocaravanas e turistas, também desapareceu sob as águas barrentas.
O que antes era plataforma de embarque, ponto de encontro e miradouro para fotos tornou-se invisível, escondido vários metros abaixo da superfície.
Alcoutim e Sanlúcar: uma fronteira que sobe com o rio
Mais a jusante, em Alcoutim, a subida do Guadiana é ainda mais simbólica, porque o rio ali funciona como fronteira natural entre Portugal e Espanha. De um lado está Alcoutim, do outro Sanlúcar del Guadiana.
Em condições normais, o cais espanhol e o cais português partilham o mesmo cenário tranquilo, com passadiços visíveis e um espelho de água contido.
Na situação atual, os passadiços de Alcoutim estão submersos, e o cais de apoio aos barcos só resiste graças ao facto de ser flutuante, acompanhando a subida do nível.
A linha habitual entre margem e rio praticamente desaparece, e o Guadiana passa a ser um corpo de água muito mais alto, largo e dominante.
É importante lembrar que o Guadiana, nesta zona, sofre ainda o efeito das marés, que alteram o nível desde a foz até Mértola.
Isso significa que as variações impostas pelas descargas da Barragem do Alqueva e de Pedrógão somam-se às oscilações naturais diárias, criando um regime de água mais imprevisível para quem vive e trabalha na frente ribeirinha.
As cheias de hoje e a memória da cheia histórica de 1876
Apesar de impressionante, o episódio atual não se compara às grandes enchentes de antigamente. As barragens, incluindo a Barragem do Alqueva, mudaram radicalmente a forma como o Guadiana reage a períodos de chuva intensa, reduzindo a frequência e a dimensão das cheias catastróficas que marcaram a história da região.
Numa capela junto ao rio, há uma placa que regista a cheia histórica de 1876. O nível das águas chegou a esse ponto, pelo menos 20 metros acima do que se observa hoje. É um cenário quase inimaginável para quem olha a cheia atual e já a considera impressionante.
A comparação mostra o poder que o Guadiana já teve em estado natural e o quanto a engenharia hidráulica alterou esse comportamento ao longo do último século e meio.
Ainda assim, as imagens recentes servem como lembrete de que o rio mantém uma força própria, mesmo controlado por barragens.
A cada cota máxima atingida, a cada descarga obrigatória, a Barragem do Alqueva revela que o equilíbrio entre segurança hídrica, produção de energia, agricultura e proteção das margens continua a ser um desafio delicado.
Um rio que continua a moldar história e margens
Ao final, as imagens aéreas de Alcoutim e Sanlúcar del Guadiana mostram duas localidades hoje ligadas pelo turismo, pela convivência pacífica e pela partilha do mesmo rio, mas que no passado já estiveram em lados opostos de conflitos, com castelos a vigiar cada margem. A força do Guadiana, tal como a história, continua a moldar as comunidades que crescem à sua volta.
Treze anos depois da última vez em que se viu a albufeira neste nível, a Barragem do Alqueva volta a ser protagonista: garante água, sustenta atividades económicas e, ao mesmo tempo, obriga todos a recordar que viver junto de um grande rio é aceitar que ele muda, sobe, desce e impõe respeito.
Na sua opinião, estas cheias recentes mostram mais o lado positivo da Barragem do Alqueva, por garantir água em tempos de seca, ou o lado de risco, ao voltar a colocar Mértola e Alcoutim em alerta sempre que o Guadiana sobe?


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