O desgaste entre Paris e Berlim se intensifica em meio a divergências sobre apoio militar à Ucrânia, impasse no acordo UE-Mercosul, disputas industriais na área de defesa e percepções distintas sobre liderança política no bloco europeu após o alívio da crise externa
O anúncio feito por Donald Trump em Davos alterou o contexto político europeu poucas horas após semanas de ameaças comerciais e diplomáticas. O presidente dos Estados Unidos afirmou que Washington estabeleceu a estrutura de um futuro acordo sobre a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca.
Segundo Trump, a proposta discutida com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, elimina a imposição de novas tarifas contra países europeus que se opuseram às ambições americanas sobre a ilha ártica. Ele também descartou explicitamente o uso de força militar.
A reação foi imediata. Diversos países europeus, incluindo a Dinamarca, receberam positivamente o anúncio, enquanto os mercados americanos reagiram com forte alta. O acordo reduziu a pressão externa, mas não resolveu as fraturas internas da União Europeia.
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Impacto político em Paris e Berlim após o entendimento com Washington
Antes do anúncio em Davos, França e Alemanha estavam em rota de colisão sobre como reagir às ameaças de Trump envolvendo a Groenlândia e tarifas comerciais.
O chanceler alemão Friedrich Merz defendia uma abordagem conciliadora, enquanto Emmanuel Macron prometia retaliação com instrumentos comerciais da UE.
Com o acordo preliminar, o confronto direto foi esvaziado, mas as diferenças estratégicas permaneceram. O entendimento com Washington removeu o fator emergencial que forçava uma resposta conjunta imediata, expondo divergências acumuladas entre Paris e Berlim.
Um diplomata europeu afirmou que, mesmo sem tarifas, “a parceria franco-alemã continua paralisada”, destacando que o acordo apenas adiou conflitos mais profundos sobre liderança, comércio e defesa dentro do bloco.
Conteúdo do acordo e o papel da Otan na Groenlândia
A estrutura do acordo envolve a renegociação do tratado de 1951 entre Estados Unidos e Dinamarca, que autorizou a presença militar americana na Groenlândia de forma perpétua. Os detalhes da renegociação ainda não estão definidos.
Um oficial da Otan afirmou que foi discutida a possibilidade de a Dinamarca permitir a construção de mais bases militares americanas em áreas consideradas território soberano dos EUA. Trump descreveu o arranjo como um acordo “definitivo” e de duração “infinita”.
Mark Rutte declarou que a soberania dinamarquesa sobre a Groenlândia não foi discutida e que nenhum compromisso nesse sentido foi proposto. Ainda assim, o novo formato reforça a presença estratégica americana no Ártico.
Rússia, China e a lógica geopolítica do novo pacto
Um porta-voz da Otan indicou que as negociações se concentrariam em impedir qualquer presença econômica ou militar da Rússia e da China na Groenlândia. Isso sugere cláusulas explícitas para excluir Pequim e Moscou da ilha.
O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que a questão da Groenlândia não dizia respeito à Rússia, mas em seguida expressou apoio tácito à aquisição do território pelos Estados Unidos, sinalizando aceitação do novo equilíbrio.
A exclusão de rivais estratégicos reforçou o caráter geopolítico do acordo e reduziu a margem de manobra europeia, sobretudo para países que defendem maior autonomia estratégica em relação a Washington.
Minerais, segurança e contradições no discurso americano
Trump afirmou que o acordo inclui direitos sobre minerais de terras raras, envolvendo tanto os Estados Unidos quanto a Otan. Ele não detalhou termos, mas confirmou que os recursos fazem parte da negociação.
Autoridades do governo americano veem a Groenlândia como peça-chave para reduzir a dependência global da China no processamento de terras raras, essenciais para sistemas militares, veículos elétricos e equipamentos médicos.
Apesar disso, Trump minimizou publicamente a importância dos minerais, afirmando que o objetivo central é a segurança nacional e internacional. Horas depois, porém, voltou a citar minerais e defesa antimíssil como pilares do acordo.
Repercussões internas na União Europeia
Horas antes do anúncio em Davos, membros do Parlamento Europeu haviam bloqueado a votação para ratificar um acordo comercial entre Estados Unidos e União Europeia, firmado no ano anterior em resposta a ameaças tarifárias.
O entendimento sobre a Groenlândia esvaziou temporariamente esse impasse, mas não eliminou o desconforto político. Para Paris, o acordo reforça a dependência europeia de Washington. Para Berlim, reduz riscos imediatos de guerra comercial.
A ausência de uma posição europeia única durante as negociações reforçou críticas francesas sobre a assertividade alemã e alimentou frustrações alemãs com a falta de coesão política do governo francês.
Ucrânia, defesa e o desgaste acumulado no eixo franco-alemão
Mesmo com o alívio externo, divergências sobre a Ucrânia continuam centrais. Autoridades alemãs avaliam que a França busca protagonismo político, mas contribui menos financeiramente e militarmente do que Berlim.
O debate sobre o empréstimo de 90 mil milhões de euros da UE à Ucrânia evidenciou o conflito. A França defendeu compras de armas europeias, enquanto a Alemanha propôs priorizar países que mais contribuíram para Kiev.
Um diplomata da UE classificou a posição alemã como um recado direto a Paris, refletindo ressentimentos acumulados e ampliando a desconfiança entre os dois países.
Mercosul e o projeto FCAS como pontos de ruptura
O acordo UE-Mercosul permanece travado, com Berlim frustrada pela oposição francesa, atribuída a pressões internas de agricultores. Para autoridades alemãs, isso mina a credibilidade francesa em negociações estratégicas.
O projeto conjunto de caça FCAS, avaliado em €100 bilhões, entrou em estado crítico após novo impasse entre Paris e Berlim. Parlamentares alemães acusam empresas francesas de exercer pressão excessiva.
Há discussões preliminares sobre desenvolver o caça sem a participação francesa, hipótese considerada um desastre, mas que ilustra o grau de deterioração da cooperação em defesa.
Um acordo que alivia a crise externa, mas expõe fissuras internas
O entendimento sobre a Groenlândia afastou tarifas, descartou intervenção militar e estabilizou temporariamente a relação transatlântica. No entanto, não resolveu as tensões estruturais entre França e Alemanha.
Diplomatas avaliam que, sem uma ameaça imediata, as divergências internas ficam ainda mais visíveis, tornando incerta a capacidade do eixo franco-alemão de liderar a União Europeia nos próximos anos.
