Com 45% do valor exportado em 2024 ainda sob o tarifaço de 40%, setores como tilápia, sebo bovino, mel, café solúvel e uva veem risco de perda de mercado nos EUA e prejuízo projetado de US$ 2,7 bilhões para o agro brasileiro no próximo ano se tarifas extras continuarem valendo.
Em coletiva nesta terça-feira (9), a diretora de Relações Internacionais da CNA, Sueme Mori, afirmou que o tarifaço de Trump mantém sob sobretaxa de 40% 45% do valor que o agro brasileiro exportou aos Estados Unidos em 2024, mesmo após decisões tomadas em abril, julho e novembro para aliviar parte das tarifas sobre alguns produtos.
Segundo os cálculos da entidade, se o quadro não mudar, o setor pode acumular prejuízo de US$ 2,7 bilhões já no próximo ano, com impacto direto sobre cadeias altamente dependentes do mercado americano, como tilápia, sebo bovino, mel, café solúvel e uva, que seguem no foco da taxação adicional.
Quase metade das exportações do agro segue no tarifaço
Pelos números da CNA, quase metade do que o agronegócio brasileiro vendeu aos Estados Unidos em 2024 permanece enquadrado no tarifaço e pagando sobretaxa de 40%.
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Os produtos que ainda não foram contemplados pelas listas de isenção somam 45% do valor exportado, o que explica a apreensão do setor com o desempenho das vendas no próximo ano.
Sueme Mori destacou que os anúncios feitos pela Casa Branca ao longo de 2024 aliviaram, mas não eliminaram a pressão.
Em abril, Trump anunciou uma tarifa recíproca de 10% para cerca de 200 produtos alimentícios de vários países, incluindo o Brasil, medida que só foi revertida em novembro.
Em julho, o presidente americano lançou uma nova sobretaxa de 40% sobre diversos produtos brasileiros, e quatro meses depois suspendeu a taxação para mais de 200 mercadorias.
Ficaram de fora dessa trégua itens relevantes, o que mantém o tarifaço como um fator de incerteza para o agro brasileiro.
Embora café em grão e carne bovina, segundo e terceiro principais produtos do setor vendidos aos EUA atrás dos produtos florestais, tenham sido retirados das listas de sobretaxa, uma parte expressiva da pauta de exportação continua exposta às tarifas adicionais.
Tilápia, sebo bovino e mel dependem fortemente dos Estados Unidos
Os dados da CNA revelam que o tarifaço atinge com maior força cadeias em que o mercado americano é praticamente insubstituível no curto prazo.
No ano passado, 97,4% das exportações de tilápia tiveram como destino os Estados Unidos. No caso do sebo bovino, o índice foi de 93,6%, e no do mel, de 78,2%.
Essa concentração torna qualquer mudança de tarifa ou de demanda em Washington um fator decisivo para frigoríficos, indústrias e produtores brasileiros.
Se a sobretaxa de 40% for mantida, o setor teme redução de volumes embarcados, renegociação para baixo dos contratos e compressão das margens, com reflexos mais intensos sobre pequenos e médios fornecedores inseridos nessas cadeias.
A preocupação é que compradores americanos antecipem ajustes, reduzindo pedidos ou buscando outros fornecedores, o que pode resultar em estoques maiores no Brasil, queda de preços internos e pressão sobre toda a cadeia produtiva da tilápia, do sebo bovino e do mel.
Café solúvel continua sob pressão e teme perda de gôndola
No café, a situação é dividida. Enquanto o café em grão foi retirado da lista do tarifaço, o café solúvel brasileiro segue submetido à sobretaxa adicional de 40%.
Em entrevista concedida em novembro, o diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), Aguinaldo Lima, lembrou que o produto nacional sempre teve forte presença nas prateleiras dos supermercados dos Estados Unidos.
No ano passado, 38% de tudo o que os americanos importaram de café solúvel teve origem no Brasil, e as vendas para os EUA representaram 10% de toda a exportação da indústria brasileira do produto.
Segundo Lima, os parceiros americanos ainda estão “queimando estoques remanescentes” na esperança de que o tarifaço caia, mas, à medida que essa margem diminui, cresce o risco de substituição por cafeicultores de países como México, Colômbia, Vietnã e produtores europeus.
Para a indústria, o temor é que, se a tarifa não for revertida a tempo, os novos acordos firmados com esses concorrentes consolidem uma mudança estrutural nas gôndolas, tornando difícil recuperar o espaço perdido, mesmo se o tarifaço de Trump for derrubado no futuro.
Uva realocada para outros mercados, mas com menos poder de negociação
A uva brasileira também ficou de fora das exceções e segue enquadrada no tarifaço, em um cenário ainda mais desafiador.
Os Estados Unidos são grandes produtores da fruta e aguardam uma supersafra, além de importarem volumes significativos de Chile e Peru, o que reduz ainda mais o espaço para a uva do Brasil dentro do mercado americano.
Apesar de a lista de exceções publicada pela Casa Branca trazer a categoria “frutas frescas”, a uva não foi incluída, segundo a Abrafrutas, após consulta à embaixada.
Diante disso, explicou o diretor-executivo da entidade, Eduardo Brandão, os cachos que deixaram de seguir para os Estados Unidos foram realocados para países da Europa e da América do Sul, evitando um excesso de oferta apenas no mercado interno.
O problema, porém, está no preço. Com menos demanda e maior urgência para fechar novos contratos, o poder de negociação dos exportadores brasileiros de uva caiu, o que levou o setor a aceitar valores mais baixos, reduzindo a rentabilidade da cadeia mesmo com a realocação dos volumes para outros destinos.
Pressão do agro por previsibilidade e fim do tarifaço
Do ponto de vista da CNA, a falta de previsibilidade sobre a duração do tarifaço e sobre quais produtos ainda podem ser liberados em futuras decisões em Washington é hoje o principal fator de insegurança para o agronegócio brasileiro.
Sem um horizonte mais claro, empresas e produtores têm dificuldade para planejar plantio, investimentos e contratos voltados ao mercado americano para os próximos ciclos.
O cálculo de prejuízo de US$ 2,7 bilhões parte de um cenário em que as sobretaxas de 40% permanecem vigentes e em que parte dos compradores dos Estados Unidos migra de forma duradoura para fornecedores alternativos.
Cada mês adicional de tarifa consolida esses concorrentes e torna mais difícil retomar o espaço, mesmo se o tarifaço for desmontado mais à frente.
Diante desse quadro, o setor discute duas frentes: intensificar a pressão diplomática para reverter integralmente o tarifaço de Trump sobre os produtos do agro e, ao mesmo tempo, acelerar a abertura e o aprofundamento de novos mercados em outras regiões, para reduzir a dependência do Brasil em relação às compras vindas dos Estados Unidos.
Na sua opinião, o Brasil deve priorizar a pressão diplomática para derrubar o tarifaço ou investir mais na diversificação de destinos para proteger o agro brasileiro nos próximos anos?

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