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Há 7.300 anos, um supervulcão submarino perto do Japão provocou a erupção mais violenta dos últimos 10 mil anos — agora cientistas confirmaram que ele está se recarregando com magma novo, e o reservatório que alimentou a catástrofe antiga continua ativo

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 25/04/2026 às 06:45
Atualizado em 25/04/2026 às 06:48
Caldeira submarina do supervulcão Kikai com magma visível no fundo do oceano
Representação artística. A caldeira do Kikai tem 19 km de largura e está majoritariamente submersa ao sul das ilhas Ryukyu, no Japão
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A 19 quilômetros de largura e majoritariamente submersa no sul do Japão, a caldeira do Kikai foi responsável pela erupção mais poderosa dos últimos 10 mil anos — e um estudo publicado em março de 2026 confirmou que o mesmo reservatório de magma que alimentou a catástrofe está se recarregando com material novo

Segundo estudo publicado em março de 2026 no ScienceDaily, pesquisadores da Universidade de Kobe e da Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinha (JAMSTEC) confirmaram que o supervulcão Kikai, no sul do Japão, está sendo recarregado com magma novo.

Dessa forma, não se trata de resíduos da erupção anterior. É material fresco, injetado lentamente nas profundezas da caldeira submarina.

Portanto, o mesmo sistema que provocou a erupção mais violenta do Holoceno — há 7.300 anos — continua ativo e acumulando energia, embora em escala de milhares de anos.

A erupção que devastou o sul do Japão há 7.300 anos

Para entender o que significa a recarga do Kikai, é preciso voltar no tempo.

Conforme registrado pela Xataka Brasil, há 7.300 anos a caldeira do Kikai entrou em erupção com uma violência que não tem paralelo no Holoceno.

O evento, classificado como VEI 7 (Índice de Explosividade Vulcânica), lançou entre 133 e 183 quilômetros cúbicos de material na atmosfera.

Além disso, fluxos piroclásticos — nuvens superaquecidas de gás e rocha — avançaram até 100 quilômetros sobre a superfície do oceano.

As cinzas da erupção foram encontradas até em Hokkaido, a mais de 1.000 quilômetros ao norte. Toda a porção sul da ilha de Kyushu foi devastada.

Consequentemente, o colapso do teto da câmara magmática formou a caldeira que existe hoje — uma depressão de 19 quilômetros de largura, quase inteiramente submersa no oceano.

Fluxos piroclásticos avançando sobre a superfície do oceano durante erupção vulcânica
Representação artística. Na erupção de 7.300 anos atrás, fluxos piroclásticos alcançaram 100 km de distância e cinzas chegaram até Hokkaido, a mais de 1.000 km

O magma que está entrando agora é novo — não é resíduo

A descoberta mais importante do estudo de 2026 não é apenas que o Kikai está se recarregando.

O que surpreendeu os pesquisadores é que o magma detectado é quimicamente diferente do material da erupção de 7.300 anos atrás.

Nesse sentido, o geofísico Seama Nobukazu, da Universidade de Kobe, declarou: “Devemos entender como tais grandes quantidades de magma podem se acumular para compreender como ocorrem erupções gigantes de caldeiras.”

Em outras palavras, o reservatório não está simplesmente esfriando. Ele está recebendo injeções de magma novo, vindas de fontes profundas na zona de subducção da Placa do Mar das Filipinas.

Da mesma forma, análises do domo de lava riolítico que se formou no centro da caldeira há cerca de 3.900 anos — com volume estimado de 32 quilômetros cúbicos — confirmam composição distinta, reforçando a hipótese de recarga contínua.

Todavia, a taxa média de reinjeção é de aproximadamente 8,2 quilômetros cúbicos por milênio.

Portanto, estamos falando de um processo que ocorre em escala de milhares de anos — não de décadas.

Navio de pesquisa realizando levantamento sísmico sobre o oceano
Representação artística. Pesquisadores da Universidade de Kobe e da JAMSTEC usaram imagens sísmicas submarinas para mapear o reservatório de magma sob a caldeira

Kikai vs. Yellowstone: dois gigantes adormecidos

De fato, a erupção do Kikai é frequentemente comparada aos grandes eventos vulcânicos da história.

Em termos de escala, equipara-se a Tambora (1815, VEI 7), Santorini (Grécia) e Crater Lake (EUA).

Igualmente, estudos sobre o Kikai ajudam a entender o comportamento de supervulcões como Yellowstone, nos Estados Unidos, e Toba, na Indonésia.

Contudo, há uma diferença importante: enquanto Yellowstone apresenta sinais de recarga ativa em camadas mais superficiais, o Kikai mostra recarga lenta e profunda, sem indicadores de atividade iminente.

Ainda assim, o fato de que o mesmo reservatório da erupção catastrófica continua sendo alimentado é significativo para a vulcanologia.

Isso significa que supervulcões não “morrem” após uma grande erupção — eles se reconfiguram ao longo de milênios.

  • Localização: Sul das ilhas Ryukyu, Japão (majoritariamente submersa)
  • Largura da caldeira: 19 km
  • Erupção Kikai-Akahoya: há 7.300 anos (VEI 7 — a maior do Holoceno)
  • Material ejetado: 133–183 km³ DRE
  • Alcance de cinzas: mais de 1.000 km (até Hokkaido)
  • Fluxos piroclásticos: até 100 km sobre o oceano
  • Taxa de recarga: ~8,2 km³ por milênio
  • Domo de lava: 32 km³ (formado há ~3.900 anos)
  • Instituições: Universidade de Kobe + JAMSTEC
Cidade de Kagoshima no Japão com vulcão ao fundo
Representação artística. A região sul do Japão convive com vulcanismo ativo — Kagoshima fica a poucas centenas de quilômetros da caldeira do Kikai

Devemos nos preocupar?

Apesar do tom alarmante que a palavra “supervulcão” inevitavelmente provoca, os próprios pesquisadores são cautelosos.

A recarga ocorre em escalas de milhares de anos. Não há sinais sísmicos ou geoquímicos que indiquem uma erupção iminente.

Por outro lado, a descoberta muda a forma como a ciência entende a vida útil de um supervulcão.

Dessa forma, se o Kikai está se recarregando, é provável que outros supervulcões ao redor do mundo também estejam — e nem todos são monitorados com a mesma atenção.

Conforme registrado pelo Programa Global de Vulcanismo do Smithsonian, a caldeira do Kikai é monitorada pela rede sísmica japonesa, uma das mais avançadas do mundo.

No entanto, o Japão é um dos poucos países com capacidade de detectar mudanças sutis em sistemas vulcânicos submarinos profundos.

Para a maioria dos supervulcões do planeta, simplesmente não sabemos o que está acontecendo debaixo deles.

Além disso, a área da caldeira — quase 300 quilômetros quadrados — colapsou durante a erupção, engolindo o que antes era uma montanha vulcânica e transformando-a numa depressão oceânica gigantesca.

Por consequência, comunidades humanas que habitavam o sul de Kyushu foram praticamente exterminadas. Evidências arqueológicas sugerem que a região ficou inabitável por séculos após o evento.

Sobretudo, o que torna a descoberta de 2026 relevante não é o risco imediato — que os próprios cientistas consideram praticamente zero nas próximas décadas — mas o que ela revela sobre a mecânica dos supervulcões em escala planetária e sobre como esses sistemas se regeneram ao longo de milênios inteiros.

A perfuração de Kola mostrou que a crosta terrestre esconde surpresas a poucos quilômetros de profundidade. O Kikai lembra que, sob o oceano, gigantes adormecidos continuam respirando — mesmo que levem milhares de anos entre um suspiro e outro.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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