Pesquisa publicada na Science indica que tubarões-martelo-recortados podem prender a respiração durante mergulhos profundos, mantendo o corpo aquecido enquanto caçam.
Um comportamento inesperado pode estar permitindo que os tubarões-martelo-recortados, uma espécie de 3,6 metros, explorem ambientes considerados hostis para a maioria dos peixes.
De acordo com um estudo recente publicado na revista Science, esses animais, tradicionalmente associados a águas quentes, podem prender a respiração durante mergulhos profundos em regiões geladas do oceano.
A pesquisa foi conduzida por cientistas liderados pela Universidade do Havaí e analisou como, onde e por que a espécie consegue caçar em profundidades que ultrapassam centenas de metros.
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A descoberta surge em um momento crítico, já que os tubarões-martelo-recortados estão classificados como criticamente ameaçados de extinção.
Tubarão-martelo-recortado: Caçar no frio extremo exige mais do que força
Durante os mergulhos, os tubarões-martelo-recortados descem até cerca de 800 metros para capturar lulas e outros animais que vivem em águas profundas.
Nessas camadas do oceano, a temperatura pode cair drasticamente, criando um ambiente que afeta diretamente funções vitais.
Água fria demais pode comprometer o metabolismo, a atividade do coração e até a visão, reduzindo a eficiência da caça.
Ainda assim, os dados mostram que esses tubarões continuam ativos e precisos nesses ambientes.
A respiração entra no centro da explicação
Normalmente, os tubarões dependem do movimento constante para empurrar água pelas guelras, garantindo a respiração.
No entanto, manter esse fluxo em águas geladas aumenta a exposição ao frio.
É aí que surge a principal hipótese do estudo: ao fechar temporariamente a boca e as guelras, os tubarões-martelo-recortados podem limitar o contato com a água fria, preservando o calor corporal durante os mergulhos.
“Esse tipo de comportamento nunca foi observado em nenhum tipo de peixe que mergulha em profundidade”, afirmou Mark Royer, biólogo especializado em tubarões e líder da pesquisa.
A ideia de retenção da respiração em peixes mergulhadores era considerada improvável até então.
Segundo Royer, a estratégia observada é “completamente inesperada” e levanta dúvidas sobre o quanto ainda se desconhece sobre o comportamento de grandes predadores marinhos.
Além disso, os tubarões-martelo-recortados não possuem adaptações anatômicas conhecidas para conservar calor, ao contrário de espécies como o atum-azul e o tubarão-mako.
A antiga teoria do “corpo grande” perde força
Antes do novo estudo, muitos cientistas acreditavam que esses tubarões mantinham a temperatura apenas graças à inércia térmica, efeito associado ao tamanho corporal.
A bióloga Marianne Porter, da Florida Atlantic University, explicou essa ideia com uma analogia simples:

“Imagine que você está tentando descongelar seu peru de 7 kg para o Dia de Ação de Graças: você o tira do freezer e leva muito tempo para descongelar — isso é como a inércia térmica”.
No entanto, os registros obtidos pelos pesquisadores indicam que essa explicação não é suficiente.
Sensores mostram quando o corpo esfria — e quando não
Para testar as hipóteses, a equipe acompanhou seis tubarões-martelo-recortados machos ao redor do Havaí.
Ao longo de várias semanas, os animais realizaram mais de 100 mergulhos, enquanto sensores presos ao corpo — descritos por Royer como um “Fitbit para tubarões” — registravam profundidade, movimento e temperatura muscular.
Os dados revelaram que os tubarões conseguiam manter a temperatura corporal tanto na superfície, com águas em torno de 26,6 °C, quanto em profundidades onde a água chega a cerca de 5 °C.
O resfriamento ocorreu, de forma surpreendente, durante a subida, possivelmente quando os animais voltaram a respirar normalmente.
“Isso não é o que se esperaria com a inércia térmica”, explicou Royer.
Evidências visuais reforçam a hipótese dos tubarões-martelo-recortados
Além dos sensores, outras observações fortalecem a conclusão do estudo. Imagens captadas por veículos operados remotamente mostram um tubarão-martelo-recortado adulto nadando a mais de 900 metros de profundidade com as guelras fechadas.
Já em águas superficiais, registros exibem as fendas branquiais abertas.
Experimentos adicionais, realizados com tubarões mortos expostos a banhos de água quente e fria, também apresentaram resultados compatíveis com a retenção da respiração.
Para Porter, o conjunto de dados é convincente. “É um artigo convincente”, afirmou ela. “Estou convencida”.
O que essa descoberta revela sobre o futuro dos oceanos?
A capacidade de prender a respiração pode ajudar os tubarões-martelo-recortados a tolerar ambientes com baixo teor de oxigênio, cada vez mais frequentes em um oceano impactado pelas mudanças climáticas.
Em um comentário científico que acompanha o estudo, Mark Meekan e Adrian Gleiss destacam que essa habilidade pode explicar a presença da espécie em regiões como o Golfo da Califórnia.
Apesar disso, especialistas alertam que sobreviver por curtos períodos não significa adaptação permanente.
“Eu me pergunto o que aconteceria se isso se tornasse sua realidade o tempo todo”, questiona Porter.
Ainda assim, a descoberta redefine os limites conhecidos da biologia marinha e mostra que, mesmo ameaçados, os tubarões-martelo-recortados continuam revelando estratégias surpreendentes para sobreviver em um oceano em rápida transformação.
Com informações da National Geographic Brasil.



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