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A Rússia testou em outubro de 2025 o primeiro torpedo autônomo propulsionado por reator nuclear da história, lançou em novembro o submarino projetado do zero para transportá-lo e criou um sistema de retaliação nuclear capaz de percorrer 10.000 km no fundo do oceano sem deixar rastro no ar, sem trajetória previsível e sem interceptador conhecido capaz de alcançá-lo

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 07/03/2026 às 15:48
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Créditos: : Russian Ministry of Defense
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Poseidon: torpedo nuclear autônomo da Rússia capaz de atingir cidades costeiras sem interceptação entra em fase operacional com submarino Khabarovsk

No dia 28 de outubro de 2025, o presidente russo Vladimir Putin anunciou que a Rússia havia testado com sucesso o Poseidon, um torpedo autônomo de propulsão nuclear desenvolvido para atuar como arma estratégica submarina. O anúncio ocorreu durante uma visita de Putin a um hospital militar em Moscou, onde conversava com soldados feridos na guerra na Ucrânia. Na ocasião, ele afirmou que o sistema havia completado um teste bem-sucedido com o reator nuclear ativado.

Poucos dias depois, em 1º de novembro de 2025, um novo marco reforçou a importância do programa: o submarino nuclear Khabarovsk apareceu pela primeira vez na água no estaleiro Sevmash, em Severodvinsk. A embarcação foi construída especificamente para transportar torpedos Poseidon e representa o primeiro submarino projetado desde o início para essa missão estratégica.

Esse desenvolvimento marcou a estreia operacional de uma arma que especialistas militares descrevem como um dos sistemas nucleares mais incomuns do mundo. O Poseidon foi concebido para atacar cidades costeiras ou bases navais após viajar milhares de quilômetros pelo fundo do oceano sem possibilidade clara de interceptação.

O que é o Poseidon: torpedo nuclear autônomo capaz de percorrer oceanos inteiros

O nome oficial do sistema é 2M39 Poseidon, enquanto o código de identificação da OTAN é Kanyon. Em análises estratégicas ocidentais, ele frequentemente recebe um apelido informal: “drone submarino do apocalipse”, em referência ao seu potencial destrutivo e ao conceito de operação autônoma de longo alcance.

O Poseidon é um veículo submarino não tripulado com propulsão nuclear. Seu tamanho impressiona: o torpedo mede entre 20 e 24 metros de comprimento, dimensões comparáveis às de pequenos submarinos convencionais da Segunda Guerra Mundial. Seu peso estimado é de aproximadamente 100 toneladas, com cerca de 2 metros de diâmetro.

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A arma carrega uma ogiva termonuclear cujo rendimento estimado varia amplamente nas análises públicas. Algumas estimativas mencionam até 100 megatons, embora muitos analistas independentes considerem valores entre 2 e 10 megatons mais plausíveis.

Para comparação histórica, a bomba nuclear lançada sobre Hiroshima em 1945 tinha cerca de 15 quilotons de potência — equivalente a apenas 0,015 megatons.

Uma vez lançado por um submarino portador, o Poseidon opera de forma totalmente autônoma. Seu reator nuclear interno lhe fornece alcance praticamente ilimitado, permitindo que a arma atravesse oceanos inteiros antes de atingir o alvo programado.

Velocidade, profundidade e alcance do torpedo nuclear Poseidon

As estimativas de desempenho do Poseidon indicam velocidades máximas entre 54 e 70 nós, o que corresponde a aproximadamente 100 a 130 km/h debaixo d’água.

Isso o tornaria mais rápido do que a maioria dos submarinos nucleares de ataque atualmente em serviço. Para comparação, um submarino da classe Virginia, da Marinha dos Estados Unidos, opera tipicamente a cerca de 25 nós.

Outro fator importante é a profundidade operacional. Analistas estimam que o Poseidon pode operar a cerca de 1.000 metros de profundidade, um limite que ultrapassa o envelope seguro de operação da maioria dos submarinos ocidentais.

Essa combinação de velocidade elevada, grande profundidade e autonomia nuclear cria um vetor estratégico extremamente difícil de rastrear com sistemas atuais de guerra antissubmarino.

Por que o Poseidon preocupa estrategistas militares e sistemas de defesa da OTAN

Durante décadas, a estratégia de dissuasão nuclear ocidental foi construída sobre uma premissa fundamental: qualquer arma estratégica que siga uma trajetória previsível pode, em teoria, ser interceptada.

Por isso, os Estados Unidos investiram bilhões de dólares em sistemas de defesa antimíssil como Aegis, THAAD e Patriot.

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Mísseis balísticos seguem trajetórias parabólicas detectáveis por radar. Mísseis de cruzeiro voam em altitudes rastreáveis por sensores. Submarinos nucleares podem ser localizados por suas assinaturas acústicas.

O Poseidon não se encaixa em nenhuma dessas categorias.

Ele opera em profundidades onde os sistemas de sonar de longo alcance da OTAN têm cobertura limitada. Durante a Guerra Fria, a rede americana SOSUS, composta por hidrofones instalados no fundo do oceano, foi extremamente eficaz para detectar submarinos soviéticos que geravam ruído constante.

Mas um veículo autônomo movendo-se lentamente em modo furtivo a grande profundidade gera um perfil acústico diferente. Quando esse objeto opera próximo de 1.000 metros de profundidade, a capacidade de rastreamento torna-se muito mais limitada.

Atualmente não existe na doutrina naval ocidental um interceptador projetado especificamente para destruir um torpedo nuclear autônomo operando nessas profundidades.

Origem do programa Poseidon e reação ao fim do Tratado ABM

A existência do Poseidon foi revelada publicamente pela primeira vez em novembro de 2015, quando câmeras de televisão russas capturaram brevemente um documento classificado durante uma reunião entre Vladimir Putin e oficiais militares.

O documento mencionava o projeto Status-6, descrito como um sistema oceânico multipropósito capaz de transportar uma ogiva nuclear por grandes distâncias submarinas. Alguns analistas acreditam que o vazamento foi acidental. Outros consideram que ele foi deliberadamente permitido como sinal estratégico para o Ocidente.

Putin formalizou o desenvolvimento do sistema em março de 2018, quando apresentou uma série de novas armas estratégicas russas durante um discurso sobre o estado da nação. O projeto, no entanto, havia começado muito antes. O desenvolvimento do Poseidon remonta a dezembro de 2001, apenas um mês depois de os Estados Unidos se retirarem oficialmente do Tratado ABM de 1972, que limitava sistemas de defesa antimíssil.

O objetivo russo era criar um vetor nuclear que pudesse contornar completamente qualquer sistema de defesa antimíssil baseado em interceptação aérea.

Acidentes e testes durante o desenvolvimento do torpedo nuclear Poseidon

O programa Poseidon enfrentou uma trajetória irregular durante sua fase de testes. Entre 2016 e 2024, pelo menos 13 testes foram registrados, segundo registros compilados pelo Nuclear Threat Initiative. Desses, apenas alguns foram considerados parcialmente bem-sucedidos.

Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em agosto de 2019, quando uma explosão no campo de testes naval de Nyonoksa, no Mar Branco, matou cinco cientistas nucleares russos.

imagem meramente ilustrativa

O acidente gerou um pico temporário de radiação detectado por sensores de monitoramento na Noruega, sugerindo que o incidente estava relacionado a testes envolvendo sistemas nucleares experimentais.

O teste realizado em outubro de 2025 foi considerado um marco porque, segundo Putin, o Poseidon foi lançado de um submarino com o reator nuclear ativo durante o deslocamento.

Submarino Khabarovsk: plataforma dedicada para lançar torpedos Poseidon

O primeiro submarino adaptado para transportar Poseidons foi o Belgorod, entregue à Marinha russa em 2022. No entanto, essa embarcação era originalmente um submarino da classe Oscar II, que passou por uma conversão profunda para acomodar os novos torpedos.

O Khabarovsk representa uma abordagem diferente. Projetado pelo Rubin Design Bureau em São Petersburgo e construído no estaleiro Sevmash desde 2014, ele foi concebido desde o início como plataforma dedicada para o Poseidon.

O submarino possui comprimento estimado entre 113 e 140 metros, deslocamento de 10.000 a 12.000 toneladas e sistema de propulsão pump-jet, tecnologia utilizada também nos submarinos estratégicos russos da classe Borei-A. Esse sistema reduz significativamente a assinatura acústica da embarcação.

O Khabarovsk foi projetado para transportar até seis torpedos Poseidon em tubos de lançamento na proa, além de torpedos convencionais de 533 mm para autodefesa. A autonomia de patrulha estimada é de 90 a 120 dias, com tripulação aproximada de 100 militares.

Limitações estratégicas do torpedo nuclear Poseidon

Apesar das capacidades impressionantes, o Poseidon apresenta uma limitação importante: sua velocidade estratégica em comparação com mísseis balísticos. Um míssil balístico intercontinental lançado da Rússia pode atingir os Estados Unidos em cerca de 40 minutos.

Já um Poseidon lançado de um submarino no Ártico poderia levar vários dias para alcançar a costa americana, dependendo da rota e da velocidade empregada.

Por isso, muitos analistas classificam o sistema como uma arma de “segundo golpe tardio”. Isso significa que o Poseidon não foi projetado para um ataque imediato, mas sim para garantir retaliação nuclear mesmo em cenários extremos.

Poseidon como nova dimensão da dissuasão nuclear estratégica

A doutrina estratégica russa apresenta o Poseidon não como substituto de mísseis balísticos, mas como um complemento à chamada tríade nuclear.

Tradicionalmente, essa tríade é composta por três vetores principais:

  • mísseis balísticos intercontinentais em silos terrestres
  • bombardeiros estratégicos
  • submarinos lançadores de mísseis balísticos

Cada um desses vetores possui contramedidas conhecidas. Silos podem ser destruídos preventivamente. Bombardeiros podem ser interceptados por caças. Submarinos podem ser rastreados por redes de sonar.

O Poseidon cria um quarto vetor estratégico que opera em um domínio onde praticamente não existe infraestrutura de defesa ativa: o fundo dos oceanos.

A Marinha dos Estados Unidos possui sistemas como Aegis, THAAD e Patriot para interceptar mísseis aéreos, além de submarinos de ataque e aeronaves P-8 Poseidon para guerra antissubmarino.

No entanto, nenhum desses sistemas foi projetado para interceptar um torpedo nuclear autônomo movido a reator nuclear operando a grandes profundidades. Em análise publicada em janeiro de 2026 pela revista Naval Institute Proceedings, oficiais da Marinha americana reconheceram o desafio.

Segundo o relatório, não existem atualmente interceptadores operacionais ou sistemas de resposta rápida projetados para deter um torpedo nuclear autônomo em profundidades oceânicas extremas. Esse é precisamente o problema estratégico que o Poseidon foi criado para explorar.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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